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Pesquisa aponta a estruvita como alternativa nacional para fertilizantes

Fertilizante obtido de resíduos da suinocultura pode suprir até 50% do fósforo em lavouras e manter produtividade

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Estudo visa diminuir a dependência do Brasil em relação à importação • Caio Inácio / Embrapa

Cientistas apontam que o uso da estruvita como um fertilizante de liberação lenta, produzido a partir de resíduos da suinocultura, é uma alternativa viável para reduzir a utilização de fertilizantes fosfatados importados nas lavouras de soja e trigo. O estudo da Embrapa Agrobiologia (RJ) visa diminuir a dependência do Brasil em relação à importação desses insumos, que hoje chega a cerca de 75% da demanda nacional.

Experimentos em lavouras de soja, por exemplo, mostraram que o produto foi capaz de suprir em até 50% da demanda por fósforo, mantendo a produtividade de 3.500 quilogramas por hectare (kg/ha), semelhante à da soja nacional em 2025, que foi de 3.560 kg/ha com uso de fertilização convencional.

O pesquisador da Embrapa Agrobiologia Caio de Teves Inácio, coordenador do estudo, ressaltou que não se trata apenas de substituir um fertilizante. “Estamos criando uma nova rota tecnológica para o campo brasileiro, alinhada à sustentabilidade, à autonomia e à inovação”, enfatizou.

A estruvita é um material formado por cristais de fosfato de magnésio e amônio, produzido a partir da precipitação química de nutrientes presentes nos resíduos da suinocultura. “Trata-se de um fertilizante que representa o conceito de economia circular aplicado à agropecuária. Transformamos um passivo ambiental, que são os efluentes animais, em um insumo agrícola de alto valor agregado”, explicou o pesquisador.

Os experimentos no campo mostram ainda que a eficiência agronômica do fertilizante é superior em termos de recuperação do fósforo aplicado no solo. Os solos tropicais brasileiros, altamente desgastados pelo clima, tendem a fixar o fósforo rapidamente, limitando a eficiência dos fertilizantes convencionais. A liberação gradual da estruvita e sua reação alcalina mostraram-se aliadas no aumento do aproveitamento do nutriente.

Fertilizante promissor

As recomendações preliminares também indicam que a estruvita pode ser aplicada sozinha ou em combinação com fertilizantes solúveis, em doses que vão de 50% a 100% da recomendação agronômica de fósforo, dependendo da cultura e do solo.

Por conta disso, os pesquisadores desenvolveram e estão testando um fertilizante organomineral que combina nutrientes minerais com matéria orgânica. Em experimentos que avaliam a difusão de fósforo no solo, a formulação obteve resultados 50% maiores nos primeiros 28 dias em comparação com a estruvita granulada pura.

Além de contribuir ainda para a diminuição do risco de contaminação ambiental por fósforo solúvel, o fertilizante mineral apresenta alta eficiência agronômica em solos tropicais, com elevada fixação de fósforo.

Solução ecológica

Paralelamente, o uso da estruvita representa uma solução para o problema da disposição inadequada de dejetos animais. Em propriedades com produção suína intensiva, especialmente nas Regiões Sul e no Centro-Oeste, a precipitação da estruvita permite retirar o excesso de nutrientes antes da aplicação no solo, reduzindo riscos de contaminação de águas superficiais e subterrâneas.

Esta característica colabora, inclusive, com a ampliação da produção das granjas, que é limitada exatamente pela quantidade de nutrientes (fósforo e nitrogênio) que podem ser despejados no solo.

Estimativas da Embrapa indicam que a adoção da tecnologia em propriedades com mais de 5 mil suínos pode gerar cerca de 340 mil toneladas de estruvita por ano no país.

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*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.