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Longevidade e aposentadoria: 37,5 milhões de brasileiros dependem do INSS

Com o crescimento da expectativa de vida fica a pergunta - como garantir o sustento de tanta gente?

Nas peças íntimas expostas em uma barraca na feira do bairro Amazonas, em Contagem, na Grande BH, está a fonte que garante o complemento da renda de Raimundo José dos Santos, de 72 anos, e da esposa. Aposentado como mecânico industrial, ele recebe dois salários mínimos pelo INSS (Instituto Nacional do Seguro Social).

Todo domingo, Raimundo acorda cedo para vender as roupas que o casal fabrica durante a semana. Sem um plano de previdência privada ou outro investimento, depende do movimento da feira para ter dinheiro no bolso, já que o valor do benefício recebido pelos anos trabalhados como mecânico industrial não é suficiente para os gastos da casa.

“Com o dinheiro mal dá para comer uma fruta. Se quiser comer mais ou menos só a aposentadoria não dá, não”, adverte.

Ele começou como mecânico de carros no interior da Bahia, foi para o Espírito Santo, depois para o Rio e se especializou em lubrificação industrial atuando em plataformas de petróleo. Mesmo com a experiência em alto mar, Raimundo não conseguiu comprovar a insalubridade para ter um salário maior do INSS.

“O salário não é o que era para ser. Queriam laudo, mas a empresa quebrou e eu tinha jogado os contracheques fora. Não tinha como demonstrar, então aposentei aos 65 anos. Trabalhei muito para tentar ganhar mais e consegui os dois salários”, conta o feirante.

Perto de aposentar

Assim como Raimundo, o soldador João Batista Souza, de 57 anos, não tem recursos guardados nem um plano de previdência privada para se manter na velhice. Ele acredita que se aposenta em oito anos, e vai depender exclusivamente do dinheiro do INSS.

“A vida inteira trabalhando, quero viver do que vou ganhar com a aposentadoria”, afirma. João Batista, no entanto, não sabe quanto vai ganhar durante a velhice. “Não tenho os cálculos. Troca governo, muda Previdência. Cada hora uma lei altera o que vamos ganhar. Só Deus pra saber”, reclama.

A esposa está em tratamento contra o câncer, e sua renda é todo o ganho da casa. “Deus abençoe que ela fique curada, e vamos nos manter com este dinheirinho. Agora é esperar”.


As regras em vigor para se aposentar pelo INSS, aprovadas com a Reforma da Previdência em 2019, são:
  • Homens: precisam ter ao menos 65 anos de idade e 15 de contribuição;

  • Mulheres: mínimo de 62 anos de idade e 15 de contribuição;

  • Para trabalhadores rurais, a idade mínima é reduzida para 60 anos, no caso dos homens, e 55 para mulheres.


Dependência do INSS

Os recursos da previdência beneficiam 37,5 milhões de brasileiros, segundo o último Boletim Estatístico da Previdência Social. Destes, 22 milhões recebem pelo regime geral (ou seja, trabalhadores da iniciativa privada e servidores não vinculados a regimes próprios). São R$ 48,7 bilhões desembolsados por ano pelo INSS – a título de comparação, em 2006 eram R$ 12,6 bilhões.

90% dos aposentados dependem exclusivamente dos recursos recebidos pelo INSS. Qualquer ganho extra vai depender de trabalho informal ou da ajuda de parentes.

Os planejadores financeiros recomendam em tom uníssono: é preciso fazer as contas e ter disciplina para guardar um pouco de dinheiro, a cada mês, para garantir uma poupança extra na aposentadoria. Para isso, há fundos de investimentos específicos, como os planos de previdência privada.

Mas e o trabalhador que vai vendo a aposentadoria se aproximar e não conseguiu juntar dinheiro durante a carreira? Há alternativa para não depender apenas do INSS? Guilherme Leão, Presidente do Conselho de Economia da ACMinas e presidente da Mais Previdência, explica que as possibilidades são escassas, mas existem.

“As possibilidades de formar uma reserva de poupança capaz de cumprir o papel de renda complementar ao INSS ficam reduzidas. Quanto antes começar, menor será o esforço de poupança, e maior a reserva acumulada”, alerta.

Levantamento da Associação Brasileira de Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA), em parceria com o Datafolha, divulgado em 2023, mostra que 51% dos brasileiros não-aposentados estimam que precisarão da previdência social para o sustento. Entre os que trabalham, apenas 18% dizem ter tido condições de começar a fazer reservas para a aposentadoria. Um terço destes está nas classes A e B.

