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Filhos não ajudam em casa? Em vez de mandar, convite pode ter efeito melhor

Envolver crianças e adolescentes nas atividades da família desde cedo pode ajudar no aprendizado de habilidades e fortalecer o sentimento de pertencimento ao lar

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crianca fazendo tarefa domestica
Magnific

Uma mudança simples na maneira como os pais convidam os filhos a participar das tarefas de casa pode transformar a relação das crianças e dos adolescentes com a rotina familiar. Em vez de apresentar as atividades domésticas como obrigações ou cobranças, a jornalista científica Michaeleen Doucleff defende que os adultos convidem os filhos a participar do cotidiano e aprendam junto com eles.

A ideia foi discutida por Doucleff em uma conversa com a apresentadora Sheryl Ziegler, no programa americano 'The In-Between Years'. A proposta faz parte das experiências reunidas pela autora no livro Hunt, Gather, Parent, resultado de observações sobre práticas de criação de filhos em diferentes comunidades.

Um dos episódios que mais chamou a atenção da jornalista aconteceu durante uma visita a uma comunidade maia em Yucatán, no México. Na ocasião, uma menina de 12 anos se levantou e começou a lavar os pratos sem que ninguém tivesse pedido.

Ao perguntar por que ela estava fazendo aquilo, Doucleff ouviu uma resposta curta: "Porque amo minha mãe". A situação ajudou a despertar o interesse da autora por uma forma de convivência na qual crianças participam das atividades dos adultos de maneira natural.

Crianças aprendem observando

Antes de iniciar suas viagens de pesquisa, Doucleff contou que havia trabalhado durante dez anos como química e buscava respostas para dificuldades que enfrentava na criação da própria filha, Rosemary. Segundo ela, depois do nascimento da menina, em 2015, a rotina familiar foi marcada por momentos de birras, gritos e agressividade.

Durante uma cobertura jornalística sobre doenças infecciosas para a NPR, a autora começou a observar práticas de criação diferentes das que conhecia. Ela percebeu uma participação maior das crianças nas atividades cotidianas e menos discussões e negociações entre pais e filhos.

A partir dessas observações, Doucleff passou a defender que crianças sejam incluídas na rotina dos adultos, em vez de serem constantemente entretidas ou mantidas em uma programação separada.

A orientação que resume essa proposta é simples: "Venha me ajudar. Venha ficar comigo no meu mundo e eu vou te ensinar".

Para a jornalista, não é necessário esperar que a criança consiga realizar uma tarefa inteira. Ela pode começar com pequenas ações, como ajudar a preparar uma refeição ou participar de uma atividade que ainda está aprendendo.

"Os filhos aprendem por meio da observação", afirmou Doucleff. Segundo ela, a prática e o tempo acompanhando outras pessoas podem ter um papel mais importante no aprendizado do que longas explicações.

Participação aumenta aos poucos

A autora contou que colocou essa abordagem em prática com a própria filha quando ela tinha aproximadamente três anos. Aos 11, Rosemary já conseguia preparar pratos simples e ajudar a organizar a mesa.

Doucleff ressalta, porém, que a proposta não significa transformar crianças em responsáveis pela manutenção da casa.

"Não se trata de a criança fazer o jantar todas as noites ou limpar a casa sozinha", explicou. A ideia é que a participação aumente gradualmente e passe a fazer parte da convivência familiar.

Um exemplo citado pela autora envolve um adolescente de 13 anos que passou uma semana em sua casa. Enquanto ela preparava comida, o garoto costumava ficar no celular, olhando o Instagram ou jogando videogame.

Em vez de simplesmente mandar que ele largasse o aparelho e ajudasse, Doucleff iniciou uma conversa sobre o que ele estava vendo na rede social. Depois, perguntou se ele gostaria de ajudar na cozinha.

O adolescente aceitou cortar batatas. Nos dias seguintes, a atividade se transformou também em uma oportunidade de conversa entre os dois.

Filhos também podem escolher como ajudar

Para Doucleff, envolver os filhos nas tarefas não significa criar uma lista rígida de obrigações ou oferecer recompensas sempre que eles colaborarem.

A ideia é transmitir que todos que vivem em uma casa também participam dos cuidados necessários para manter aquele espaço funcionando.

"Você vive aqui, come aqui e precisa participar das atividades que preparam as refeições e mantêm a casa limpa", explicou a autora ao apresentar esse princípio.

Ao mesmo tempo, ela defende que crianças e adolescentes tenham algum espaço para escolher como podem contribuir. Se o filho não quiser cortar cenouras, por exemplo, os pais podem perguntar qual outra atividade ele prefere fazer.

A participação, portanto, não precisa ser completamente determinada pelos adultos. O objetivo é fazer com que o jovem compreenda que sua contribuição tem valor para o grupo.

Menos correções e mais autonomia

Outro ponto destacado pela jornalista é a necessidade de evitar intervenções constantes dos pais. Segundo Doucleff, os adultos devem corrigir os filhos quando houver risco ou quando estiver em jogo algo realmente importante, mas não precisam interferir em cada pequeno detalhe. "Não intervenha mais do que o necessário", recomendou.

A autora também diferencia elogios exagerados de agradecimentos concretos. Em vez de transformar cada pequena ajuda em uma grande comemoração, ela sugere simplesmente agradecer ou reconhecer o desenvolvimento de uma habilidade.

Entre os exemplos citados estão frases como "Obrigado" e "Você cresceu, veja as habilidades que desenvolveu".

Na visão apresentada por Doucleff, participar da vida familiar também pode contribuir para que crianças e adolescentes percebam que são úteis para outras pessoas. Esse sentimento, segundo ela, está relacionado à percepção de que a própria vida tem importância para aqueles que estão ao redor.

"O que realmente proporciona isso é sentir que sua vida importa para as pessoas ao seu redor, para sua família e para sua comunidade", afirmou.

A partir dessa perspectiva, a autora sugere que os adultos ajudem os adolescentes a encontrar maneiras de colaborar, criar e até participar de atividades voluntárias.

A apresentadora Sheryl Ziegler encerrou a conversa com uma observação sobre a relação entre pais e filhos: "Mesmo que os filhos agissem como se não precisassem dos pais, eles ainda precisavam deles".

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Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.

 

 

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