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O que a Princesa ensina sobre detecção precoce do câncer de pâncreas

Conheça o sistema de integração de dados que permite identificar padrões tumorais e prever respostas ao tratamento, abrindo caminho para diagnóstico antecipado

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Mais de dez mil pessoas recebem diagnóstico de câncer de pâncreas anualmente na Espanha
Imagem ilustrativa • Banco de imagens Canva

Mais de dez mil pessoas recebem diagnóstico de câncer de pâncreas anualmente na Espanha. A doença carrega uma característica cruel: sinais vagos que passam despercebidos até fases avançadas, quando sobreviver cinco anos se torna improvável para nove em cada dez pacientes.

O Hospital Universitário La Princesa, em Madrid, desenvolveu o Projeto Pandora para mudar essa realidade. A iniciativa cria um espaço avançado de dados sanitários capaz de analisar informações clínicas e de imagem de forma integrada, com o objetivo de detectar a doença antes que ela se torne visível nos exames radiológicos convencionais e personalizar tratamentos conforme o perfil de cada tumor.

Como funciona a integração de dados sanitários no diagnóstico oncológico

O processo começa quando o paciente passa por consultas e exames no hospital. Cada informação fica registrada em bases de dados diferentes, segundo explica Alba Herrera, da equipe de Engenharia Biomédica do projeto.

A extração acontece de forma anonimizada pela Unidade de Informação Clínica. O trabalho seguinte consiste em reunir, integrar, homogeneizar e codificar esses dados dispersos numa estrutura comum, permitindo que se tornem interoperáveis.

O formato escolhido para padronização é o OMOP (Observational Medical Outcomes Partnership), que possui maior relevância na União Europeia. Essa uniformização possibilita análises cruzadas e o desenvolvimento de modelos preditivos.

O que é anonimização e por que ela importa no tratamento de dados de saúde

Antes de qualquer análise, as informações clínicas e de imagem passam por anonimização, conforme destaca a engenheira informática Inés Simón. Esse passo garante que dados altamente sensíveis possam ser trabalhados sem expor a identidade dos pacientes.

María Jesús Bono Sauquillo, responsável legal do projeto, reforça a importância das avaliações de impacto e do cumprimento da legislação. "O que tentamos fazer é garantir, por meio das avaliações de impacto correspondentes e do cumprimento da legislação, que a privacidade do paciente sempre esteja protegida", diz.

Processos de pseudonimização complementam a segurança. Todas as atuações ficam registradas, permitindo rastrear quem acessa os dados, como e com qual finalidade. O equilíbrio entre investigação científica e proteção ao paciente permanece no centro das decisões.

Análise de padrões: radiómica e transcriptômica na predição de tumores

Depois da homogeneização, os dados podem ser analisados conjuntamente para desenvolver modelos de predição e identificar biomarcadores. O tipo de análise varia conforme a natureza da informação, segundo o engenheiro biomédico Manuel Castaño.

Imagens e textos exigem abordagens diferentes. Cada modelo gera métricas específicas que indicam quais padrões buscar. A chave está em combinar camadas distintas de informação para obter uma visão mais completa.

A radiómica extrai dados avançados das imagens médicas, enquanto estudos transcriptômicos revelam características moleculares dos tumores. Eduardo Pacios, investigador principal do projeto, explica: "Do ponto de vista radiológico, uma vez que tivermos os resultados radiômicos, poderemos, provavelmente, fazer um diagnóstico mais precoce, inclusive antes de que a doença possa ser radiologicamente visível".

Tratamento personalizado: como prever qual paciente responde melhor a cada terapia

Identificar padrões tumorais permite não apenas antecipar o diagnóstico, mas também direcionar tratamentos de forma individualizada. Segundo Pacios, o objetivo é "otimizar os tratamentos e dirigir as melhores opções terapêuticas que temos para os pacientes que mais se beneficiarão delas".

Naqueles casos em que se identifica antecipadamente que o benefício será menor, torna-se possível oferecer alternativas mais adequadas e personalizadas. A abordagem evita submeter pacientes a terapias que provavelmente não funcionarão para seu perfil tumoral específico.

Essa estratégia representa uma mudança significativa no manejo oncológico: do tratamento padronizado para a medicina de precisão baseada em dados integrados.

Desafios legais na gestão de informação sanitária sensível

O uso secundário de dados de saúde enfrenta zonas cinzentas na legislação. Daniel Andronick, do departamento legal, observa: "No espaço de dados de saúde, o desenvolvimento normativo não está totalmente consolidado e há certas lacunas nas quais tivemos que nos manejar sempre priorizando a privacidade do paciente".

Para aspectos que não ficavam completamente claros, a equipe buscou apoio da conselharia e dos organismos competentes. O consentimento permanece essencial quando se realiza uso secundário dos dados.

Bono Sauquillo ressalta que a legislação não pode se tornar impedimento para a investigação, mas as máximas garantias ao paciente precisam estar presentes. Esse equilíbrio delicado guia todas as decisões do projeto.

Em que ponto está o desenvolvimento do sistema de dados integrados

O Projeto Pandora encontra-se em fase avançada, conforme Pacios. "A base, que é a construção do espaço de dados, está prestes a se completar; restaria disponibilizar esse espaço e gerenciar o acesso de terceiros usuários à informação para que possam contribuir na exploração dos dados", adianta.

A expectativa é grande sobre os próximos passos. O investigador principal situa o grande desafio na próxima década: "Seria maravilhoso sonhar com ter conseguido encontrar biomarcadores nesses pacientes que nos permitam fazer detecção mais precoce da patologia e poder implementar novos tratamentos".

Além disso, como se trata de um espaço de dados, contar com mais participantes contribuindo com informação alimentará o sistema. Quanto maior o volume disponível, melhores serão os resultados obtidos.

Aplicação do modelo para outras patologias e centros de pesquisa

A metodologia desenvolvida no Projeto Pandora não se limita ao câncer de pâncreas. O formato OMOP utilizado permite interoperabilidade entre diferentes instituições e patologias.

O processo de extração, anonimização, homogeneização e análise pode ser replicado em outros contextos oncológicos e até em doenças não oncológicas. A estrutura de dados padronizada facilita colaborações entre centros.

Esse potencial de expansão transforma o projeto numa contribuição metodológica relevante para a pesquisa em saúde. A combinação de informações clínicas, radiômicas e moleculares oferece um modelo transferível para diversas áreas médicas.

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