Vacina contra malária da UFMG recebe autorização para começar testes em humanos
Avanço abre caminho para uma tecnologia contra Plasmodium vivax, espécie do parasita para a qual ainda não há vacina disponível no mundo para uso na população

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou, nesta quarta-feira (7), a Vivaxin, desenvolvida pelo CTVacinas, da UFMG, em colaboração com a USP e o laboratório Cristália, a iniciar os testes em humanos. O avanço abre caminho para avaliar uma tecnologia 100% brasileira contra o Plasmodium vivax, espécie do parasita para a qual ainda não há vacina disponível no mundo para uso na população.
A espécie combatida pela vacina predomina em grande parte dos países com malária fora da África Subsaariana e tem forte presença nas Américas e na Ásia. No entanto, as duas vacinas contra a malária recomendadas atualmente pela Organização Mundial da Saúde (OMS), RTS,S/AS01 e R21/Matrix-M, foram desenvolvidas para outra espécie, o P. falciparum.
“Ela tem um impacto socioeconômico importante, porque a pessoa doente não pode trabalhar”, afirmou Ricardo Gazzinelli, coordenador do CTVacinas. O pesquisador apontou que desenvolver uma vacina contra a malária vivax representa uma oportunidade de reduzir os efeitos da doença sobre a saúde, a renda e a rotina das populações expostas à transmissão.
A resolução da Anvisa (Resolução-RE nº 3.956, de 6 de outubro de 2026) deferiu duas petições do CTVacinas relacionadas à Vivaxin: o Dossiê de Desenvolvimento Clínico de Medicamento e o processo de pesquisa clínica. De acordo com o laboratório, a decisão autoriza o avanço à avaliação em humanos, etapa em que serão produzidas novas evidências sobre o comportamento da candidata vacinal.
Entenda o que será avaliado
O estudo de fase 1 vai avaliar a segurança, as reações à aplicação e a capacidade da Vivaxin de estimular uma resposta imunológica. Os resultados vão orientar as próximas etapas do desenvolvimento, necessárias para avaliar a proteção contra a doença.
O protocolo registrado prevê 48 participantes saudáveis, de 18 a 59 anos, sem infecção prévia por malária. Durante o estudo, serão avaliadas três dosagens da candidata, com grupos que receberão Vivaxin ou placebo. O esquema prevê três aplicações, com intervalo de 28 dias entre elas.
O local do estudo é o Centro de Pesquisas Clínicas do Hospital das Clínicas da UFMG, em Belo Horizonte, e o acompanhamento previsto é de 360 dias, com avaliações clínicas e monitoramento dos participantes.
Lacuna mundial
Dados do Relatório Mundial da Malária 2025, da OMS, indicam cerca de 9,9 milhões de casos de malária por P. vivax em 2024. Apenas nas Américas, essa espécie respondeu por 63,1% dos casos estimados de malária naquele ano, o que evidencia a relevância de uma vacina direcionada ao parasita.
A transmissão da doença ocorre principalmente pela picada de fêmeas infectadas de mosquitos do gênero Anopheles. Entre os sintomas mais comuns estão febre, calafrios e dor de cabeça. Em áreas de transmissão, o adoecimento interfere na rotina das famílias e pode afastar as pessoas de suas atividades de trabalho.
O P. vivax apresenta, ainda, uma característica que dificulta seu controle: as formas do parasita podem permanecer dormentes no fígado e voltar a provocar episódios de malária, mesmo sem uma nova picada infectante. Com isso, o tratamento precisa combater tanto a infecção no sangue quanto essas formas latentes, para prevenir recaídas.
Apesar de o P. falciparum estar associado à maior parte dos casos graves, a malária vivax também pode causar complicações e morte. O Ministério da Saúde destaca, entre os riscos, anemia grave, problemas respiratórios e ruptura do baço. O diagnóstico e o tratamento oportunos são fundamentais para reduzir a gravidade da doença.
Potencial para a eliminação
Foram registrados 118.037 casos de malária contraídos no Brasil em 2025, segundo o Ministério da Saúde. Mais de 99% dos casos autóctones se concentram na região amazônica, onde o enfrentamento da doença também envolve desafios de acesso ao diagnóstico, ao tratamento e às ações de prevenção.
“Essa vacina pode ter um papel extremamente importante para eliminar a malária do nosso território e, com isso, também contribuir com a eliminação da malária na América Latina”, avaliou Gazzinelli.
Jornalista formada pelo UniBH, é apaixonada pelo dinamismo do factual e pelo poder das histórias bem narradas. Com trajetória que inclui passagens pelo Sistema Faemg Senar, jornal Estado de Minas e g1 Minas, possui experiência em múltiplas plataformas e linguagens. Atualmente, integra a redação da Rádio Itatiaia, onde acompanha os principais acontecimentos de Minas Gerais, do Brasil e do mundo



