Como reconsolidar memórias dolorosas pode aumentar sua autoestima, segundo a neurociência
Psicóloga explica técnica validada por estudos que permite ressignificar lembranças difíceis e fortalecer o senso de valor pessoal ao longo da vida

"Você é um idiota." "Você é fraco." Frases assim, repetidas internamente quando surgem emoções difíceis, podem ser sinais de que você luta contra a própria autoestima. Esse padrão revela mais do que autocrítica: indica dificuldade de tratar os próprios sentimentos como válidos, explica a psicóloga Marisa Franco.
Mas a boa notícia é que o senso de valor pessoal pode ser desenvolvido como qualquer outra habilidade. Franco, autora de *Worth: The New Science of Self-Esteem and Secure Attachment*, publicado em setembro, apresenta no livro uma abordagem cientificamente validada: revisitar memórias difíceis do passado e oferecer, como seu eu adulto, o acolhimento que faltou naquele momento. A técnica se baseia na teoria da reconsolidação de memória, desenvolvida pelo neurocientista comportamental Karim Nader, e promete resultados mensuráveis tanto no bem-estar emocional quanto na estrutura cerebral.
Por que nossas memórias moldam o senso de valor próprio
Memórias não apenas registram o passado: elas constroem nossas previsões sobre o futuro. Quando uma lembrança carrega vergonha, medo ou rejeição, ela continua influenciando como você se vê e se valoriza hoje.
A reconsolidação de memória permite transformar essas lembranças. Ao revisitar mentalmente um momento difícil e imaginar seu eu atual intervindo com palavras de segurança e cuidado, você altera não só o impacto emocional da lembrança, mas também estruturas físicas do cérebro.
"Quando você retorna a uma memória e imagina a si mesmo intervindo como adulto dizendo 'Você está seguro, eu me importo com você e nunca vou te abandonar', isso pode ser bastante transformador", afirma Franco. Isso leva a maior autoestima, redução de sintomas de trauma e mudanças no hipocampo, região cerebral responsável pelo armazenamento de memórias.
O exercício de reparenting: como funciona na prática
Franco chama a técnica de "reparenting" (rematernagem ou repaternagem, em tradução livre). O método consiste em você, como adulto atual, retornar mentalmente a um momento doloroso da infância ou adolescência e oferecer ao seu eu mais jovem o apoio que não recebeu na época.
Ela compartilha um exemplo pessoal: revisitou a memória de criança esperando sozinha no treino de futebol enquanto a mãe atrasava para buscá-la. Como uma das poucas crianças não brancas no time, Franco sentia vergonha e isolamento intensos naquele momento.
No exercício de reconsolidação, ela imaginou seu eu adulto chegando antes da mãe, demonstrando entusiasmo ao ver a criança, abraçando-a e dizendo: "Nossa, estou tão feliz de poder te buscar. Mesmo que sua mãe esteja atrasada, ela te ama." Esse processo permitiu que Franco ressignificasse a experiência, dissolvendo camadas de vergonha que carregava há décadas.
Como o exercício transforma sua percepção atual do mundo
Franco descreve os efeitos da prática como profundamente libertadores. "Isso me permite ver o bem no mundo, não avaliar as coisas com base na negatividade eclipsando tudo de bom", explica. "Me faz sentir mais valorizada, mais entusiasmada, menos assustada, mais ousada."
O exercício não apaga a memória original nem nega o sofrimento vivido. Ele oferece catarse: permite que as emoções reprimidas sejam processadas e liberadas, impedindo que continuem moldando negativamente o senso de identidade.
Quando você reconsolida memórias dolorosas oferecendo compaixão ao seu eu mais jovem, desenvolve também autocompaixão no presente. Passa a reconhecer suas emoções como legítimas e a si mesmo como digno de cuidado, independentemente de falhas ou imperfeições.
Por que vale a pena trabalhar a autoestima ao longo da vida
Baixa autoestima funciona como um filtro que bloqueia as experiências positivas da vida. "Todas as belezas da vida escorregam de você quando tem autoestima mais baixa", explica Franco. "Você pode vivenciar grande sucesso e ainda se sentir um fracasso. Pode encontrar grande amor e ainda se sentir incapaz de ser amado."
Segundo a psicóloga, a capacidade de internalizar o que há de bom na própria vida fica interrompida por um senso de self fragilizado. Por outro lado, quando conseguimos nos sentir bem conosco mesmos, nos tornamos capazes de receber e absorver profundamente tudo de bom que acontece ao redor.
Desenvolver autoestima não é vaidade nem egoísmo: é aprender a tratar as próprias emoções como importantes, validar a própria experiência e reconhecer o próprio valor. Essa habilidade pode ser construída em qualquer fase da vida, com práticas intencionais como a reconsolidação de memória.
Evidências científicas da transformação cerebral
A teoria da reconsolidação de memória, base do exercício de reparenting, foi desenvolvida pelo neurocientista Karim Nader e validada por estudos em neurociência comportamental. O processo não gera apenas mudanças subjetivas no bem-estar emocional.
Os efeitos incluem alterações mensuráveis no hipocampo, estrutura cerebral onde memórias são armazenadas e consolidadas. Isso significa que revisitar e ressignificar memórias literalmente reconstrói conexões neurais, modificando como o cérebro responde a situações semelhantes no futuro.
O processo leva a maior autoestima e redução de sintomas de trauma, oferecendo transformação tanto psicológica quanto neurobiológica.
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