Alternativa

Uma hipótese para quem já tem 20 ou 30 anos na mesma empresa, por exemplo, seria a utilização do dinheiro de uma eventual rescisão para comprar um título de previdência privada. Assim, o trabalhador não ficaria sujeito a grandes variações de mercado.

“É muito comum que as pessoas que não planejaram sua previdência privada, quando recebem uma rescisão trabalhista ou herança, decidem administrar os recursos por conta própria, ou com orientação de um gerente de banco ou compram um imóvel para manter uma renda de aluguel. Não deixa de ser uma alternativa, mas constitui uma estratégia de maior risco frente a um investimento em previdência privada, já que nessa hipótese seus investimentos terão uma baixa diversificação”, explica o especialista.


Dicas para a aposentadoria complementar:
  • Contar com apoio de um especialista credenciado para a gestão dos recursos poupados: “existem riscos no mercado financeiro que podem destruir em meses um patrimônio que levou anos para ser construído”.

  • Estudar as opções disponíveis: é preciso conhecer modalidades de renda fixa e renda variável antes de escolher em que investir. Na dúvida, prefira opções conservadoras – o risco é menor, mas elas também rendem menos.

  • Evite o investimento “da moda”. Um amigo ganhar dinheiro com uma aplicação financeira não significa que ela será garantia de lucros; o mercado muda a todo instante.

  • Atenção aos golpes! Se algum “especialista” oferecer um investimento “garantido”, desconfie: é grande a chance de ser golpe. Modalidades com alto rendimento possuem também alto risco associado, e a chance de perder tudo é real.

  • Conheça os diferentes planos de previdência privada: há dois modelos: PGBL e VGBL. O Plano Gerador de Benefícios Livre é ideal para quem faz a declaração completa do Imposto de Renda e permite dedução de até 12% da renda com o valor investido. Já o Vida Gerador de Benefícios Livre é para quem faz a declaração simplificada, e a a tributação será sobre os rendimentos e não pelo investimento total.

  • Conheça os planos de aposentadoria do Tesouro Nacional: O Tesouro Direto pode ser uma alternativa para poupar durante a carreira e tem a garantia do governo para receber os recursos ao fim do tempo de contribuição.

  • Atenção para o imposto de renda: o senso comum diz que tem está perto da aposentadoria não conseguirá pagar um plano de previdência privada. Mas, se a pessoa tem 65 anos e paga alta quantia de imposto de renda, um plano de previdência privada na modalidade PGBL pode ser uma boa opção para ter deduções legais no imposto.

  • Simulador: é essencial saber a meta de poupança necessária e a projeção de renda futura. Instituições financeiras sérias possuem simuladores para que o trabalhador acompanhe a evolução da renda em um período selecionado. No próprio site do INSS, na aba “Meu INSS”, é possível simular quanto se receberá da previdência social de acordo com o tempo e o valor de contribuição.


Como funciona o INSS?

O INSS foi criado em 1990, mas a previdência social remete à República Velha: completou 100 anos no Brasil em janeiro de 2023. O sistema depende da contribuição de quem está na ativa. O pagamento de uma renda básica de sustento para os inativos depende, portanto, do dinheiro que entra no sistema. Só que o déficit aumenta a cada ano (no mundo todo), por conta do aumento da expectativa de vida e da redução do número de filhos a cada geração (consequentemente, os idosos vivem mais tempo e há menos gente entrando no mercado de trabalho para contribuir).

Com menos gente para contribuir, propostas de reforma surgem para evitar um colapso do sistema de previdência. Assim, a tendência é que, ao longo dos anos, o trabalhador que depende do INSS só perca. Novas reformas devem:

  • prolongar a idade mínima de aposentadoria;

  • reduzir o valor médio e o teto dos benefícios;

  • aumentar o tempo de contribuição.

Jornalista graduada pelo Centro Universitário Newton Paiva em 2005. Atua como repórter de cidades na Rádio Itatiaia desde 2022
Enzo Menezes é chefe de reportagem do portal da Itatiaia. Formado em jornalismo pela Fumec, tem pós-graduação em Poder Legislativo e Políticas Públicas pela Escola do Legislativo da ALMG. Foi produtor e coordenador de produção da Record e repórter do R7 e de O Tempo
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