Presidente da Faemg cobra diálogo com Lula e pede permanência de Thales Fernandes na Agricultura de Minas
Antônio de Salvo defende juros menores, ampliação do seguro rural e apoio aos pequenos produtores; entidade articula manutenção provisória do secretário até março ou abril de 2027, mas ainda não recebeu sinal concreto de Cleitinho

O agronegócio espera uma relação mais aberta com o governo federal no próximo mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que começa em 2027. A avaliação é do presidente do Sistema Faemg Senar, Antônio de Salvo, que também é vice-presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
Em entrevista à Itatiaia, o dirigente afirmou que o relacionamento entre o setor e o governo federal não foi amistoso nos últimos quatro anos e defendeu mais diálogo, independentemente das diferenças ideológicas. Entre as prioridades estão a redução dos juros do crédito rural, a ampliação do seguro agrícola e medidas para enfrentar o endividamento dos produtores.
De Salvo também chamou a atenção para as dificuldades dos pequenos produtores, especialmente em Minas Gerais, onde a cafeicultura e a pecuária leiteira têm peso na economia rural. Segundo ele, a combinação de crédito restrito, juros elevados e eventos climáticos podem comprometer a produção e pressionar os preços dos alimentos.
No âmbito estadual, a Faemg lidera uma articulação, apoiada por mais de 50 associações, para pedir ao governador eleito Cleitinho Azevedo a permanência provisória de Thales Fernandes na Secretaria de Agricultura de Minas Gerais. A proposta é manter o atual secretário até março ou abril de 2027, durante um período considerado estratégico para o calendário agrícola.
Segundo De Salvo, a continuidade temporária permitiria preservar o funcionamento da estrutura estadual de agricultura enquanto o novo governo define sua equipe. Até o momento, porém, não houve um sinal concreto de aprovação por parte de Cleitinho.
Confira a entrevista com Antônio de Salvo
- Como a Faemg, a CNA e os produtores rurais recebem o resultado das eleições de 2026 e a continuidade do governo Lula por mais quatro anos?
Antônio de Salvo: "É um momento de dúvidas. Não tivemos um relacionamento amistoso com o governo federal neste mandato, que termina em dezembro. Por outro lado, precisamos entender que o setor é hoje de fundamental importância para os municípios, para Minas Gerais e para o Brasil.
Esperamos que, no novo mandato, a partir de 2027, possamos ter um diálogo melhor, para que a agricultura, a pecuária e o agronegócio como um todo continuem gerando riquezas e divisas a partir dos nossos campos.
Queremos continuar contribuindo para um PIB positivo, gerar riqueza, diminuir as diferenças sociais, garantir segurança alimentar aos brasileiros e produzir superávit para que o Brasil seja mais equilibrado e justo".
- Quais são as principais demandas dos produtores para os próximos quatro anos?
"É isso que pedimos ao governo federal e também ao novo governador de Minas Gerais, assim como fizemos com o governador que está saindo. É importante que possamos ajudar não apenas produzindo, mas também mostrando os caminhos que facilitam a produção.
Em Minas Gerais, temos mais de 700 mil produtores rurais, e uma parcela expressiva é formada por pequenos produtores. A pecuária leiteira e a cafeicultura são atividades fundamentais. Precisamos dar atenção a esse público.
A Faemg tem feito isso por meio da assistência técnica e da transferência de tecnologia. Mas os governos também precisam compreender o que deve ser feito. Nosso papel é ser o interlocutor institucional desses produtores, mostrando ao poder público quem somos, o que fazemos e a importância do setor para o Brasil.
Estamos nos preparando para mais uma grande safra, mas enfrentamos desafios, como a possibilidade de El Niño, os eventos climáticos e as oscilações do dólar. Precisamos discutir como vamos comercializar essa produção e garantir condições para que ela chegue ao mercado.
Uma safra forte significa mais alimentos e pode contribuir para reduzir a pressão inflacionária. Não somos adversários do Brasil. Somos parte da sociedade e queremos continuar gerando riqueza e oportunidades".
- A polarização política também afeta a relação entre o agronegócio e o governo? É necessário melhorar a percepção sobre o setor?
"Precisamos desarmar essa imagem de que o agro é adversário de uma parte da sociedade. Podemos estar em torcidas diferentes durante um jogo, mas a disputa termina dentro do campo. Não podemos levar isso para fora dele. Somos brasileiros e queremos um país melhor.
O agronegócio tem uma forte ligação com a iniciativa privada, investe em tecnologia e transformou o Cerrado em um dos grandes celeiros do mundo. Também desenvolvemos uma pecuária competitiva, com genética, produtividade e muito trabalho.
Precisamos tirar essa discussão do campo ideológico. A riqueza gerada pelo produtor rural circula por toda a sociedade. Quando um agricultor vende café, soja, algodão ou gado, esse dinheiro movimenta o comércio, gera empregos, paga salários e permite que as famílias comprem alimentos, eletrodomésticos, roupas e outros produtos.
Não podemos aceitar que o setor seja rotulado de forma equivocada. Precisamos mostrar a realidade das propriedades rurais, as dificuldades de acesso à logística, a necessidade de treinamento da mão de obra e os desafios impostos pelas mudanças climáticas.
Também precisamos desmistificar a ideia de que o produtor rural não preserva o meio ambiente. Quem descumpre a legislação deve responder por isso, mas não se pode generalizar essa conduta para todo o setor.
