El Niño forte aumenta risco de tempestades e perdas no campo do Paraná
Fenômeno deve atingir intensidade forte entre outubro e dezembro e exige atenção redobrada dos produtores rurais

À medida que o El Niño se intensifica no Brasil, técnicos e meteorologistas preveem o aumento de eventos extremos no país. Segundo o Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar), com informação da Administração Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), há mais de 90% de probabilidade de o fenômeno climático atingir intensidade forte, quando as temperaturas da superfície do mar ficam ao menos 2 graus acima da média histórica.
O pico deve ocorrer entre outubro e dezembro, com influência sobre o clima paranaense até o primeiro trimestre de 2027. "Como a dinâmica já é mais chuvosa, com uma frequência maior de tempestade, o El Niño deixa ainda mais instável. Nós podemos ter uma frequência maior de vento, tempestade, dias chuvosos, com mais dias consecutivos com chuva", afirmou o meteorologista Reinaldo Kneib, do Simepar.
O El Niño tem origem no aquecimento das águas do Oceano Pacífico e altera a circulação geral da atmosfera, favorecendo o transporte de calor e umidade da Amazônia para o Sul do país.
Kneib explicou que o fenômeno não significa chuva todos os dias, mas um reforço dos padrões que já ocorrem naturalmente no Estado, inclusive tornados, cuja frequência tem aumentado nos últimos anos, sobretudo na região Centro-Sul. Nos episódios mais recentes, um tornado categoria F3 passou por Piraí do Sul, com ventos acima de 300 km/h, e outro por Rio Bonito do Iguaçu, no fim de 2025, na categoria F4.
"Esse alerta não pode ser ignorado”, reforçou o presidente do Sistema FAEP, Ágide Eduardo Meneguette. “O El Niño intenso, com tempestades, vendavais e chuvas, significa mais risco para os nossos produtores rurais", completou.
Atenção redobrada no campo
Para o agrônomo Bernardo Lipski, do Simepar, os episódios recentes reforçam a importância de o produtor rural acompanhar diariamente os alertas meteorológicos. Desta forma, é possível tomar medidas para minimizar danos na propriedade. Ventos fortes e tornados ameaçam lavouras, estufas, galpões, silos, redes elétricas e equipamentos. Já o granizo pode destruir a lavoura em minutos, enquanto chuvas intensas provocam alagamentos, enxurradas e erosão. Os raios são risco direto para pessoas e animais.
Nestes casos, a recomendação é, diante da previsão ou alerta de tempestade severa, evitar áreas abertas, árvores isoladas e estruturas metálicas; suspender aplicação de defensivos e operação de máquinas; verificar as condições de telhados e estufas com antecedência; e manter máquinas, equipamentos e animais em locais protegidos. "O produtor deve considerar os alertas de tempestade severa como um sinal de risco", pontuou Lipski.
Impacto nas lavouras
Conforme as previsões, o El Niño deste ciclo deve atingir ao menos duas safras: o fim das culturas de inverno e a próxima safra de verão. No caso dos grãos de inverno, o resultado pode ser, por exemplo, uma farinha e um malte de pior qualidade, com desconto no preço pago ao produtor. Hoje, esse tipo de prejuízo por qualidade não está coberto pelo seguro rural, já que as apólices protegem apenas perda de produtividade.
"A chuva já não é mais desejada nesse período. O excesso de umidade favorece a ocorrência de grãos avariados e a proliferação de doenças na espiga, o que deteriora a qualidade do grão", explicou Ana Paula Kowalski, coordenadora do Departamento Técnico e Econômico (DTE) do Sistema FAEP.
Para a soja, a preocupação é outra: tempestades no início do plantio podem causar erosão em solo exposto, levando sementes recém-plantadas e obrigando o produtor a replantar. Períodos nublados prolongados também alongam o ciclo da soja, um efeito cascata sobre o cronograma da propriedade. A umidade excessiva ainda favorece a ferrugem asiática, aumentando o número de aplicações de fungicida e encarecendo o custo de produção.
Os desdobramentos também impactam o seguro rural. As seguradoras já avaliam o risco elevado de determinadas safras e restringem a venda de apólices, fazendo com que o prêmio fique mais caro, em um cenário em que o desconto da subvenção governamental tem ficado cada vez mais escasso. "A conta não fecha, e o valor do seguro acaba pesando na composição do custo de produção", explicou Ana Paula.
Saiba como registrar os prejuízos
Documentar os danos logo após qualquer evento climático extremo é fundamental para garantir o ressarcimento dos danos e prejuízos. Isso vale para seguro, renegociação de dívidas e até para pleitear reembolso.
Confira as dicas no manual disponibilizado pelo Sistema FAEP:
- Fotografe e filme os prejuízos antes de limpar o local ou remover qualquer material;
- Procure a Defesa Civil ou a prefeitura para registrar formalmente os danos e peça o comprovante ou número de protocolo, que pode ser exigido por bancos e seguradoras;
- Tem seguro? Comunique o sinistro imediatamente à seguradora ou ao corretor, por um canal que gere protocolo;
- Financiamento com Proagro? Avise o banco e solicite a abertura da Comunicação de Ocorrência de Perdas (COP) antes de destruir restos de lavoura ou iniciar novo cultivo;
- Dívidas em atraso por causa do desastre podem ter prorrogação de parcelas: o pedido deve ser protocolado por escrito no banco, com fotos, vídeos e registro da Defesa Civil;
- Falta de energia elétrica: avise a Copel pelo canal exclusivo Copel Agro — 0800 643 7676 ou WhatsApp (41) 3013-8970. Danos a motores e equipamentos por instabilidade podem ser ressarcidos em até 90 dias;
- Perda de animais: fotografe, conte e registre o rebanho antes da destinação das carcaças, e consulte a Agência de Defesa Agropecuária do Paraná (Adapar) ou o veterinário responsável para o descarte correto.
Confira como receber alertas e se proteger
- SMS: envie mensagens para o número 40199 com o CEP de sua residência. É possível cadastrar mais de um CEP, um por vez, e enviar SAIR + CEP para cancelar;
- WhatsApp: salve o número (61) 2034-4611 e envie "oi";
- Em situações extremas, o alerta é enviado a todos os celulares da área de risco por tecnologia Cell Broadcast, independentemente de cadastro.
*Giulia Di Napoli colabora com reportagens para o portal da Itatiaia. Jornalista graduada pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), participou de reportagem premiada pela CDL/BH em 2022.



