Em uma reportagem publicada pelo site Infobae, especialistas afirmam que permanecer nesse tipo de relacionamento nem sempre é uma simples questão de escolha ou força de vontade. Existem mecanismos emocionais profundos que fazem com que muitas pessoas continuem presas a relações que prejudicam o bem-estar.
Segundo o psicanalista Jorge E. Catelli, da Associação Psicanalítica Argentina e pesquisador da Universidade de Buenos Aires, o amor nem sempre surge com o objetivo de trazer felicidade.
“O ser humano nem sempre ama para o próprio bem. Muitas vezes ama para repetir conflitos inconscientes ou até para sofrer”, explicou o especialista.
Quando amor e dor se confundem
De acordo com o psiquiatra Sergio Grosman, da Associação de Psiquiatras da Argentina, muitas pessoas aprendem desde cedo a associar afeto com sofrimento.
Quando alguém cresce em um ambiente onde as mesmas pessoas que oferecem cuidado também provocam dor ou abandono, o cérebro pode aprender uma mensagem silenciosa: amor e sofrimento fazem parte da mesma experiência.
Esse padrão emocional tende a se repetir na vida adulta. Assim, o relacionamento passa a funcionar como um espaço onde antigas expectativas são revividas, como o desejo de reconhecimento, de reparação ou de pertencimento.
Com o tempo, essa dinâmica cria uma espécie de confusão emocional. Mesmo quando o sofrimento é evidente, a pessoa encontra dificuldades para se afastar.
Catelli explica que tentar resolver os problemas do relacionamento de várias maneiras diferentes também pode reforçar o ciclo. Conversas, explicações, confrontos ou tentativas de perdão parecem caminhos lógicos, mas muitas vezes acabam mantendo o vínculo ativo, mesmo quando ele provoca dor intensa.
Medo de ir embora
Romper uma relação tóxica raramente acontece de forma rápida. Anos de sentimentos, lembranças e expectativas criam um peso emocional difícil de abandonar.
Segundo Grosman, deixar esse tipo de relação exige aceitar que as tentativas de mudança não deram resultado e que a esperança de transformação pode não se concretizar.
Além disso, o medo do vazio costuma ser um dos maiores obstáculos. Para algumas pessoas, a possibilidade de solidão ou o sofrimento de uma separação parecem mais assustadores do que continuar em um relacionamento já conhecido, mesmo que doloroso.
Intensidade é diferente de amor
A psicóloga Alaleh Nejafian, especialista em psicanálise das relações, explica que relações marcadas por intensidade emocional constante podem gerar dependência afetiva.
Momentos de proximidade intensa seguidos por afastamentos bruscos, promessas que desaparecem e períodos de incerteza criam uma espécie de montanha-russa emocional.
Esse padrão mantém a pessoa em alerta permanente, esperando que os momentos felizes retornem.
Segundo a especialista, muitas pessoas confundem intensidade com amor. Na prática, porém, essa alternância de aproximação e distância pode alimentar a ansiedade e fazer com que os pensamentos girem continuamente em torno da mesma pessoa.
Quando isso acontece, o relacionamento começa a dominar a vida emocional.
Sinais de alerta em uma relação
Especialistas apontam alguns indícios frequentes de que um vínculo pode estar se tornando prejudicial:
- Dependência emocional extrema
- Ciúme constante ou vigilância sobre o parceiro
- Ciclos repetidos de brigas seguidas de reconciliações intensas
- Sofrimento frequente causado pela relação
- Prejuízos na vida pessoal, profissional ou social
Outro sinal importante é a perda gradual do espaço individual. Amizades começam a se afastar, projetos ficam parados e interesses pessoais desaparecem.
Para Grosman, esse é um dos indícios mais claros de que algo não vai bem. “A relação passa a ocupar todo o espaço da vida da pessoa”, explicou.
Em um relacionamento saudável, o amor permite que cada um continue sendo quem é, mantendo seus próprios projetos e interesses.
Amor ou obsessão?
A obsessão se torna evidente quando o outro passa a ocupar o centro absoluto da vida. A tranquilidade depende das respostas, da aprovação ou da presença da outra pessoa.
Nejafian afirma que a principal diferença entre amor e obsessão está na forma como o relacionamento afeta a liberdade individual. No amor, existe espaço para duas pessoas com vidas próprias. Já na obsessão, surge a necessidade constante de controle e confirmação.
Pequenos passos para sair do ciclo
Especialistas ressaltam que ninguém consegue sair de uma relação prejudicial apenas porque recebeu conselhos ou pressão externa.
O processo geralmente começa com pequenos gestos de autonomia. Retomar atividades abandonadas, reencontrar amigos ou reservar tempo para si mesmo pode ajudar a reconstruir a sensação de identidade e independência.
Aceitar que a separação pode causar dor também faz parte do caminho. Segundo Grosman, não existe maneira de encerrar um relacionamento significativo sem enfrentar algum sofrimento.
O apoio de amigos, familiares ou acompanhamento psicológico pode ajudar durante essa fase.
Para Nejafian, uma pergunta simples pode servir como ponto de reflexão: o relacionamento ajuda a crescer ou apenas consome energia emocional?
A resposta nem sempre surge rapidamente. O processo de compreensão costuma ser gradual, com avanços e retrocessos.
Ainda assim, especialistas lembram que amar não deveria significar abrir mão da própria vida ou da própria liberdade. Reconhecer isso pode ser o primeiro passo para transformar a relação ou encontrar um novo caminho.