O momento não é de briga. É de construir um Brasil melhor e mais justo".
- O crédito rural foi uma das principais críticas do setor nos últimos quatro anos. O que precisa mudar?
"O crédito rural é uma questão fundamental. Falamos de um volume anunciado de R$ 580 bilhões, mas precisamos avaliar quanto efetivamente chega aos produtores, especialmente aos pequenos, que são os que mais precisam de apoio.
O dinheiro investido no campo retorna para a economia. Para cada real investido, o retorno pode chegar a R$ 2,50 ou R$ 3, dependendo da atividade, podendo ser ainda maior em algumas culturas.
Não estamos falando de dinheiro doado pelo governo. Estamos falando de recursos emprestados, que precisam ser pagos. O problema é que os produtores enfrentam juros de mercado muito elevados. Não existe atividade produtiva que consiga suportar indefinidamente juros de 14%, 15%, 18% ou 20% ao ano, dependendo da linha de crédito.
Também precisamos avançar no seguro rural. Na agricultura, estamos sujeitos a secas, excesso de chuvas e outros eventos climáticos. Se tivermos um seguro agrícola mais abrangente, poderemos reduzir os riscos e melhorar as condições de financiamento.
A combinação de endividamento elevado, dificuldade de acesso ao crédito, falta de seguro e problemas climáticos pode criar uma tempestade perfeita para o setor.
Se a produção agropecuária enfrentar uma crise grave, os efeitos não ficarão restritos ao campo. Uma oferta menor de alimentos pode pressionar os preços e prejudicar principalmente a população de menor renda. Isso não interessa a ninguém.
O produtor trabalha muito, tem margens apertadas e precisa de condições para continuar produzindo. O agro não pode ser tratado como adversário do desenvolvimento. É uma das alavancas do desenvolvimento brasileiro".
- Qual é a expectativa para 2027 diante desses desafios?
"Estamos acostumados a enfrentar desafios. Transformamos o Brasil, que era importador de alimentos, em um grande exportador. Vamos continuar trabalhando para vencer os próximos obstáculos. O setor agropecuário mineiro e brasileiro seguirá cumprindo seu papel: gerar riqueza, renda e oportunidades para ajudar a diminuir as desigualdades do país. Queremos um diálogo maduro com os governos, independentemente da ideologia de quem esteja à frente deles. É isso que esperamos para os próximos anos".
Faemg pede permanência provisória de Thales Fernandes na Agricultura de Minas

- Entidades do agronegócio estão buscando diálogo com o governador eleito Cleitinho Azevedo para tentar garantir a continuidade do secretário de Agricultura, Thales Fernandes, durante a transição de governo. Como está essa articulação?
"Existe. O secretário Thales não é político, é um técnico que conhece as três áreas mais importantes da estrutura: a própria Secretaria de Agricultura, a Emater e a Epamig.
Estamos plantando a safra de verão e acabamos de colher uma safra de café. Até que um novo secretário conheça toda a estrutura e tome pé da situação, haverá um período de adaptação, por mais competente que ele seja.
Nossa proposta, encabeçada pela Faemg e apoiada por mais de 50 associações, é que Thales permaneça provisoriamente até março ou abril, se necessário. Nesse período, vamos colher a safra de verão e iniciar o plantio da segunda safra em várias regiões.
É um momento de chuvas irregulares, de desafios no plantio e de preocupação com questões sanitárias, como o risco de doença de Newcastle. Precisamos de uma secretaria atuante, com a estrutura funcionando e capacidade de resposta.
Esse pedido não é uma exigência nem uma imposição ao novo governo. É uma solicitação para que um profissional que conhece o setor continue temporariamente, garantindo tranquilidade durante um período importante para a produção. Mais adiante, em março, abril ou maio, o novo governo poderá avaliar se a continuidade faz sentido. Já conversamos com o vice-governador, Mateus Simões, e estamos em diálogo com o governador eleito, Cleitinho Azevedo. A ideia é fazer uma espécie de período de experiência: manter o secretário por 60 ou 90 dias, avaliar os resultados e, se necessário, buscar outro nome".
- Qual foi a receptividade do governador eleito? Houve algum sinal positivo para que essa permanência aconteça?
"Ainda não temos um aceno concreto. Entendemos que existem outras demandas importantes neste momento, nas áreas de saúde, educação e finanças, incluindo a questão da dívida do Estado.
O que estamos propondo é que o setor agropecuário continue representado, mesmo que temporariamente, por alguém que já conhece suas necessidades. Não queremos criar dificuldades para o novo governo. Pelo contrário, queremos continuar avançando em questões como energia e meio ambiente, nas quais já temos diálogo institucional.
Espero que tenhamos uma resposta positiva. Estamos conversando de maneira muito cordial, apresentando a possibilidade de experimentar esse modelo e avaliar se funciona.
A sazonalidade é fundamental para o nosso setor. Não podemos ficar sem uma secretaria atuante justamente quando estamos plantando uma grande safra. Queremos dar tranquilidade aos produtores durante a transição e, depois, deixar que o novo governo avalie os próximos passos", conclui o presidente.
Veja a entrevista completa:
Fabiano Frade é jornalista na Itatiaia e integra a equipe de Agro. Na emissora cobre também as pautas de cidades, economia, comportamento, mobilidade urbana, dentre outros temas. Já passou por várias rádios, TV's, além de agências de notícias e produtoras de conteúdo.



