Por que refrigerante em garrafa de vidro parece ser mais gostoso? A ciência explica
Presença de gás carbônico e forma de conservação podem influenciar o sabor da bebida

Não há nada como um refrigerante gelado em um dia quente, especialmente se ele for servido na garrafa de vidro, popularmente considerado mais refrescante e saboroso. Mas será que isso é verdade?
A ciência diz que sim. Isso porque a embalagem pode influenciar as características da bebida, especialmente no que diz respeito a manutenção do gás carbônico presente no líquido e a conservação ao longo do tempo.
O segredo está no gás do refrigerante
Sabe aquela sensação de tomar um refrigerante bem gelado, cheio de bolhas e com aquele “estalo” na boca? Boa parte disso tem a ver com o CO₂ dissolvido na bebida.
É o gás carbônico que dá origem à carbonatação e ajuda a criar aquela sensação de frescor e intensidade que sentimos ao beber. E aí entra uma diferença entre as embalagens.
O vidro é uma barreira muito eficiente para gases. Já o PET é um material semipermeável. Com o tempo, pequenas quantidades de CO₂ podem atravessar a parede da garrafa e escapar para o ambiente. Estudos com bebidas gaseificadas mostram que essa perda de gás pode acontecer durante o armazenamento.
Por isso, em condições semelhantes, uma bebida armazenada em vidro tende a conservar melhor a carbonatação por mais tempo.
Além disso, o CO₂ também participa da forma como percebemos os aromas da bebida. Quando abrimos o refrigerante, a liberação do gás ajuda a transportar compostos aromáticos voláteis para o espaço acima do líquido. Esses compostos chegam ao nariz e contribuem para aquilo que percebemos como sabor.
É por isso que um refrigerante com mais carbonatação pode parecer mais “vivo”, fresco e intenso.
A própria Associação Brasileira da Indústria de Refrigerantes e de Bebidas Não Alcoólicas (ABIR) explica que a perda de CO₂ pode levar à perda de compostos aromáticos voláteis, alterando a experiência de consumo.
E a lata?
As latas de alumínio são praticamente impermeáveis aos gases e contam com um revestimento interno que impede o contato direto do refrigerante com o metal. Por isso, elas também conseguem preservar muito bem as características da bebida.
Se existe alguma diferença entre refrigerantes em lata, vidro e PET, ela pode estar relacionada a vários fatores, como formulação, temperatura, armazenamento e tempo desde o envase.
Também não existe uma regra geral dizendo que refrigerante em lata tem menos gás. A quantidade de CO₂ depende do processo de fabricação e das características de cada produto.
Por que o PET perde mais gás?
O PET é mais permeável aos gases do que o vidro. Durante o armazenamento, portanto, parte do CO₂ dissolvido pode migrar lentamente através da parede da garrafa.
Pesquisas com bebidas gaseificadas mostram que essa perda varia de acordo com fatores como temperatura, espessura da garrafa, pressão interna e tempo de armazenamento.
Ou seja: quanto mais favoráveis forem as condições para essa migração, maior pode ser a perda de gás.
Isso não quer dizer que uma garrafa PET recém-aberta vai estar sem gás. Muito pelo contrário, já que as embalagens são desenvolvidas justamente para minimizar essa perda.
Então o refrigerante no vidro é mais gostoso?
Pode ser uma experiência mais agradável, mas não dá para afirmar que o vidro, sozinho, deixa o refrigerante objetivamente mais saboroso.
Um teste cego publicado em 2026 comparou refrigerantes servidos a partir de garrafas de vidro e PET. Quando os participantes não conseguiam ver ou sentir a embalagem, as diferenças de sabor e carbonatação não foram percebidas de forma consistente.
Nesse sentido, a percepção também exerce um papel importante nesse processo.
O peso da garrafa, o toque do vidro gelado, a aparência, o som da abertura e até a expectativa de que aquela bebida será “melhor” podem influenciar a forma como o cérebro interpreta o que estamos bebendo.
O vidro também muda a própria sensação de consumo. Ele transmite uma sensação de frio mais intensa ao toque, tem uma textura diferente e, dependendo do formato da garrafa, pode mudar até a maneira como a bebida chega aos lábios.
Por isso, duas bebidas muito parecidas podem ser percebidas de maneiras diferentes dependendo de como são apresentadas.
No fim das contas, a embalagem faz diferença, mas não é a única responsável.
Jornalista formada pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atuou na Rádio UFMG Educativa e em empresas de marketing, com experiência em produção de conteúdo, SEO e redação Atualmente, escreve, em colaboração com a Itatiaia, nas editorias de entretenimento e variedades.



