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Procrastinação vingativa do sono: entenda o fenômeno que tem afetado chineses

Várias razões explicam o aumento do fenômeno, sobretudo as jornadas de trabalho exaustivas

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Você já "adiou" o seu horário de dormir para poder fazer coisas que não conseguiu ao longo do dia? Esse fenômeno, chamado "procrastinação vingativa do sono" (bedtime revenge procrastination), está em alta na China e foi alvo de muitos estudos ao longo dos últimos anos.

A procrastinação vingativa do sono consiste em postergar o horário de dormir para poder fazer coisas que não foram possíveis ao longo do dia, sejam elas tarefas de casa ou, até mesmo, por exemplo, assistir a vídeos online. É como se a pessoa deixasse de dormir para "recuperar o tempo perdido" ao longo do dia, muitas vezes devido a jornadas exaustivas de trabalho, para ter uma sensação de liberdade.

A ação tem sido muito comum entre chineses, sobretudo os que trabalham na jornada de trabalho 996 no país (expediente das 9h às 21h, durante seis dias por semana). Apesar de ser proibida, algumas empresas continuam praticando essa escala ilegalmente. Segundo um estudo publicado na Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos, cerca de 54,3% dos universitários chineses procrastinam frequentemente na hora de dormir.

Segundo a psicóloga Juliana Pereira, especialista em saúde mental em ambiente de trabalho, essa ação é contraditória, mas é entendida quando analisado o contexto. No entanto, essa sensação de liberdade no período noturno é falsa.

"Muitos desses jovens vivem jornadas longas, passam horas no trânsito, respondem a mensagens de trabalho fora do expediente e sentem que o dia nunca pertenceu a eles. Quando chega a noite, aparece uma necessidade quase simbólica de recuperar esse tempo perdido. É como se pensassem: 'Agora, pelo menos por algumas horas, eu faço o que eu quero'", explicou.

"O problema é que essa sensação de liberdade acontece justamente às custas do sono. É uma espécie de compensação emocional. A pessoa não está escolhendo entre dormir e assistir a uma série; ela sente que está escolhendo entre dormir e ter algum momento de vida", acrescentou.

Esse comportamento fala muito menos sobre preguiça ou falta de disciplina e muito mais sobre uma rotina que deixou pouco espaço para prazer, autonomia e descanso de verdade.

Juliana Pereira, psicóloga

Para a psicóloga, a solução do problema começa ao longo do dia.

"Reservar um tempo para si antes do fim do expediente, criar um ritual que marque o encerramento do trabalho, reduzir o uso das telas perto da hora de dormir e entender que descansar também é uma forma de cuidar da própria saúde. Dormir não é tempo perdido. É justamente o que permite viver o dia seguinte com mais disposição e equilíbrio", disse.

Ter o hábito de "desligar" após o término do expediente também pode diminuir a pressão intensa de jornadas de trabalho exaustivas.

"Aprender a descansar exige uma mudança de mentalidade. Descanso não é falta de compromisso. É parte do compromisso com a própria saúde. Na prática, vale criar limites claros: evitar responder demandas profissionais fora do expediente sempre que possível, construir um ritual para encerrar o dia, pode ser uma caminhada, um banho tranquilo ou ouvir música no caminho para casa, e proteger os momentos de lazer como se fossem um compromisso importante", recomendou.

Os impactos de dormir pouco

Juliana apontou que a falta de sono impacta na concentração, na memória e na capacidade de tomar decisões. O cérebro também fica com pouca eficiência para regular as emoções.

"É como se ele ficasse sem energia para administrar o estresse do dia", explicou.

Além do impacto psicológico, dormir pouco também causa problemas em outros sistemas do organismo, conforme explicou o médico do sono Leonardo Vivas.

"Durante o sono, o corpo regula hormônios e o sistema imunológico, consolida a memória e promove a recuperação física e mental. Quando esse processo é interrompido de forma frequente, o risco de desenvolver doenças cardiovasculares, como hipertensão e infarto, aumenta. Também há maior chance de alterações metabólicas, como ganho de peso, colesterol elevado e diabetes", afirmou.

"A privação de sono favorece dores de cabeça, aumenta o risco de AVC e pode agravar sintomas de ansiedade e depressão. Além disso, a pessoa tende a apresentar mais irritabilidade, dificuldade de concentração, prejuízo da memória e do aprendizado, queda no desempenho profissional e esportivo, fadiga constante e até alterações da função sexual, como a disfunção erétil", explicou.

Em geral, o tempo de sono ideal para um adulto é de cerca de sete horas por noite. No entanto, essa necessidade varia ao longo da vida e de características individuais.

"Tão importante, ou até mais, quanto o tempo de sono, é fundamental atentar-se para a qualidade do sono e para sinais de alerta, como sonolência diurna, fadiga, alterações do humor, surgimento de roncos, dificuldade para manter a atenção no trabalho ou nos estudos, além de outros problemas de saúde. Mesmo quem acredita estar se adaptando a poucas horas de sono pode estar sofrendo prejuízos importantes, ainda que eles não sejam percebidos no dia a dia. O sono é um processo biológico essencial e deve ser encarado como um dos pilares da saúde, assim como a alimentação equilibrada e a prática regular de atividade física", finalizou.

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Formada pela PUC Minas, Maria Fernanda Ramos é repórter das editorias Minas Gerais, Brasil e Mundo na Itatiaia. Antes, passou pelo portal R7, da Record.

 

 

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