Clubes de assinatura ganham espaço no agro e aproximam produtores dos consumidores
Modelo baseado em recorrência amplia mercado para pequenos produtores, oferece previsibilidade de vendas e atende consumidores interessados em qualidade, origem e produção local

O mercado de assinaturas no Brasil vive grande expansão, com cerca de 74% dos consumidores ativos em pelo menos um serviço recorrente, como informou um levantamento feito em 2025 pelo Juniper Research, a empresa britânica de pesquisa de mercado e inteligência analítica.
Com o modelo de clubes de assinatura, já consolidado em setores como entretenimento, alimentação e bem-estar, começa a ganhar espaço também no agronegócio. A proposta conecta produtores rurais, empresas e consumidores por meio de compras recorrentes e pode trazer benefícios como previsibilidade de demanda, redução de desperdícios e maior aproximação entre quem produz e quem consome. Ainda não há números precisos sobre o setor assinaturas, mas várias possibilidades estão sendo disseminadas.
No agronegócio, os clubes de assinatura aparecem em duas frentes principais. Para o produtor rural, plataformas e programas de relacionamento oferecem descontos, benefícios e acesso a serviços e tecnologias. Para o consumidor final, o modelo permite receber periodicamente produtos como cafés especiais, queijos artesanais, cachaças, vinhos e alimentos da agricultura familiar.
Entre as soluções voltadas aos produtores está o Clube Broto, plataforma digital de agronegócios do Banco do Brasil. O ecossistema reúne ofertas de máquinas, seguros, energia solar e soluções tecnológicas.
Também existem programas de relacionamento desenvolvidos por cooperativas, que podem oferecer condições diferenciadas para a aquisição de sementes, fertilizantes e defensivos agrícolas. Outra frente é a assinatura de softwares agrícolas, que disponibilizam ferramentas como imagens de satélite, informações climáticas e telemetria de máquinas.
Do campo direto para a mesa
No mercado de alimentos, os clubes aproximam pequenos e médios produtores dos consumidores e valorizam a origem dos produtos.
Nos cafés especiais, clubes de assinatura permitem que o consumidor receba diferentes grãos produzidos em regiões reconhecidas pela qualidade, como o Sul de Minas e o Cerrado Mineiro. A proposta também pode incluir informações sobre a propriedade e a família responsável pela produção.
O mesmo movimento ocorre com os queijos artesanais. Clubes especializados trabalham com produtos de diferentes regiões de Minas Gerais, incluindo queijos do Serro e da Serra da Canastra, colocando em evidência a tradição e a origem da produção.
Há ainda iniciativas baseadas em cestas de produtos da agricultura familiar, com entregas semanais ou mensais de hortaliças, ovos, frutas e outros alimentos produzidos localmente.
Ovos caipiras com entrega programada

Um exemplo desse modelo em Minas Gerais é o ovOvo Caipira, criado em 2019. A empresa conecta famílias produtoras do interior do estado a consumidores de Belo Horizonte e da Região Metropolitana por meio de um clube de assinaturas de ovos caipiras.
O consumidor pode escolher a quantidade de ovos e a frequência das entregas, com opções semanais, quinzenais ou mensais. O sistema também permite alterar ou cancelar a assinatura de acordo com a necessidade.
Segundo a empresa, desde a criação do clube são mais de 120 mil dúzias e aproximadamente 50 mil entregas em Belo Horizonte e na Região Metropolitana.
Para o fundador do ovOvo Caipira, Daniel Peron, a mudança está relacionada à forma como o consumidor passou a escolher os alimentos.
“O consumidor passou a buscar muito mais do que um alimento. Ele quer entender de onde vem o produto, como ele foi produzido e quem está por trás daquela produção.”
De acordo com Peron, o sistema de recorrência também pode beneficiar as famílias produtoras ao oferecer uma demanda mais previsível.
“Quando fortalecemos os pequenos produtores e aproximamos quem produz de quem consome, criamos uma cadeia mais eficiente, mais transparente e com benefícios para todos os envolvidos.”
Previsibilidade para quem produz
Para os pequenos produtores, um dos principais diferenciais do modelo é a possibilidade de planejar a produção com base em uma demanda previamente conhecida. Isso pode facilitar a organização da propriedade, reduzir perdas e contribuir para o planejamento de investimentos.
Juliano Rodrigo Martins Pereira é da cidade de Jequeri, mais precisamente no distrito de Piscamba, na zona rural, da Zona da Mata Mineira e parceria contribuiu para o escoamento da produção e também trouxe segurança financeira. “ Foi uma parceria muito bacana, justa e honesta. buscando encontrar soluções que fossem boas para as duas partes. Foi muito proveitoso”, disse.
Para o consumidor, além da praticidade da entrega programada, o modelo atende a uma procura crescente por informações sobre procedência, qualidade e formas de produção.
A tendência mostra que a recorrência está deixando de ser apenas uma modalidade de pagamento e se transformando em uma estratégia de relacionamento entre produtores, empresas e consumidores.
No agronegócio, o movimento amplia as possibilidades de comercialização e cria novas formas de conectar o campo à cidade, combinando tecnologia, logística, produção local e valorização da origem dos alimentos.

Fabiano Frade é jornalista na Itatiaia e integra a equipe de Agro. Na emissora cobre também as pautas de cidades, economia, comportamento, mobilidade urbana, dentre outros temas. Já passou por várias rádios, TV's, além de agências de notícias e produtoras de conteúdo.



