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Sul do Brasil vive nova realidade com avanço da dengue

Especialistas alertam para novos desafios no controle da doença que agora se espalha em regiões antes protegidas, como no Sul do Brasil.

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Outro resultado é que entre as pessoas que foram vacinadas e, mesmo assim, tiveram  dengue, houve redução de 80,3% no número de internações com relação a quem não foi imunizado.
Aedes aegypti transmite doenças como dengue, Zika e a Chikungunya • foto

A dengue, doença que por muito tempo parecia restrita ao calor do Norte e do Centro-Oeste do país, tem ganhado espaço no Sul do Brasil. Até o dia 8 de maio, o Rio Grande do Sul já havia registrado mais de 15 mil casos confirmados da doença e oito mortes, segundo dados da Agência Einstein. Uma situação que preocupa e aponta para algo maior: os efeitos diretos da crise climática na saúde da população.

O mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, encontrou no Sul um novo território para se espalhar. Com invernos menos rigorosos e temperaturas cada vez mais elevadas, o cenário mudou. As barreiras naturais, como o frio intenso, já não são suficientes para conter a proliferação da doença. Hoje, 474 municípios gaúchos estão infestados — número que ultrapassa os registros do ano anterior.

Problemas climáticos

Para o pesquisador Diego Ricardo Xavier, da Fiocruz, o avanço da dengue no Sul está ligado diretamente ao aquecimento global. “A gente tem visto a dengue entrando no Sul, onde não tinha epidemias tão frequentes, porque a barreira climática impedia. Agora, além de estar se deslocando para regiões subtropicais, ela está subindo as montanhas. Se o mundo continuar aquecendo, poderemos ter epidemias de dengue até na Europa e nos Estados Unidos”, explicou em entrevista à Agência Einstein. Segundo ele, esse movimento não se limita ao Brasil e já alcança países europeus como Espanha e França, que começam a registrar casos autóctones — ou seja, transmitidos localmente.

Só até abril, o país já somava mais de 1,7 milhão de casos suspeitos de dengue, com quase 70% deles classificados como prováveis. Em relação ao mesmo período do ano passado, o aumento é de cerca de 30%.

A epidemiologista Cláudia Codeço, coordenadora do InfoDengue, alerta que até mudanças pequenas nas estações do ano, como primaveras mais quentes ou invernos menos rigorosos, são suficientes para manter o ciclo do mosquito ativo. “O vírus agora consegue circular o ano inteiro em várias regiões”, contou à Agência Einstein.

Maiores riscos à saúde pública

Essa nova realidade traz riscos maiores à saúde pública. A dengue pode parecer, à primeira vista, uma febre forte, mas em muitos casos evolui para quadros graves, com sangramentos e confusão mental. A infectologista Emy Akiyama Gouveia, do Hospital Israelita Albert Einstein, reforça a importância da hidratação e alerta: “O atraso na reposição de líquidos é um dos principais fatores de evolução desfavorável”.

Mesmo com o avanço da vacinação — como a aplicação da Qdenga, vacina já disponível no SUS para grupos prioritários —, o combate à dengue ainda enfrenta obstáculos, especialmente em regiões mais vulneráveis. A cobertura vacinal ainda é baixa e o acesso à vacina ainda é desigual.

O problema é antigo, mas ganha contornos novos diante das mudanças no clima e da desigualdade estrutural das cidades brasileiras. “Muita gente começou a acumular água. Isso gerou um criadouro artificial e desmontou modelos clássicos que afirmavam que, para ter dengue, era preciso calor e chuva”, destacou Xavier, relembrando o surto vivido por São Paulo em 2014, em meio à crise hídrica. Na época, a escassez levou muitas famílias em regiões a armazenarem água em casa, o que favoreceu a multiplicação dos criadouros do mosquito. As regiões mais afetadas foram justamente aquelas com pior acesso à água.

Possíveis soluções

No meio de tantas dificuldades, algumas soluções já começam a mostrar resultado. Entre elas está o projeto Wolbachia, que utiliza uma bactéria para impedir que o Aedes aegypti transmita o vírus. Em cidades como Niterói, onde a iniciativa já foi aplicada, houve uma redução significativa dos casos de dengue, Zika e chikungunya.

A chegada da vacina do Instituto Butantan, em fase de aprovação, também é uma aposta importante. Mas, como alertam os especialistas, só a vacina não basta. É preciso investir em políticas públicas, fortalecer a infraestrutura urbana e garantir acesso igualitário à informação e ao atendimento.

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Izabella Gomes se graduou em Jornalismo na PUC Minas. Na Itatiaia, produziu inicialmente conteúdos para as editorias Minas Gerais, Brasil e Mundo. Atualmente, colabora com as editorias de Educação e Saúde.

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