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Posso confiar em inteligência artificial para tirar dúvidas sobre saúde?

Estudos mostram que ferramentas podem acertar ou errar diagnósticos, dependendo da forma como a pergunta é feita

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O uso de chatbots de inteligência artificial para tirar dúvidas de saúde, assim como para outras tarefas, cresce rapidamente, impulsionado pela facilidade de acesso e pela sensação de atendimento imediato. Mas, pesquisas recentes acendem um alerta importante: as respostas dessas ferramentas podem variar bastante e nem sempre são confiáveis.

Conforme relata uma reportagem publicada pela emissora estatal britânica BBC, nos últimos meses, a tecnologia passou a fazer parte da rotina de pessoas como Abi, moradora de Manchester, na Inglaterra. Ela recorre ao chatbot para entender sintomas e decidir o que fazer em situações de saúde. Para quem enfrenta ansiedade relacionada a doenças, a ferramenta parece oferecer uma abordagem mais equilibrada do que buscas tradicionais na internet, que frequentemente destacam cenários mais graves.

"É quase como conversar com um médico", relata. Segundo ela, o chatbot ajuda a pensar nas possibilidades de forma mais organizada.

Em um dos episódios, Abi suspeitou de infecção urinária. Após descrever os sintomas, recebeu a recomendação de procurar um farmacêutico. A orientação se mostrou adequada, e ela conseguiu o tratamento necessário rapidamente. Para ela, a experiência evitou a sensação de sobrecarregar o sistema público de saúde.

Mas nem sempre o resultado é positivo. Em outra situação, após uma queda, Abi descreveu dores intensas nas costas e no abdômen. O chatbot sugeriu que poderia se tratar de um órgão perfurado e recomendou atendimento emergencial imediato. Após horas no pronto atendimento, a dor diminuiu e ela percebeu que não havia gravidade. "Ele entendeu errado", disse à BBC.

Casos como esse ilustram uma preocupação crescente entre especialistas. O diretor médico da Inglaterra, Chris Whitty, afirmou, também à emissora britânica, que o momento é delicado, pois as pessoas estão usando essas ferramentas, mas as respostas ainda não atingem um nível de qualidade confiável e podem ser apresentadas com convicção, mesmo quando estão erradas.

Pesquisadores também investigam o desempenho dos chatbots em cenários controlados. Um estudo da Universidade de Oxford mostrou que, quando recebem todas as informações de forma completa, essas ferramentas podem alcançar até 95% de precisão. No entanto, quando a interação depende da forma como o usuário descreve os sintomas, o desempenho despenca. Em testes com mais de mil pessoas, a precisão caiu para 35%.

A explicação está no comportamento humano. Durante uma conversa, é comum omitir detalhes, esquecer informações ou descrever sintomas de forma imprecisa. Pequenas mudanças na forma de escrever podem levar o chatbot a interpretações completamente diferentes, inclusive em casos graves que exigem atendimento urgente.

Outro ponto levantado por especialistas é a forma como as respostas são apresentadas. Diferente de uma busca tradicional, que leva o usuário a diferentes fontes e níveis de credibilidade, o chatbot entrega uma resposta única, com aparência personalizada. Isso pode aumentar a confiança do usuário, mesmo quando a informação não é precisa.

Há ainda o risco de desinformação. Um estudo conduzido na Califórnia testou diferentes chatbots com perguntas formuladas para induzir respostas incorretas. Mais da metade dos resultados foi considerada problemática. Em alguns casos, as ferramentas chegaram a sugerir tratamentos alternativos sem comprovação para doenças graves como o câncer.

Segundo pesquisadores, o problema está na própria base da tecnologia. Os chatbots são projetados para prever padrões de linguagem e gerar respostas coerentes, mas isso não significa que estejam sempre corretos do ponto de vista médico.

Empresas responsáveis por essas ferramentas afirmam que trabalham para melhorar a segurança e a precisão das respostas. Ainda assim, reforçam que o uso deve ser informativo e educativo, e não substitui a avaliação de um profissional de saúde.

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Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.