Caminhos do campo: o que os candidatos ao Governo de Minas propõem para o Agro
Entre a transição agroecológica e a tolerância zero a invasões, planos revelam caminhos contrastantes e consensos em tecnologia e segurança hídrica

O agronegócio e a agricultura tradicional são pilares fundamentais da identidade e da economia de Minas Gerais, um estado marcado pela liderança na produção de café e leite, mas que também enfrenta severos desafios hídricos, de infraestrutura e de segurança jurídica.
À medida que a corrida pelo Palácio da Liberdade se desenvolve, os planos de governo revelam divergências ideológicas acentuadas sobre o papel do estado no campo, embora se alinhem em temas cruciais como a modernização tecnológica, a defesa sanitária e a infraestrutura rural
A Itatiaia analisou o que os seis candidatos mais bem colocados nas pesquisas propõem para o agro nos planos de governo registrados pelas campanhas no Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MG)
Geopolítica, comércio exterior e recursos hídricos
A exposição do campo mineiro a riscos climáticos globais e à escassez de água pauta de forma contundente os diagnósticos de Flávio Roscoe (PL) e Mateus Simões (PSD). Roscoe adota uma abordagem fortemente focada no comércio exterior: ele destaca que o agronegócio mineiro registrou exportações recordes (entre US$ 19,8 e 19,9 bilhões em 2025, capitaneado pelo café com 57,1% do faturamento).
O candidato alerta, contudo, para a extrema vulnerabilidade do estado frente a barreiras comerciais unilaterais, como o tarifaço americano de 2025. Embora o café verde tenha sido isento da tarifa na versão final, Minas Gerais respondeu por 80,5% de todo o café brasileiro exportado aos Estados Unidos no primeiro semestre daquele ano. Para mitigar essa dependência, Roscoe propõe a criação de uma estrutura permanente na Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SEDE) para monitoramento de risco comercial internacional e a busca ativa pela diversificação dos mercados de exportação. Paralelamente, Roscoe ressalta dados oficiais apontando que o setor agropecuário consome 72% de toda a água de Minas, exigindo foco em eficiência.
Mateus Simões compartilha do diagnóstico de que o setor enfrenta riscos climáticos severos, irregularidade hídrica e degradação de pastagens, além de falta de conectividade digital e exigências internacionais de rastreabilidade. Simões propõe atuar na segurança hídrica produtiva com foco em pequenos e médios produtores, além de viabilizar internet de alta velocidade no meio rural e apoiar a assistência técnica baseada em soluções digitais.
Industrialização e agregação de valor no interior
A necessidade de processar a matéria-prima em solo mineiro para reter riqueza no interior é o ponto central da candidatura de Alexandre Kalil (PDT). O ex-prefeito argumenta que grande parte da riqueza agrícola deixa o estado com baixo grau de processamento. Sua proposta foca em descentralizar a agroindústria, levando etapas de beneficiamento para perto de onde se produz.
Kalil planeja fortalecer o cooperativismo para dar escala aos pequenos produtores, simplificar as regras sanitárias do Instituto Mineiro de Agropecuária (IMA) para produtos artesanais (como queijos e cachaças) e expandir a irrigação resiliente na seca do Norte de Minas.
Gabriel Azevedo (MDB) também destaca a ciência aplicada como propulsora da produtividade rural, registrando que o agronegócio nacional cresceu cerca de 3% ao ano nas últimas cinco décadas graças à pesquisa aplicada (atribuída a universidades e à Embrapa). Azevedo propõe a valorização institucional da Epamig e da Emater-MG como braços técnicos estatais, a modernização laboratorial do IMA para rastreabilidade e a aceleração na validação do Cadastro Ambiental Rural (CAR) e dos Programas de Regularização Ambiental (PRA) para dar segurança jurídica aos que produzem conforme a lei.
Para Azevedo, o escoamento eficiente depende de grandes corredores logísticos, defendendo investimentos em corredores ferroviários estratégicos (como o trecho Uberlândia-Ituiutaba-Chaveslândia) para baratear fretes de fertilizantes e escoar grãos.
Simplificação digital, crédito e segurança da propriedade
O plano de Cleitinho (Republicanos) apresenta uma agenda estruturada sob o eixo "O Agro forte para Minas crescer". Entre as suas dez metas prioritárias, destaca-se a criação de um ambiente digital único para agilizar licenças e inspeções agropecuárias. Cleitinho propõe o programa 'Minas Rural Empreendedor' capitaneado pela Emater-MG, crédito subsidiado pelo BDMG e eletrificação trifásica combinada com energia renovável nas fazendas.
O plano de Cleitinho se diferencia fortemente pela defesa das propriedades privadas, propondo "tolerância zero" a invasões de terra com acionamento imediato de forças de segurança para proteção do direito de propriedade, aliado à criação da Patrulha Rural Digital georreferenciada para coibir a criminalidade no campo. No âmbito hídrico, propõe incentivos a polos irrigados (como Jaíba e Vale do Picão) e à recuperação de pastagens.
Agricultura familiar, Reforma Agrária e Transição Agroecológica
No espectro oposto da governança territorial, Patrus Ananias (PT) coloca a reforma agrária, a soberania alimentar e a agroecologia como o coração de sua plataforma para o campo. Patrus defende transformar Minas em um "território livre da fome" por meio do fortalecimento do Conselho Estadual de Segurança Alimentar (CONSEA-MG)
e da ampliação de compras institucionais (PAA e PNAE) para abastecer a rede pública com produtos de pequenos produtores. As propostas de Patrus incluem:
- Fomento à transição agroecológica e redução de agrotóxicos via implementação do PRONARA.
- Regulamentação da Política Estadual de Agroecologia (PEAPO) e elaboração do seu Plano Estadual (PLEAPO).
- Aplicação da Política de Juventude e Sucessão Rural (Lei Federal nº 15.178/2025, de autoria do próprio candidato) para incentivar a permanência do jovem na atividade rural com acesso a inovação.
- Garantia de acesso prioritário de mulheres camponesas à terra, água, crédito e quintais produtivos.
Consensos
Apesar dos fortes contrastes ideológicos, o debate eleitoral revela que a modernização tecnológica do campo e a segurança hídrica são tratadas como prioridades inegociáveis para o futuro de Minas Gerais. Seja por meio de suporte digital, irrigação estruturada ou desburocratização de produtos artesanais, todos os candidatos reconhecem que a sustentabilidade e a inovação serão as chaves para Minas continuar competitiva nos mercados interno e externo.
*Os dados e propostas apresentados nesta reportagem foram extraídos diretamente dos planos de governo registrados pelos candidatos no Tribunal Regional Eleitoral.
Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), Giullia Gurgel é repórter multimídia da Itatiaia. Atualmente escreve para as editorias de Agro e Brasil.



