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Jon Fosse, Prêmio Nobel de Literatura: 'A Igreja é uma força contra o capitalismo; agora não é hora de criticar seu poder'

Desde que recebeu o Nobel de Literatura em 2023, sua vida mudou radicalmente, mas ele luta para preservar a rotina que o transformou num dos escritores mais importantes da atualidade

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Livros • Freepik/Reprodução

Jon Fosse chega ao Bristol, hotel histórico de Oslo, vestindo o hábito negro que se tornou inseparável de sua imagem pública. O foulard, os anéis e o relógio antigo completam a figura de um homem que transformou a escrita em ritual espiritual. Aos 67 anos, o dramaturgo norueguês carrega nos olhos azuis claríssimos a marca de quem conhece o silêncio como matéria-prima.

Para Fosse, rezar e escrever são quase a mesma coisa. O mistério do mundo e o mistério da literatura se fundem, assim como passado, presente e futuro convergem numa única dimensão temporal. Desde que recebeu o Nobel de Literatura em 2023, sua vida mudou radicalmente, mas ele luta para preservar a rotina que o transformou num dos escritores mais importantes da atualidade. Acaba de publicar 'Hotel Vaim', romance onde um homem vive situações inexplicáveis num hotel estranho, com ecos de Beckett e Kafka.

A influência de Beckett e Kafka na construção do absurdo

A relação de Fosse com Samuel Beckett começou na juventude e marcou profundamente sua trajetória. O impacto foi tão forte que ele temia que a influência ficasse evidente demais em suas peças teatrais. Sua primeira obra, 'Alguém Vai Vir', nasceu como rebelião contra o pai literário: o título contradiz diretamente 'Esperando Godot'.

O próprio autor, porém, não sente que sua escrita se pareça muito com a de Beckett. A semelhança existe no tratamento da linguagem, de modo neutro, repetitivo e minimalista. As tramas seguem caminhos distintos.

Mas é Franz Kafka quem ocupa o posto de autor mais admirado por Fosse. A influência kafkiana se faz mais evidente em 'Hotel Vaim', onde a ambiguidade e o inexplicável dominam a narrativa. Kafka também influenciou fortemente Beckett, criando uma linhagem literária da qual Fosse se reconhece herdeiro.

Hotéis, aeroportos e o purgatório da existência

Um hotel funciona como estação de trânsito, lugar intermediário onde não se sabe se as pessoas vão ou vêm. A maioria dos romances de Fosse transcorre nesses espaços liminares, nem aqui nem ali, mas numa zona brumosa e confusa.

Essa ambiguidade espacial é fundamental na literatura do escritor norueguês. O que acontece em seus textos não é isto ou aquilo, mas as duas coisas e nenhuma ao mesmo tempo. A literatura de Fosse nasce do paradoxo.

O paradoxo, segundo ele, precisa ser aceito. Os místicos chamavam esse princípio de 'coincidentia oppositorum'. Essa visão está próxima de sua maneira de viver a vida e de ser crente. O cristianismo, afinal, propõe crer num paradoxo: na ciência, um não pode ser três; na literatura, na arte e na religião, um pode ser três sem deixar de ser um.

O mistério como fundamento da criação e da fé

Para Fosse, não se pode crer sem o mistério, assim como não se pode criar sem ele. Ele não sabe por que nasceu nem por que está sentado numa entrevista, mas sabe que há um sentido. O mundo é um mistério que tem sentido, ou melhor: o mundo é puro sentido.

O escritor norueguês rejeita o absurdo. Sua visão é de que a existência carrega significado intrínseco, mesmo quando escapa à compreensão racional. Essa postura filosófica atravessa toda sua obra.

O mistério da literatura é o mesmo mistério de Deus. Ambos habitam o território do inexprimível, do que só pode ser experimentado, nunca totalmente explicado. Essa fusão entre criação artística e experiência espiritual define o método de trabalho de Fosse.

A virada do heavy metal literário para o tragicômico

No início da carreira, há quase cinquenta anos, os romances de Fosse eram completamente negros, algo semelhante ao heavy metal em palavras. Mas após escrever quatro ou cinco romances e alguns livros de poesia, algo mudou profundamente.

A escrita continuou trágica, mas ganhou um lado cômico. Desde então, quase toda sua produção é tragicômica. Ela está no meio, sendo ambas as coisas simultaneamente.

Fosse faz questão de distinguir o cômico do humor. No humor, a pessoa pretende ser engraçada intencionalmente. Em seus livros, ocorre algo e de repente aquilo é cômico, mas não por vontade deliberada. Simplesmente acontece algo estranho que pode ser cômico. Ele precisa escrevê-lo porque é um escritor da necessidade, não da intenção.

Por que a literatura complica em vez de simplificar

Fosse não se considera um escritor político, apenas um escritor. Sua esperança é ser um bom escritor, porque um bom escritor aporta algo de valor ao mundo. É isso que ele encontra em Kafka e Beckett: algo valioso.

Seguindo Wittgenstein, Fosse acredita que ética e estética são a mesma coisa. A boa escrita é algo bom também em sentido político, mesmo sem dizer "vote neste partido ou naquele". A qualidade literária carrega valor ético intrínseco.

Enquanto a política ou a guerra simplificam o mundo em bons e maus, em isto ou aquilo, a literatura o complica. A literatura é ambiguidade. Num momento em que tantos políticos prometem segurança e certeza, a literatura ensina a viver com a incerteza. Harold Bloom, leitor admirado por Fosse, dizia que com a literatura não se aprende a viver, mas a morrer. A morte tem a ver com a ambiguidade, com o paradoxo: é o mais certo de nossa vida, mas também o mais incerto.

