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Faustão teve privilégio para o transplante? Médico explica como funciona fila da doação de órgãos

A fila de doação de órgãos é única em todo o país e depende de critérios como gravidade do caso, compatibilidade e tempo de espera

Apesar de críticas e rumores que tomaram conta das redes sociais na última semana, especialistas garantem que, de nenhuma maneira, o apresentador Faustão burlou a fila do transplante para receber um coração. O comunicador foi operado neste domingo (27) após ficar cerca de 10 dias na espera.

Omar Lopes Cançado Junior, médico-cirurgião e diretor-geral do MG Transplante, explica que, no Brasil, é proibido a venda e compra de órgãos, e todo o sistema de doação é coordenado exclusivamente pelo SUS. Por isso, todas as pessoas ficam na mesma fila, independente de condição financeira e social, ou se está usando plano particular.

“A fila de espera é única, você vai entrar na fila e vai esperar sua vez, independente de você ser particular, SUS ou convênio. A gravidade é o que faz passar na frente, quando o paciente entra em urgência. Cada órgão tem os critérios de gravidade específicos. O fígado, por exemplo, quando o paciente tem uma hepatite fulminante, ele não consegue esperar meses se não vai morrer, então ele passa na frente das outras. O coração é o mesmo, se o paciente tem uma espécie cardíaca grave, que ele não consegue mais tratar e se não for transplantado ele morre. Por isso ele passa na frente, isso que foi e este foi o caso do Faustão”, explica o médico-cirurgião.

A fila de espera, inclusive, não é linear. Isso porque ela depende de uma série de critérios de “desempate”, entre eles:

  • Gravidade do caso

  • Compatibilidade com o órgão disponível para doação

  • Tempo de espera na fila

Por isso, uma pessoa pode estar há meses na fila e alguém com apenas semanas receber um órgão antes. Essa pessoa pode ter um caso mais grave ou o órgão disponível ser mais compatível com seu corpo. A ideia do sistema é aproveitar ao máximo o órgão doado, para que o paciente não precise voltar para a fila devido a uma rejeição.

“A gente insere todos os dados do receptor e do doar no sistema, e ele gera uma lista que vai pontuar todos esses fatores. A compatibilidade tem a ver com quanto mais parecido o doador for do receptor, como a idade e o tamanho da pessoa. O doador adulto não pode doar para uma criança, por exemplo, o órgão não vai caber. O tempo de espera funciona muito mais como um critério de desempate do que de distribuição de órgãos, exatamente para favorecer que o órgão e o paciente sobrevivam mais tempo então. Se eu der um órgão para uma pessoa mais parecida com doador, aquele órgão vai viver muito tempo do que se eu der para pessoa muito diferente, em que ele iria durar uns dois anos”.

A lista de espera é pública, mas não pode ser divulgada por conter informações sensíveis e privadas do paciente, segundo a Lei Geral de Proteção de Dados. Entretanto, os pacientes tem acesso a esta fila e sabem qual a sua situação no sistema. Por isso, Omar Lopes Cançado Junior garante que não tem como furar fila.

Atualmente, 26 pacientes esperam por um coração em Minas Gerais.

Queda na doação de órgãos

Após a pandemia da Covid-19, a negativa de famílias em doar órgãos cresceu em 15%. Atualmente, 45% das famílias não permitem a doação de órgão de paciente com morte encefálica. Mesmo deixando por escrito antes da morte, é apenas a família do doador que pode autorizar a doação.

Segundo o diretor-geral do MG Transplante, Omar Lopes Cançado Junior, pode doar órgãos a pessoa que tiver morte encefálica e não possuir nenhum tipo de infecção ou câncer, isso para evitar que a doença seja transmitida ao paciente transplantado.

“Vai depender muito mais das condições de saúde daquele doador no momento da doação, porque o órgão que ele vai doar tem que estar em perfeitas condições para poder funcionar bem no receptor. Os órgãos têm que estar funcionando bem e não ter nenhuma outro doença que possa ser transmitida do doador por receptor, por exemplo, um câncer, ou alguma infecção que possa ser transmitida, seja u bacteriana ou virótica. Doença autoimune não tem problema porque essas doenças não são transmissíveis”.

Atualmente, cerca de 30% dos pacientes que estão na fila esperando por um órgão morrem antes do transplante. As maiores filas são para córneas e rins, com cerca de 3 mil pacientes no estado de Minas Gerais. No Brasil, mais de 60 mil pessoas estão na fila para doação de órgãos, 7 mil delas em Minas Gerais.

Recuperação pós-transplante

Segundo Omar Lopes Cançado Junior, cerca de 80% dos pacientes que recebem um órgão novo sobrevivem ao transplante. Ele explica que o risco maior é de rejeição do órgão, que pode acontecer nos primeiros dias depois da cirurgia. Além disso, no primeiro ano após o transplante, o paciente precisa tomar mais cuidado com a saúde, porque tem maiores riscos de infecção.

“As medicações depois do transplante impedem a rejeição, mas também enfraquecem o organismo. Então tem um risco de infecção mais fácil do que uma pessoa normal. Um transplantado com gripe, por exemplo, essa gripe pode virar uma pneumonia ou uma septicemia, especialmente nos primeiros meses. Com o tempo o organismo vai se adaptando e a pessoa vive normal”.

O paciente transplantado precisa de acompanhamento médico par ao resto da vida. No início ele deve fazer um controle a cada 15 dias, depois passa para a cada 3 meses, 6 meses, e anual.

Importância da doação

O vice-presidente e apresentador da Itatiaia, João Vitor Xavier, conta da experiência que passou ao doar médula óssea. A doação de medula óssea é diferente da de órgãos porque pode ser feita por um paciente vivo, desde que esteja em boas condições de saúde, assim como a doação de sangue.

“Me inscrevi para o banco de doares de medula e recebi uma ligação dizendo que acharam uma pessoa compatível, que precisa do transplante com urgência. Eu disse que estava disponível, fiz vários exames e fui 15 dias ao Hospital das Clínicas em BH. Tomei anestesia geral para fazer a doação e saí do hospital depois de dois dias e vim trabalhar. Eu não sei para quem eu doei, quem recebeu não sabe que fui eu que doei, um processo com extrema lisura e correção, com profissionais de altíssima qualidade. Temos que ter gratidão pelos profissionais de saúde”.

Entrevista feita pela repórter Clarissa Guimarães

Jornalista graduada pelo Centro Universitário Newton Paiva em 2005. Atua como repórter de cidades na Rádio Itatiaia desde 2022
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