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A LPN comprou 1.800 hectares em Castro Verde para salvar as suas aves

Descubra como a mais antiga ONG ambiental da Península Ibérica protege espécies ameaçadas através de parceria com agricultores, compensações da UE e observatórios de birdwatching

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A LPN comprou 1.800 hectares em Castro Verde para salvar as suas aves • Magnific

No final da década de 1980, a Liga para a Proteção da Natureza (LPN) travou uma corrida silenciosa contra empresas de celulose no Alentejo. A disputa era por terra. A LPN venceu em Castro Verde, adquirindo seis propriedades que abrangem 1.800 hectares com financiamento da Comissão Europeia.

Essas propriedades formam hoje o núcleo da Reserva da Biosfera de Castro Verde, refúgio para aves de estepe ameaçadas de extinção. A abetarda-grande, a abetarda-pequena e o tartaranhão-de-cauda-longa dependem da paisagem dominada por campos de cereais. A estratégia da LPN revela um princípio central: proteger biodiversidade significa trabalhar com agricultores, não contra eles.

Por que as aves de estepe dependem da agricultura

As espécies que habitam Castro Verde precisam dos campos de cereais para sobreviver. A abetarda-grande, a abetarda-pequena e o tartaranhão-de-cauda-longa utilizam essas áreas tanto para nidificação quanto para alimentação.

Estrela Matilde, diretora executiva da LPN, explica o vínculo direto entre agricultura e conservação. "Estas espécies dependem a 100% da agricultura. Se a agricultura desaparecer, estas espécies também desaparecerão."

A paisagem de cereais oferece o habitat específico que essas aves necessitam. Sem os campos cultivados, as maiores populações dessas espécies no país deixariam de existir.

Como funciona o programa de proteção do tartaranhão-de-montanha

O tartaranhão-de-montanha representa um caso crítico de conservação. Esta ave de rapina ameaçada nidifica diretamente no solo dos campos de cereais, colocando seus ninhos em risco durante a colheita.

As máquinas agrícolas destroem os ninhos quando procedem à colheita. Para evitar essa perda, equipes de campo da LPN monitorizam continuamente a população e identificam a localização de cada ninho.

Quando um ninho é encontrado, o agricultor deixa aproximadamente um hectare ao redor sem colher. Ele recebe compensação financeira através de pagamentos agroambientais da União Europeia.

Nesta época, a LPN identificou cerca de 60 ninhos e protegeu mais de 30. Nos casos em que os ninhos não podem permanecer nos campos, os ovos são transportados para incubação em Olhão antes de as crias regressarem a Castro Verde.

O declínio preocupante das aves de estepe em Portugal

A tendência geral para as aves das estepes portuguesas é profundamente preocupante. O recenseamento nacional da sisão, publicado em junho de 2026, revela dados alarmantes.

A população da sisão sofreu um declínio estimado de cerca de 90% desde 2006. O colapso ocorre mesmo dentro de áreas protegidas especificamente designadas para a conservação da espécie.

Esses números demonstram que a proteção formal de territórios, por si só, não garante a sobrevivência das espécies. A estratégia precisa envolver diretamente as práticas agrícolas e os agricultores que manejam a terra.

Abutres pretos e a redução de mortalidade em linhas elétricas

A LPN desenvolve trabalho de conservação com abutres pretos na região. A organização coordena um projeto em parceria com o operador de rede E-REDES para enfrentar a mortalidade de aves causada por linhas elétricas.

Enterrar as linhas mais críticas é uma das soluções que ambas as entidades estão a explorar. O objetivo é eliminar ou reduzir drasticamente as colisões e eletrocuções que afetam essas aves de grande porte.

Essa parceria ilustra outro aspecto do trabalho da LPN: negociar soluções práticas com empresas de infraestrutura para tornar o território mais seguro para a fauna.

Educação ambiental e intervenção em processos críticos

A LPN desenvolve atividades de educação ambiental a nível nacional. A organização também intervém em avaliações de impacto ambiental e processos judiciais quando considera que os ecossistemas estão em risco.

Como explica Estrela, a intervenção é um trabalho invisível que tem um grande impacto. Esse tipo de atuação não gera manchetes, mas pode impedir danos irreversíveis aos habitats e espécies.

A combinação de trabalho de campo direto, educação, advocacy e litígio estratégico compõe o modelo de atuação da LPN. A organização atua em múltiplas frentes simultaneamente para defender a natureza.

