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Existe câncer de coração? Estudo revela que o órgão possui uma barreira natural

Pesquisa aponta que função do coração pode impedir o crescimento de tumores

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O coração humano, assim como o de outros mamíferos, quase nunca é afetado por câncer. Mesmo em contato constante com o sangue e funcionando sem parar ao longo da vida, esse órgão vital raramente se torna origem de tumores. Esse fenômeno, que há décadas intriga a ciência, acaba de ganhar uma possível explicação.

Um estudo conduzido por pesquisadores de cinco países europeus revelou que a própria força mecânica do coração pode atuar como uma espécie de escudo contra o câncer. A pesquisa mostra que a pressão gerada pelos batimentos cardíacos dificulta o crescimento de células tumorais nos tecidos do órgão.

O trabalho, publicado na revista Science, foi liderado pelo cientista Giulio Ciucci, com a participação de instituições como o Centro Internacional de Engenharia Genética e Biotecnologia, além de universidades da Itália e da Áustria.

Mistério

Casos de câncer cardíaco são extremamente raros. Isso sempre chamou a atenção de especialistas, já que o coração recebe um fluxo intenso de sangue, o que teoricamente poderia favorecer a presença de células cancerígenas.

Outro ponto curioso é que o coração adulto tem baixa capacidade de regeneração. As células responsáveis por sua contração praticamente deixam de se dividir logo após o nascimento. Estudos anteriores já indicavam que o aumento da carga mecânica após esse período reduz essa capacidade regenerativa.

Com base nisso, os cientistas levantaram uma hipótese: será que essa mesma força mecânica também impede o crescimento de tumores?

O papel dos batimentos cardíacos

Para investigar, os pesquisadores utilizaram camundongos geneticamente modificados para desenvolver mutações associadas ao câncer no coração. Mesmo nessas condições, o órgão se mostrou altamente resistente ao surgimento de tumores.

Em outra etapa, os cientistas realizaram um experimento curioso. Eles transplantaram o coração de um camundongo para a região do pescoço de outro animal compatível. Nesse novo local, o órgão continuava recebendo sangue, mas sem a pressão mecânica típica dos batimentos normais.

Ao introduzir células cancerígenas humanas nos dois cenários, os resultados foram claros. Nos corações ativos, onde havia pressão mecânica, o crescimento tumoral foi inibido. Já nos corações transplantados, com menor pressão, as células cancerosas se multiplicaram com mais facilidade.

Os pesquisadores também identificaram um elemento-chave nesse processo: uma proteína chamada Nesprina-2. Ela atua como transmissora de sinais mecânicos dentro das células. Quando o gene responsável por essa proteína foi desativado, as células tumorais voltaram a crescer mesmo em ambientes com pressão normal.

Além disso, testes em tecidos cardíacos artificiais mostraram que as células cancerígenas tendem a se desenvolver em áreas com menor pressão mecânica, reforçando a ideia de que a força física do coração desempenha um papel protetor.

Novas possibilidades para o tratamento do câncer

Os resultados abrem um caminho promissor para a medicina. Segundo os cientistas, estimular mecanicamente tecidos pode se tornar uma estratégia futura no combate ao câncer, aproveitando mecanismos naturais do próprio organismo.

Apesar do avanço, os autores do estudo alertam que ainda há um longo caminho pela frente. As descobertas foram feitas em modelos com animais e tecidos artificiais, o que exige validação em humanos antes de qualquer aplicação clínica.

A pesquisadora Serena Zacchigna destacou que a equipe agora trabalha para garantir a reprodução dos resultados em diferentes laboratórios e condições.

Especialistas também veem potencial na descoberta. A médica Vanesa Gregorietti, da área de cardio-oncologia, afirmou que os achados sugerem novas formas de tratamento baseadas na mecânica celular e dos tecidos.

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Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.