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Artrite reumatoide: o que fazer quando o primeiro tratamento falha

Entenda as opções terapêuticas disponíveis quando os inibidores de TNF-alfa não controlam a doença autoimune que afeta as articulações

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Artrite reumatoide: o que fazer quando o primeiro tratamento falha
Canva/ Reprodução

Uma inflamação crônica nas articulações pode parecer apenas um incômodo inicial, mas tem o potencial de destruição semelhante ao de uma cárie que avança sem tratamento. Quando o sistema imunológico passa a atacar o próprio corpo, especialmente o revestimento delicado das juntas, o resultado pode ser devastador se não houver intervenção rápida.

Na artrite reumatoide, linfócitos que deveriam proteger o organismo começam a estranhar o tecido sinovial das articulações. A pessoa acorda com as juntas doloridas, inchadas e travadas, principalmente nos dedos. O problema afeta majoritariamente mulheres entre 35 e 50 anos, justamente no auge da vida profissional e pessoal. Mas existe esperança: novas evidências científicas mostram que mudanças na ordem dos tratamentos podem fazer diferença significativa para quem não responde à primeira linha terapêutica.

Como a inflamação crônica destrói as articulações

A batalha autoimune contra o tecido sinovial funciona como um processo contínuo de corrosão. Segundo o professor Ricardo Xavier, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e ex-presidente da Sociedade Brasileira de Reumatologia, a comparação com um dente cariado ilustra bem o mecanismo.

Quando a inflamação persiste sem controle, ela corrói progressivamente os ossos das articulações. O resultado final são deformidades e rigidez em mãos, punhos, joelhos e pés. Por isso a velocidade de ação é determinante: esperar mais de três meses para buscar tratamento pode comprometer o prognóstico.

Além das articulações, a doença aumenta o risco cardiovascular. As moléculas inflamatórias circulam pelo sangue e afetam os vasos, reduzindo a expectativa de vida dos pacientes não tratados adequadamente.

O papel da citocina TNF-alfa no processo inflamatório

Para compreender os tratamentos modernos, é necessário entender o vocabulário que as células imunológicas usam entre si. As citocinas são essas moléculas de comunicação, e a TNF-alfa representa uma palavra específica: perigo.

Quando essa citocina é liberada, o sistema imunológico interpreta como sinal de alerta. Mais sangue chega ao local carregado de células de defesa prontas para o ataque. Na artrite reumatoide, embora não seja a única responsável, a TNF-alfa funciona como uma das personagens centrais da resposta autoimune.

Os anticorpos monoclonais desenvolvidos em laboratório agem como mísseis teleguiados contra essa molécula. Injeções subcutâneas de medicamentos como o adalimumabe bloqueiam a ação da TNF-alfa, interrompendo o ciclo inflamatório em muitos pacientes.

Taxas de sucesso e falha do tratamento inicial

A eficácia dos inibidores de TNF-alfa varia consideravelmente entre os pacientes. De acordo com o professor Xavier, esses medicamentos funcionam muito bem logo no início para cerca de 60% a 70% dos casos.

Isso significa que três ou quatro em cada dez pessoas não apresentam melhora ou melhoram muito pouco com a primeira tentativa. A medicina chama isso de falha primária do tratamento.

Existe ainda a falha secundária: pacientes em que o medicamento controla a doença por seis meses, um ou dois anos, mas depois a artrite retorna. As causas dessa resistência permanecem desconhecidas, embora existam hipóteses sobre a formação de anticorpos contra o próprio remédio ou a ativação de outras citocinas inflamatórias.

A prática anterior de trocar inibidores de TNF-alfa

Quando surgiu a primeira falha terapêutica, a estratégia médica consistia em trocar um inibidor de TNF-alfa por outro do mesmo tipo. Vários medicamentos dessa classe foram lançados ao longo dos anos 2000, oferecendo alternativas.

A troca funcionava em alguns casos: pacientes que não haviam respondido inicialmente começavam a apresentar controle da doença, e aqueles com falha secundária voltavam a ter a artrite controlada. Mas as taxas de sucesso eram sempre menores que na primeira tentativa.

