O teste anual simples que revela se você está apenas existindo ou realmente vivendo
Descubra por que refletir sobre a finitude pode transformar sua forma de viver, com base na experiência de quem dedicou anos a contar histórias de pessoas que já morreram

Hugo van der Ding passou anos mergulhado em histórias de mortos. Como humorista e apresentador do programa Vamos Todos Morrer, ele investigou vidas esquecidas, memórias apagadas e legados preservados de formas inesperadas. Essa imersão constante na morte de outras pessoas mudou profundamente sua relação com a própria vida.
A conclusão que ele extraiu dessa jornada é surpreendente: pensar na morte não é atrair o fim, mas descobrir uma bússola para viver com mais urgência e propósito. Após quase ser atropelado por um táxi, Van der Ding começou a fazer um exercício mental simples, mas transformador, que ele recomenda repetir anualmente. Este artigo explora como a reflexão sobre a finitude pode se tornar uma ferramenta prática para avaliar se sua vida está valendo a pena.
A presença de um avô que nunca conheceu
Hugo van der Ding cresceu com a morte como presença familiar, embora paradoxal. Seu avô morreu antes de ele nascer, mas a casa da avó guardava intacto o escritório do falecido: a secretária, os livros, os objetos pessoais permaneciam ali, como se aguardassem seu retorno.
"O meu avô era uma figura muito presente na minha vida, apesar de nunca o ter conhecido", relata Van der Ding. Hoje, ele trabalha nesse mesmo escritório, rodeado pelos vestígios materiais de alguém que só conheceu através de histórias e objetos. Para ele, essa experiência ilustra um princípio fundamental: "A morte também é aquilo que nós fazemos dela".
É essa capacidade humana de manter vivos os mortos através da memória e dos rastros materiais que fascina o humorista. Não se trata apenas de lembrar, mas de como cada cultura e cada pessoa escolhe preservar (ou esquecer) quem partiu.
Memória digital e o futuro dos mortos
No podcast Temos Tempo Para Morrer, as jornalistas Raquel Bulha e a antropóloga Clara Saraiva conversam com Van der Ding sobre as novas formas de preservar a presença dos que já morreram. A tecnologia está mudando radicalmente essa relação.
Memoriais digitais, perfis em redes sociais que continuam ativos após a morte e tecnologias capazes de recriar vozes e personalidades de falecidos já são realidade. Chatbots alimentados por inteligência artificial podem simular conversas com pessoas que morreram, utilizando seus padrões de linguagem e pensamento.
Essa possibilidade levanta uma questão cada vez mais urgente: até onde queremos prolongar a presença de quem morreu? Van der Ding explora essas fronteiras em suas conversas, interessado tanto nas pessoas que caíram no esquecimento histórico quanto nas que podem, graças à tecnologia, nunca desaparecer completamente.
O teste anual que revela se a vida vale a pena
Depois de quase ser atropelado por um táxi, Hugo van der Ding teve uma revelação sobre sua própria mortalidade. O susto não o paralisou, mas despertou uma pergunta essencial que ele passou a fazer regularmente a si mesmo.
"Não me apetecia nada morrer, mas, se morresse agora, já tinha valido a pena", reflete o humorista sobre aquele momento. A partir dali, transformou essa avaliação em um exercício de consciência: um check-up existencial anual.
O teste é simples, mas profundo. A cada ano, Van der Ding se pergunta se, caso a vida terminasse naquele instante, ela já teria tido sentido suficiente. Não se trata de otimismo forçado nem de autoajuda rasa, mas de um instrumento honesto para medir se estamos adiando o que realmente importa.
Segundo ele, "é um teste que se deve fazer todos os anos". A prática força uma pausa para avaliar prioridades, corrigir rotas e reconhecer quando estamos apenas existindo em vez de viver.
Por que a morte nos dá senso de urgência
Para Van der Ding, a existência de um fim é precisamente o que nos obriga a fazer alguma coisa com o tempo que temos. A finitude não é uma maldição, mas a condição que torna cada ação significativa.
"Se estivéssemos aqui para sempre, escrevia o livro daqui a 500 anos", exemplifica o humorista. A eternidade eliminaria a necessidade de escolha, de priorização, de coragem para começar. É justamente porque o tempo acaba que precisamos decidir o que fazer com ele agora.
Essa perspectiva transforma a morte de ameaça em aliada. Ela funciona como um prazo final que dá peso às decisões e valor às experiências. Sem ela, tudo poderia ser adiado indefinidamente, esvaziando o sentido de estar vivo.
Pensar na morte, portanto, não é mórbido. É a única forma realista de pensar na vida.
Se pudesse dar vida a um morto
Quando questionado sobre qual pessoa falecida escolheria trazer de volta, Van der Ding não hesita. "Se pudesse dar vida a um morto escolheria, seguramente, a minha avó para lhe perguntar se está orgulhosa de mim", revela.
A resposta é reveladora. Não se trata de curiosidade histórica nem de conversar com algum gênio do passado. A escolha recai sobre alguém cujo olhar ainda importa, cuja aprovação ainda é buscada, mesmo após a morte. É uma escolha sobre legado, sobre o desejo humano de saber se a vida que construímos honra a memória de quem nos formou.
Essa necessidade de validação póstuma mostra como os mortos continuam influenciando os vivos. Não apenas através de memoriais digitais ou objetos guardados, mas através das perguntas não respondidas que carregamos sobre o que eles pensariam de nossas escolhas.
Humor como forma de lidar com a finitude
Hugo van der Ding encontrou no humor sua maneira de abordar a morte. O programa Vamos Todos Morrer não trata o tema com solenidade mórbida, mas com a leveza que permite olhar de frente para o inevitável.
O riso não diminui a seriedade da morte, mas torna a conversa possível. Em sociedades ocidentais, onde a morte virou tabu, falar sobre ela com humor pode ser subversivo. É uma forma de desarmar o medo e abrir espaço para reflexões honestas sobre finitude.
No podcast Temos Tempo Para Morrer, essa abordagem se repete. Raquel Bulha e Clara Saraiva propõem conversas sobre morte, luto, medo, riso, corpo e memória, revelando como diferentes culturas encaram o fim da vida. O objetivo não é celebrar a morte, mas aprender a valorizá-la como parte integrante da existência.
Afinal, encarar nossa finitude é a única forma de escolher conscientemente como queremos viver até lá.