A incerteza do financiamento europeu para conservação

Os projetos da LPN dependem há mais de três décadas do programa LIFE da Comissão Europeia. Este é o único instrumento financeiro europeu dedicado exclusivamente ao ambiente e à ação climática.

O programa cobre entre 65 e 75% dos custos dos projetos. A LPN precisa angariar o restante por conta própria em todas as ocasiões. Agora esse modelo corre o risco de mudar.

"O financiamento europeu segue sempre as prioridades europeias e, neste momento, nem o ambiente nem a conservação fazem parte delas", explica Estrela. As organizações ambientais dependem fortemente desses fundos para funcionar.

A instabilidade do financiamento coloca em risco tanto o trabalho de conservação quanto o impacto que as ONG conseguem gerar. A situação força a LPN a buscar novas fontes de receita.

Diversificação de receitas para sustentabilidade financeira

Estrela Matilde, diretora executiva da LPN, é responsável pela estratégia e gestão da organização. Um dos principais focos é reduzir a dependência do financiamento baseado em projetos para garantir estabilidade a longo prazo.

"Também precisamos de gerir a organização como se fosse uma empresa", afirma Estrela. A LPN é uma organização sem fins lucrativos, mas precisa gerar excedente para investir na conservação.

A estratégia consiste em diversificar as receitas através de várias fontes. Financiamento privado, parcerias empresariais, serviços educativos pagos e turismo relacionado com observação de aves e bem-estar fazem parte do plano.

Estrela argumenta que o turismo deve funcionar como ferramenta para financiar a conservação. "Não queremos dedicar-nos ao turismo", afirma. "Não é essa a nossa especialidade."

Observatórios de aves como modelo de desenvolvimento territorial

A LPN está a lançar um novo projeto financiado pela La Caixa para desenvolver uma rede de observatórios de observação de aves e fotografia. O projeto está aprovado, financiado e tem início em setembro.

Os observatórios serão instalados tanto nos terrenos da própria LPN quanto nas terras dos agricultores. Trata-se de um novo modelo de desenvolvimento territorial construído através de parceria com as comunidades locais.

O próprio projeto funciona como modelo de desenvolvimento e os observatórios são a ferramenta. Ao criarem atrações durante todo o ano, geram receitas para as empresas locais. Os observatórios também alimentam o conhecimento científico através da ciência cidadã.

Como diz Estrela, o benefício "recaí diretamente sobre os agricultores" que preservam o habitat e protegem as espécies. O modelo conecta conservação, economia local e turismo sustentável.

Gestão cuidadosa do turismo para evitar perturbação das aves

O turismo de observação de aves precisa ser gerido com cuidado. Os visitantes podem perturbar as aves que nidificam e anular o trabalho de conservação realizado.

A LPN pretende formar e certificar guias de observação. A organização também vai definir as melhores práticas para minimizar o impacto dos visitantes nas espécies sensíveis.

O equilíbrio entre geração de receita e proteção da fauna é delicado. A formação adequada dos guias e o estabelecimento de protocolos claros são essenciais para que o turismo se torne aliado da conservação, não ameaça.

Monte do Paraíso e o sonho de um modelo integrado

Uma iniciativa futura situa-se no Monte do Paraíso, uma das propriedades da LPN em Castro Verde. Entre 200 e 300 hectares arderam na propriedade.

A LPN não quer dedicar-se ao turismo como negócio principal, mas vê o turismo como ferramenta para financiar a conservação. O projeto no Monte do Paraíso ainda é um sonho em fase de planejamento.

A visão é criar um espaço onde conservação, educação e turismo de bem-estar se integrem. O modelo deve demonstrar que é possível proteger a natureza enquanto se geram recursos para sustentar esse trabalho.

Como apoiar o trabalho da LPN

A LPN aceita novos membros e donativos. A quota anual é de 25 euros e os donativos são dedutíveis nos impostos em Portugal.

Estrela Matilde resume a missão da organização com clareza. "Precisamos de poder continuar o nosso trabalho. A nossa missão é proteger os nossos ecossistemas e as espécies, e garantir que dispomos dos recursos necessários para o fazer."

A mais antiga ONG ambiental da Península Ibérica, fundada em 1948, continua a buscar formas de adaptar seu modelo operacional sem perder de vista o objetivo central: proteger a biodiversidade através da colaboração com as pessoas que vivem e trabalham na terra.

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