Parmesão mineiro? Conheça a história do Queijo Artesanal do Vale do Suaçuí
Iguaria do Leste de Minas Gerais foi regulamentada pelo governo nesta segunda-feira (30)

Do Leste de Minas Gerais, uma tradição de meio século ganhou seu "passaporte" para o Brasil. O Queijo Artesanal do Vale do Suaçuí, carinhosamente apelidado de "parmesão mineiro", teve seu Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade (RTIQ) assinado pelo Governo de Minas nesta segunda-feira (30), no município de São Pedro do Suaçuí, formalizando uma história que mistura migração, necessidade logística e herança familiar.
Receita do Sul do estado
A história desse queijo não começou em livros de receitas, mas no improviso dos anos 1980. Até então, os produtores da região focavam no Queijo Minas Artesanal tradicional e na muçarela. A grande mudança ocorreu quando um ex-funcionário de um laticínio do Sul de Minas mudou-se para a região de Santa Maria do Suaçuí, no Vale do Rio Doce.
Ele trouxe consigo uma técnica diferente: o cozimento da massa. Ao contrário do queijo minas tradicional, cuja massa é trabalhada a frio, a massa do Suaçuí é aquecida a temperaturas de até 45 °C. Essa técnica, típica de queijos tipo parmesão, confere ao produto uma consistência semidura e uma durabilidade muito maior

Da necessidade à tradição
Na época, o queijo precisava enfrentar estradas precárias e longas viagens até os centros consumidores. O método de cozimento foi a solução perfeita para não perder a qualidade. O que nasceu como uma estratégia de conservação acabou caindo no gosto popular e se espalhando pelas fazendas vizinhas.
A região reúne 66 agroindústrias, com prevalência da agricultura familiar e produção anual superior a 678 toneladas. A produção está concentrada em cinco municípios principais:
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São Pedro do Suaçuí
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Santa Maria do Suaçuí
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José Raydan
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Água Boa
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São Sebastião do Maranhão
Para produtores como Francélio Fernandes Otoni, a regulamentação é a coroação de uma vida inteira de trabalho. Ele aprendeu a receita na infância, observando o avô, Francisco Guedes. Atualmente, Francélio produz cerca de mil quilos por mês e abastece padarias da região, como em Capelinha.

O sonho de Francélio é o mesmo de outras cerca de 200 famílias: "A regularização vai ser importante para valorizar nosso queijo. Meu sonho é ter um rótulo e alcançar novos mercados", contou. Com o reconhecimento oficial, o que antes era vendido apenas "de mão em mão" ou em mercados locais, agora tem base legal para buscar selos como o Selo Arte ou o SISBI, permitindo que o sabor único do Leste de Minas chegue às mesas de todo o país.
Também produtora, Ester Jardim dos Anjos, vê na regulamentação uma oportunidade de transformação. Ao lado do marido, Geraldo, e do filho, Eduardo, ela produz cerca de 700 quilos mensais. “Acreditamos que agora poderemos comercializar diretamente para grandes centros a preços melhores. Nossa expectativa é valorizar o produto e mostrar a potencialidade da região”, disse.

Qualidade e desenvolvimento
A regulamentação, fruto de um esforço conjunto entre Seapa, Emater-MG, Epamig e IMA, não apenas padroniza a receita, mas garante a segurança sanitária. Para o secretário de Estado da Agricultura, Thales Fernandes, o reconhecimento vai além do setor produtivo. “Esse avanço impulsiona o desenvolvimento socioeconômico, turístico e gastronômico da região, fortalecendo o queijo como um produto autêntico e diferenciado do Vale do Suaçuí”, comentou.
Série Itatiaia Agro
Para saber mais do cenário do queijo mineiro, confira a série do Itatiaia Agro 'Somos do mundo, e agora? O cenário do Queijo Minas Artesanal após o título da Unesco':
- Antes de ganhar o mundo, Queijo Minas Artesanal precisa conquistar o Brasil; entenda
- Sonho da exportação para o Queijo Minas Artesanal é possível? Entenda desafios
- Patrimônio da Unesco, Queijo Minas Artesanal impulsiona turismo e gera renda em MG
- Empreender com queijo: negócios transformam a vida de pequenos produtores
- Queijo Minas Artesanal: de tradição a símbolo da gastronomia mineira
O material foi premiado em 2° lugar no Prêmio Faemg de Jornalismo 2025, na categoria Digital.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde
Fabiano Frade é jornalista na Itatiaia e integra a equipe de Agro. Na emissora cobre também as pautas de cidades, economia, comportamento, mobilidade urbana, dentre outros temas. Já passou por várias rádios, TV's, além de agências de notícias e produtoras de conteúdo.