O silêncio como direito e como ferramenta criativa

No teatro de Fosse, o silêncio ocupa papel central. O silêncio escreve como o preto sobre o branco: é seu reverso. A literatura pode dar ao silêncio um espaço maior neste mundo ruidoso.

O mundo contemporâneo quer barulho constante em todas as partes, todo o tempo. O simples ato de se acalmar, guardar silêncio e serenar-se tornou-se contracultural.

Em 'Septologia', o personagem Asle afirma que é no silêncio onde se pode ouvir a Deus. Fosse concorda com ele nesse ponto. O silêncio não é ausência, mas presença de outra ordem, espaço onde o essencial pode emergir.

A Igreja como força contra o capitalismo hoje

Fosse esteve no Vaticano em junho. Sua relação com a religião institucional é complexa. Ele sempre simpatizou com os quakers, que renunciam à hierarquia eclesiástica: não têm sacerdotes nem sacramentos.

Ainda está muito próximo dos quakers, mas os tempos mudaram bastante. Antes, a Igreja gozava de poder imenso, grande demais. Mas já não é assim na Noruega nem no norte da Europa em geral.

Agora a Igreja funciona como uma espécie de força contra o barulho, contra a economia e o capitalismo, contra essa corrente que pretende que tudo seja dirigido por interesses meramente comerciais. Como a Igreja representa uma força contra o capitalismo, Fosse não acredita que seja o momento adequado para criticá-la por ter poder demais. Na Noruega, esse poder já não existe.

O ressurgimento espiritual e a abertura para o invisível

Na juventude, Fosse tentou ser marxista e ateu, até onde pôde. Mas o que o fez mudar de opinião foi a incapacidade de entender o que ocorria quando escrevia. A origem da escrita escapava ao materialismo.

Sua mente então se abriu para o invisível. Depois de um tempo, chegou o conceito de Deus. Agora pode dizer que crê em Deus, embora não consiga descrevê-lo.

Quando publicou 'Septologia', com um protagonista católico estranho, a palavra Deus estava proibida no contexto literário. Ele imaginou que odiariam seu romance, mas ocorreu exatamente o contrário. Havia uma necessidade de fazer certas perguntas sobre o sentido da vida. Fosse acredita que continuamos nesse ponto de abertura espiritual.

Personagens entre a vida e a morte, como nós

Nos livros de Fosse, não sabemos se os personagens estão mortos ou vivos. Funcionam como uma espécie de fantasmas. O próprio autor concorda com essa leitura: seus personagens estão em parte vivos e em parte mortos.

De certo modo, nós também estamos. Durante a entrevista no Bristol, Fosse e seu interlocutor estão sentados, conversando, mas carregam a morte dentro. A condição humana é essa ambiguidade constante.

Essa percepção atravessa toda a obra do escritor norueguês. A fronteira entre vida e morte não é nítida, mas porosa. Seus personagens habitam essa zona intermediária, assim como todos nós, mesmo sem perceber.

A pintura como conexão entre o material e o espiritual

O interesse de Fosse pela pintura está na capacidade dessa arte de conectar o mais material – a tinta, as cores, as formas, a moldura – com o espiritual. Ele se declara um homem de gostos conservadores: gosta de óleo sobre tela, dessa estrutura tradicional.

O que mais gosta na vida é ver um bom quadro e buscar seu sentido. Passa épocas em que só sente conexão com um único pintor. Atualmente, é Mark Rothko quem o absorve.

Quanto a Edvard Munch, foi um grande artista sem dúvida. Mas sendo norueguês, é fácil cansar-se dele. O mesmo acontece com Ibsen: no final, cansa-se de Ibsen. Isso não diz nada de mau sobre eles, que foram grandíssimos criadores. A proximidade excessiva pode desgastar até os gênios.

A vida depois do Nobel entre bênção e maldição

Fosse acredita que para muitos escritores o Nobel foi bênção e maldição ao mesmo tempo. Para ele, é uma bênção, claro. Todo escritor do mundo sonha com o prêmio, porque é o topo.

Mas a vida muda tanto que ele luta para que se pareça o máximo possível com sua vida antes do Nobel. Para isso, precisa dizer não: não a viagens, a entrevistas. Tem de fazer isso para ser a pessoa que é e que quer ser.

Contudo, ainda tenta ser o escritor que foi. Os livros 'Vaim', 'Hotel Vaim' e a terceira parte desse tríptico estavam praticamente escritos antes do prêmio; só precisou arrematá-los. Desde que recebeu o Nobel, não conseguiu escrever nada novo. Não publicou nenhuma obra nova.

Traduzir Kafka como forma de continuar escrevendo

Fosse está sempre escrevendo, porque é sua maneira de viver. Mas não precisa ser algo original necessariamente. Ultimamente traduz muito.

O último trabalho que terminou foi com 'O Castelo', de Franz Kafka. A escolha não é casual: Kafka é o autor que mais admira, aquele cuja influência reconhece especialmente em 'Hotel Vaim'.

Aí está o último paradoxo antes do fim da conversa: terminar um trabalho com uma obra inacabada. Fosse, que transformou a escrita em ritual espiritual e vive a literatura como mistério, encontra na relação com o texto de Kafka uma forma de manter viva sua conexão com as palavras, mesmo quando a criação original se tornou temporariamente impossível após o Nobel.

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