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123milhas: entenda de forma simples o que fez a empresa entrar em crise

Agência teria feito decisão errada de negócio e apostado em um ‘cenário perfeito’, sem se preocupar com o lucro; especialista não vê indícios de pirâmide financeira

A crise da 123milhas é um dos assuntos mais comentados das últimas três semanas em todo o Brasil. A repercussão começou na internet, ganhou as ruas e os tribunais de Justiça e, por fim, chegou até ao Congresso Nacional. A crise da empresa, que tem mais de 700 mil credores e uma dívida superior a R$ 2,3 bilhões, não é simples de entender…mas alguns especialistas ouvidos pela Itatiaia conseguiram simplificar a situação.

O estrategista em finanças Júlio Damião fez uma análise do pedido de recuperação judicial da agência de viagens e “resumiu” a situação em uma publicação no Linkedin que já acumula milhares de curtidas. Em conversa com a Itatiaia, o especialista analisou a crise da 123milhas de forma simples: “foi uma decisão errada de negócio”.

“Eles não esperavam uma alta das passagens aéreas. Para o modelo de negócios deles funcionar, teria que dar tudo certo. Eles apostaram no cenário perfeito, apostaram que as passagens não iam subir e, quando veio a alta, não fizeram nada.”

Por que a 123milhas entrou em crise?

Júlio Damião explica que a 123milhas vendia as passagens aéreas com um preço abaixo do mercado e ficava com o dinheiro do cliente. Ao mesmo tempo, adquiria milhas aéreas no mercado e usava essas pontuações para comprar os bilhetes poucos dias antes da viagem do consumidor, correndo o risco de pagar mais do que cobraram pela passagem.

“Em finanças, isso se chama ‘especulação’. Em negócios, se chama ‘não fazer hedge’. Esse desacerto de caixa chegou a R$ 2,3 bilhões. Eles pensaram o negócio de forma escalável e não priorizaram o lucro.”

O coordenador de Ciências Exatas do Ibmec, Walter Morais, vai além e afirma que a 123milhas “não vendia uma passagem aérea para o cliente, mas sim uma proposta de viagem”. Segundo ele, a empresa apostou todas as fichas nas milhas aéreas, que podem ter sua política de uso alterada a qualquer momento.

“Cada empresa de transporte tem uma política com milhas e isso pode ser alterado a qualquer momento. Nada garante uma correspondência imediata entre o valor das milhas hoje e na hora da compra da passagem. Eles faziam a movimentação com milhas mas, na hora de adquirir os bilhetes, as milhas podem não ser mais suficientes.”

123milhas é pirâmide?

A convocação dos sócios da 123milhas à CPI das Pirâmides Financeiras na Câmara dos Deputados deu impulso às suspeitas de que o negócio da empresa seria um esquema de pirâmide financeira. Mas o estrategista Júlio Damião afirma que, por enquanto, nada comprova essa suspeita.

“Não acho que é um esquema Ponzi, uma pirâmide financeira. É até irresponsável afirmar isso agora, sem nenhuma prova. Pode ser que as investigações consigam comprovar isso. Por enquanto, me parece apenas uma decisão errada de negócio.”

Crise na 123milhas

A agência de viagens 123milhas surpreendeu milhares de clientes no dia 18 de agosto, após anunciar o cancelamento de pacotes de viagens promocionais, que atraíam muitas pessoas pelo preço baixo. A decisão revoltou clientes e fez a empresa pular rapidamente para o 1º lugar no ranking de empresas mais “denunciadas” do portal ReclameAQUI.

No dia 29 de agosto, a 123milhas um pedido de recuperação judicial na 1ª Vara Empresarial da Comarca de Belo Horizonte, em Minas Gerais. No pedido, a empresa afirma que enfrenta a “pior crise financeira de sua história” e alega que “fatores internos e externos impuseram um aumento considerável de seus passivos nos últimos anos”. O pedido foi aceito pela Justiça no dia 31 de agosto. Confira os detalhes do pedido.

Advogados ouvidos pela Itatiaia afirmam que a empresa não pode oferecer apenas vouchers como forma de reembolso para os clientes e explicam que os consumidores têm o direito ao ressarcimento em dinheiro. Veja quais são os seus direitos.

Jornalista formado pela UFMG, com passagens pela Rádio UFMG Educativa, R7/Record e Portal Inset/Banco Inter. Colecionador de discos de vinil, apaixonado por livros e muito curioso.
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