Quando o tratamento falhava uma segunda vez, os médicos já não tentavam mais essa substituição. A experiência clínica demonstrava que uma terceira tentativa com inibidor de TNF-alfa não traria benefícios significativos.

Inibidores de JAK: um mecanismo de ação diferente

A molécula Janus quinase funciona como um pombo-correio celular. Ela pega mensagens que chegam do exterior da célula e as transporta até o núcleo, onde modificam o comportamento dos linfócitos de defesa.

Os inibidores de JAK, como o upadacitinibe, impedem esse transporte de informações. É como se cortassem as asas do mensageiro, evitando que os sinais inflamatórios cheguem ao destino.

Essa classe de medicamentos em comprimidos representa uma abordagem completamente distinta dos inibidores de TNF-alfa. Por atacarem um ponto diferente da cascata inflamatória, eles ofereciam uma opção para pacientes que falharam múltiplas vezes com outras terapias.

O estudo SELECT-SWITCH e a mudança de paradigma

A pesquisa que alterou a ordem de entrada dos tratamentos envolveu 491 pacientes com artrite reumatoide cujo tratamento com inibidor de TNF-alfa já havia falhado. Eles foram divididos aleatoriamente em dois grupos.

Uma turma recebeu comprimidos de upadacitinibe (inibidor de JAK) mais uma injeção placebo. O outro grupo ganhou comprimido falso e injeções de adalimumabe (outro inibidor de TNF-alfa). Nem médicos nem pacientes sabiam quem estava recebendo o quê.

Os resultados foram expressivos: 43,3% dos que usaram inibidor de JAK tiveram diminuição da atividade autoimune, e 28,4% entraram em remissão completa. No grupo que apenas trocou de inibidor de TNF-alfa, apenas 22,4% melhoraram e 14,5% entraram em remissão.

Disponibilidade no Sistema Único de Saúde

Todos esses medicamentos já foram incorporados ao SUS. Tanto os inibidores de TNF-alfa quanto os inibidores de JAK estão acessíveis para pacientes com artrite reumatoide no sistema público de saúde.

O que precisa mudar agora é a prática clínica. As diretrizes médicas atuais apenas sugerem o uso de inibidor de JAK como uma possibilidade após a primeira falha, sem recomendação assertiva.

A partir das evidências do estudo SELECT-SWITCH, espera-se que as diretrizes sejam atualizadas para priorizar essa classe de medicamentos como segunda linha de tratamento, garantindo melhores resultados para mais pacientes.

Por que não usar inibidores de JAK desde o início

Uma questão natural seria considerar o uso de inibidores de JAK como primeira opção para todos os pacientes recém-diagnosticados. Segundo o professor Xavier, essa mudança exige cautela e mais estudos.

O tempo de uso e a quantidade de evidências científicas acumuladas para os inibidores de TNF-alfa são maiores. Eles já provaram segurança e eficácia como primeira linha há décadas.

Além disso, não está claro se os inibidores de JAK apresentariam a mesma vantagem quando usados precocemente. Sua superioridade foi demonstrada especificamente no cenário de falha terapêutica prévia, não em pacientes virgens de tratamento.

A evolução histórica do tratamento

O professor Xavier relembra os tempos de residência médica, quando pacientes recebiam sais de ouro como terapia. Embora ajudassem as articulações por mecanismo desconhecido, causavam lesões graves na pele e nos rins.

Diante dos riscos das terapias disponíveis, optou-se por controlar a situação apenas com doses baixas de corticoide. O resultado foi desastroso: o ambulatório de reumatologia precisava de um estacionamento só para cadeiras de rodas.

A década de 1990 trouxe mudanças fundamentais. Surgiram tratamentos mais seguros e eficazes, e consolidou-se a compreensão de que a artrite reumatoide reduzia a expectativa de vida, inclusive por aumentar doenças cardiovasculares. Os anos 2000 trouxeram as terapias biológicas que revolucionaram o prognóstico.

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