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O segredo dos 90+: ciência explica como brasileiros ultrapassam quase um século de vida com autonomia

No Dia Internacional do Idoso, estudo da UFMG e relatos de longevas mostram como escolhas de vida, genética e redes de apoio transformam o envelhecer em uma arte diária

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Dona Yara, 91 anos • Anderson Porto | Itatiaia

Acordar, pedir saúde, pegar os pincéis de pintura e, mais tarde, assumir a direção do próprio carro para ir à aula de hidroginástica ou ao curso de dança sênior. Essa é a rotina de Dona Yara, de 91 anos, moradora de Belo Horizonte. Nascida em Juiz de Fora em 1935, a professora aposentada da Polícia Militar, mãe de cinco filhos, avó de oito netos e bisavó de sete bisnetos, sintetiza uma realidade cada vez mais presente no Brasil: a de idosos que ultrapassam as nove décadas de vida mantendo total autonomia e desejo de futuro.

Neste 1º de outubro, Dia Internacional e Nacional do Idoso, a trajetória de Dona Yara deixa de ser apenas uma história inspiradora para se tornar o centro de um debate fundamental sobre saúde, biologia e valorização social.

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A fórmula dos 90+: 80% estilo de vida, 20% genética

Chegar bem aos 90 anos não é um mero fruto do acaso. Há duas décadas, pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) investigam os mecanismos biológicos envolvidos na longevidade. De acordo com a imunologista e professora da UFMG, Dra. Ana Maria Caetano Faria, a ciência demonstra que o corpo humano possui uma capacidade impressionante de adaptação ao longo do tempo.

"O sistema imune é um dos sistemas que mais sofre com o envelhecimento. No entanto, os indivíduos mais longevos conseguem, de alguma maneira, promover um remodelamento das suas células e moléculas. Eles produzem mediadores anti-inflamatórios que compensam os desgastes, criando uma resiliência que os permite viver bem e responder adequadamente a vacinas e infecções", explica a pesquisadora.

A grande dúvida de quem busca o envelhecimento saudável costuma ser o peso da herança genética frente aos hábitos diários. A médica destaca que a balança muda com o passar dos anos:

"Até mais ou menos os 90 anos, o estilo de vida responde por cerca de 80% da longevidade, enquanto a genética representa apenas 20%. Ou seja: exercício físico, alimentação equilibrada, boa qualidade do sono e manejo do estresse são decisivos. A partir dos 90 anos, a contribuição dos genes passa a ser muito maior. Por isso, fortalecer políticas públicas de promoção da saúde traz um impacto imensamente positivo e reduz custos no SUS", pontua Dra. Ana Maria.

Memórias, autonomia e a arte de não ter medo do tempo

Para além dos marcadores biológicos, o envelhecimento com qualidade passa diretamente pela saúde mental, pelo sentimento de utilidade e pela manutenção de paixões pessoais. Para Dona Yara, que pinta telas desde a juventude e trabalhou por 30 anos na supervisão de ensino do Colégio Tiradentes, o segredo é não paralisar diante das mudanças da vida.

"Envelhecer é da vida, fazer o quê? A gente não pode segurar uma idade e ficar quieta nela, tem que ir embora, ir para a frente e procurar sempre fazer o bem para não ter remorso. Eu fiz 90 anos, mas outro dia mesmo eu estava com 19. A gente tem que aprender a ser útil, ajudar as pessoas e não ter medo da vida", relata Dona Yara.

A independência da matriarca conta com o suporte atento da filha, a psicóloga Yara, de 58 anos, que acompanha a mãe nas consultas e celebra a vitalidade da rotina materna: "Eu peço sempre que ela tenha vida, mas vida com qualidade. Ela vai dirigindo para a hidroginástica e para as aulas. A gente precisa entender que o idoso precisa estar feliz e manter sua dignidade. Enquanto houver qualidade de vida, que ela viva plenamente", ressalta Yara.

Resgate histórico e escuta afetuosa

A valorização do conhecimento acumulado pelas pessoas idosas também se tornou movimento de resgate cultural. A jornalista Luciana Moraes, de 54 anos, idealizou há cinco anos o projeto Nonagenárias, focado em registrar as memórias e trajetórias de mulheres com 90 anos ou mais em Minas Gerais e no Brasil.

Com mais de 140 histórias documentadas, o projeto cruza o olhar afetivo com a preservação da memória coletiva das cidades.

"Quando você conta a história de uma mulher que atravessou nove décadas, não conta apenas a vida dela, mas a história de toda uma população e de um modo de viver. Quem vive mais, sabe ensinar mais. O projeto é uma forma de engrandecer o papel dessas mulheres no sentido afetivo e sociocultural, deixando um legado de sabedoria e reverência para as próximas gerações", conclui Luciana.

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Giovanna Damião é jornalista da televisão, digital e do rádio. Desde 2020 como social media e redatora na televisão e, mais recentemente, atuando como apresentadora e repórter da editoria de cultura. Com versatilidade no jornalismo, caminha pela música, eventos, esportes e entretenimento.

 

 

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