Dia Nacional do Café: preço do grão dá trégua nas gôndolas à espera de safra recorde
Celebrado neste dia 24 de maio, data encontra o mercado brasileiro em plena virada de chave; após um 2025 de forte pressão inflacionária, país projeta a maior safra da história

Presente em 98% dos lares do país, o "cafezinho" vai muito além do hábito matinal: ele sustenta uma cadeia produtiva composta por cerca de 1.050 indústrias e é responsável por gerar aproximadamente 8,4 milhões de empregos diretos e indiretos. Neste dia 24 de maio, data em que se comemora o Dia Nacional do Café, o setor tem motivos para celebrar, em um momento de forte recuperação no varejo e projeções históricas no campo.
O cenário atual traz o alívio que a indústria e o comércio tanto buscavam. O ano de 2025 foi severamente desafiador para o setor; a disparada no preço da matéria-prima encolheu temporariamente o consumo e fez o faturamento nominal da indústria de café torrado saltar para R$ 46,24 bilhões (alta de 25,6% ante 2024), um reflexo direto do repasse inflacionário nas gôndolas.
Neste primeiro quadrimestre de 2026, contudo, a curva mudou. Embora o crescimento acumulado do início do ano ainda não supere totalmente a retração do ano passado, os indicadores mostram que a estabilidade retornou ao mercado.
Comportamento dos preços: alívio no tradicional, valorização nos nichos
O monitoramento recente da Associação Brasileira da Indústria do Café (ABIC) mostra que o mercado passou por uma acomodação de preços entre março e abril de 2026, sinalizando um ambiente de negócios mais previsível. A melhor notícia para o bolso do consumidor está nas categorias de grande volume.
O café tradicional/extraforte — o mais consumido pela população — registrou uma queda de 15,51% no comparativo anual entre abril de 2025 e abril de 2026, recuando de R$ 65,50/kg para R$ 55,34/kg. A categoria superior seguiu a mesma esteira, com redução de 12,65% (passando de R$ 80,56/kg para R$ 70,37/kg). Até mesmo as cápsulas, produto de maior valor agregado, recuaram 9,49%, fechando a média em R$ 364,16/kg.
Por outro lado, o mercado de nicho segue valorizado. O café especial subiu 16,89% em doze meses, alcançando a média de R$ 161,26/kg, enquanto o tipo descafeinado liderou as altas com um salto de 21%, atingindo R$ 114,93/kg.
Minas Gerais: a locomotiva econômica e industrial do café
Falar de café no Brasil exige olhar para Minas Gerais. O estado, que consolidou seu Produto Interno Bruto (PIB) em R$ 1,157 trilhão em 2025 (representando cerca de 9,1% da economia nacional e a terceira posição do país), encontra na cafeicultura um de seus pilares mais robustos. Com uma população de mais de 21 milhões de habitantes e um potencial crescente de aumento do poder aquisitivo, os mineiros respondem sozinhos por 10,02% do consumo nacional do grão, sorvendo 2,14 milhões de sacas ao ano.
No parque fabril, Minas abriga 407 indústrias de café, que processam 651.201 sacas por mês — totalizando uma robusta produção industrial de 7,81 milhões de sacas de café torrado por ano.
O comportamento do preço do quilo tradicional na capital mineira ilustra bem a montanha-russa vivida pelo setor e captada pelo DIEESE. Em Belo Horizonte, o quilo do café tradicional começou 2025 cotado a R$ 52,51, escalou até o pico de R$ 68,81 em maio de 2025 (exatamente um ano atrás) e, desde então, iniciou uma trajetória de declínio consistente. Em março de 2026, a média na capital já havia recuado para R$ 54,99, devolvendo o poder de compra ao consumidor.
No campo, o maior recorde da história brasileira
Se a indústria e o varejo celebram a calmaria nos preços, o campo se prepara para uma colheita sem precedentes. De acordo com o 2º Levantamento da Safra de Café 2026, divulgado pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) nesta quinta-feira (21), o Brasil deve produzir 66,7 milhões de sacas de 60 quilos neste ciclo.
O número representa um crescimento expressivo de 18% em relação à safra passada e supera a estimativa do primeiro levantamento da estatal feito em fevereiro, que era de 66,2 milhões de sacas. Caso o resultado se confirme nos próximos meses, o país quebrará o recorde absoluto da série histórica nacional, ultrapassando o topo registrado em 2020 (63,08 milhões de sacas).
O salto histórico é sustentado pelo ciclo de bienalidade positiva do café arábica, pela entrada de novas áreas em fase de colheita e por um regime de chuvas muito mais favorável nas principais regiões produtoras.
Minas Gerais desponta como o coração dessa engrenagem. A produção agrícola mineira deve saltar de 25,75 milhões de sacas em 2025 para estimados 32,42 milhões de sacas em 2026 (somando arábica e conilon). O grande destaque fica por conta do café arábica no estado, que deve saltar de 25,17 milhões para 31,82 milhões de sacas nesta safra.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de cidades, agro e saúde



