‘Caducar não é normal’: médica alerta para sinais de demência em idosos
Maioria dos idosos brasileiros enfrentam subdiagnóstico de demência, segundo estudo da Unifesp

Mais de 80% dos idosos brasileiros que apresentam sintomas de demência não têm diagnóstico, segundo estudo da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Nas regiões mais pobres do Brasil, o cenário é ainda mais grave: o subdiagnóstico da doença chega a 90%.
Para a médica geriatra Simone de Paula Pessoa Lima, os dados evidenciam desigualdades históricas no acesso ao cuidado especializado no país. “A demência não faz parte do envelhecimento normal. Perdas de memória persistentes, dificuldades de linguagem, desorientação e alterações no desempenho de tarefas do dia a dia precisam ser investigadas precocemente”, alerta a médica.
Segundo a especialista, muitos pacientes chegam aos consultórios já em fases avançadas da doença, quando há perda significativa da autonomia. “Esse atraso ocorre por um somatório de fatores: baixa escolaridade, barreiras no acesso aos serviços de saúde, escassez de profissionais capacitados e, de forma muito marcante, a falsa crença de que o declínio cognitivo seria apenas ‘coisa da idade’. Caducar não é normal”, afirma a geriatra.
A médica diz que idosos que moram sozinhos precisam de ainda mais atenção. De acordo com ela, essas pessoas apresentam maior risco de permanecer sem diagnóstico. “Quando o idoso está socialmente isolado, sintomas silenciosos, como falhas de memória e mudanças de comportamento, podem passar despercebidos por anos”, explica.
A geriatra destaca que identificar a doença precocemente pode fazer diferença importante na qualidade de vida dos pacientes. “Descobrir a doença precocemente não significa apenas dar um nome ao problema; significa abrir caminhos para o cuidado. O diagnóstico precoce nos permite investigar e tratar causas potencialmente reversíveis de déficit cognitivo, controlar fatores de risco cardiovasculares e iniciar terapias para retardar a progressão dos sintomas”, afirma.
Diante do envelhecimento acelerado da população brasileira, Simone de Paula Pessoa Lima defende mudanças estruturais na assistência à saúde da pessoa idosa. “Precisamos fortalecer a atenção primária, capacitar equipes de saúde e incorporar a avaliação cognitiva como rotina nas consultas clínicas. Reconhecer a demência no início é um ato de cuidado, dignidade e proteção”, conclui.
Formada em Jornalismo pela Puc Minas, Paula Arantes produziu inicialmente conteúdos para as editorias Minas Gerais, Brasil, Mundo, Orações e Entretenimento no portal da Itatiaia. Atualmente, colabora com a editoria Meio Ambiente. Antes, passou pelo jornal Estado de Minas.



