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Orcas e golfinhos cruzaram ponto sem volta da evolução e não devem retornar à vida terrestre

Estudo analisou mais de 5,6 mil espécies de mamíferos e identificou um limite evolutivo entre animais semiaquáticos e aqueles totalmente adaptados à vida na água

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Imagem ilustrativa - Orcas
Imagem ilustrativa - Orcas • Banco de Imagem I Pixabay

Orcas, golfinhos e baleias descendem de mamíferos terrestres que, ao longo da evolução, voltaram a ocupar ambientes aquáticos. Milhões de anos de adaptações transformaram completamente esses animais — e um estudo indica que, depois de determinado estágio, o caminho evolutivo de volta para a terra se torna praticamente impossível.

A pesquisa, publicada na revista científica Proceedings of the Royal Society B, analisou mais de 5.600 espécies de mamíferos para investigar se a adaptação à vida aquática poderia ser revertida. O trabalho foi liderado por Bruna Farina, da Universidade de Friburgo, na Suíça.

Os pesquisadores identificaram um limite entre mamíferos semiaquáticos, que ainda conseguem se locomover em terra, e aqueles totalmente adaptados à vida na água. Depois desse ponto, as características associadas à vida aquática se tornam difíceis de reverter.

O que é esse “ponto sem volta” da evolução?

A equipe dividiu os mamíferos em quatro categorias de acordo com o grau de adaptação à água, desde espécies totalmente terrestres até animais completamente aquáticos, como baleias e golfinhos.

A análise mostrou que a transição entre a vida terrestre e a semiaquática pode acontecer de forma gradual. Animais que ainda conseguem viver e se locomover em terra, como algumas espécies de lontras e castores, mantêm características que permitem certa flexibilidade.

O cenário muda quando uma linhagem passa a depender completamente do ambiente aquático.

Segundo os pesquisadores, existe um limiar evolutivo entre esses dois estágios. Depois que ele é ultrapassado, a probabilidade de uma linhagem retornar à vida terrestre se aproxima de zero.

Como a evolução fechou o caminho de volta?

A adaptação à vida aquática provocou uma série de transformações no corpo desses mamíferos.

Ao longo de milhões de anos, os cetáceos desenvolveram corpos altamente especializados para nadar, mergulhar e conservar calor na água. Entre as mudanças estão modificações nos membros, na forma do corpo e na maneira de se locomover.

A própria evolução do tamanho corporal teve papel importante. O aumento da massa corporal pode ajudar mamíferos aquáticos a conservar calor em ambientes frios, enquanto outras adaptações fisiológicas favoreceram a sobrevivência e a alimentação no oceano.

Essas características são extremamente eficientes dentro da água, mas não oferecem a mesma vantagem em terra.

Por que o tamanho do corpo é importante?

A água retira calor do corpo mais rapidamente do que o ar. Por isso, mamíferos que passaram a viver permanentemente em ambientes aquáticos precisaram desenvolver estratégias para evitar a perda excessiva de calor.

Uma delas foi o aumento do tamanho corporal.

O estudo relaciona a transição para ambientes aquáticos a mudanças na massa corporal e na alimentação. Em espécies totalmente aquáticas, essas transformações passaram a fazer parte de um conjunto de características altamente especializado para a vida no oceano.

E a alimentação?

A alimentação também mudou ao longo desse processo evolutivo.

O estudo aponta que a adaptação completa à vida aquática esteve associada, em diferentes linhagens, ao desenvolvimento de dietas carnívoras e a metabolismos mais elevados. Isso ajudou esses animais a obter a energia necessária para manter seus corpos e atividades em ambientes aquáticos.

No caso de cetáceos como orcas e golfinhos, a alimentação está completamente integrada ao ecossistema marinho.

Essa especialização é mais um exemplo de como a evolução de diferentes características ocorre de maneira conjunta, tornando cada vez mais difícil uma eventual reversão para o ambiente terrestre.

O que diz a Lei de Dollo?

O resultado do estudo está relacionado à chamada Lei de Dollo, princípio associado ao paleontólogo belga Louis Dollo.

A ideia central é que, depois que uma característica biológica complexa é perdida ao longo da evolução, é extremamente improvável que ela volte a aparecer exatamente da mesma forma.

Isso não significa que a evolução nunca possa produzir características semelhantes. O ponto é que a evolução não funciona como um botão de “voltar” para recuperar exatamente um estado ancestral.

No caso dos mamíferos aquáticos, os pesquisadores encontraram evidências de que a passagem de uma condição semiaquática para uma adaptação completamente aquática representa justamente um desses momentos de difícil reversão.

Então uma orca ou um golfinho nunca poderia voltar a viver em terra?

A possibilidade evolutiva é considerada praticamente nula.

Isso não significa que seja fisicamente impossível um animal individual sair da água ou permanecer temporariamente fora dela. A questão analisada pelo estudo é diferente: uma linhagem de mamíferos totalmente aquáticos poderia voltar a evoluir até se tornar novamente terrestre?

Os resultados indicam que isso é extremamente improvável depois que a linhagem ultrapassa o limite entre a vida semiaquática e a completamente aquática.

Por isso, embora os ancestrais dos cetáceos tenham sido animais terrestres, a evolução levou baleias, golfinhos e orcas a um caminho cada vez mais especializado no ambiente aquático — um caminho que, segundo o estudo, praticamente não tem volta.

O que isso significa para o futuro dos cetáceos?

A descoberta ajuda a entender como a evolução pode criar espécies extremamente especializadas em determinado ambiente.

A mesma especialização que torna baleias, golfinhos e orcas altamente eficientes no oceano também significa que sua sobrevivência depende fortemente das condições desse ambiente.

Mudanças nos ecossistemas marinhos, como alterações na temperatura da água, disponibilidade de alimento e outras pressões ambientais, podem representar desafios importantes para espécies que dependem integralmente do oceano.

Depois de milhões de anos de evolução, os cetáceos não apenas escolheram o oceano como habitat: tornaram-se biologicamente especializados para ele.

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