Pele com textura ganha espaço e desafia o padrão da beleza perfeita
Poros aparentes, sardas, linhas finas e marcas de acne aparecem cada vez mais nas conversas sobre beleza e autocuidado. Em contraponto às imagens filtradas das redes sociais, o movimento valoriza a aparência natural da pele e questiona a pressão por resultados irreais, sem deixar de lado a importância dos cuidados dermatológicos.

Durante anos, a imagem de uma pele perfeita, uniforme, sem poros aparentes, manchas ou linhas de expressão, ocupou espaço de destaque em campanhas de beleza, tutoriais de maquiagem e conteúdos de skincare. A tendência conhecida como glass skin, inspirada no aspecto luminoso e uniforme associado à rotina de cuidados coreana, ajudou a popularizar a busca por uma aparência polida e radiante.
Agora, outra perspectiva ganha visibilidade: a valorização da pele com textura. Poros, sardas, linhas finas e marcas naturais deixam de ser vistos apenas como características a corrigir e passam a fazer parte de uma conversa mais ampla sobre autenticidade, diversidade e relação com a própria imagem.
A mudança não significa abandonar os cuidados com a pele, mas questionar a expectativa de que ela precise parecer lisa e uniforme em todas as situações.
Uma análise publicada pela Retail TouchPoints em janeiro de 2026, com base em dados de engajamento e recomendações de consumidores reunidos pela empresa Mention Me, apontou a autenticidade como uma das mudanças relevantes para os mercados de beleza e moda em 2025. O levantamento destaca o interesse por conteúdos que mostram situações reais, em contraste com imagens excessivamente produzidas.
Por que a pele real ganhou relevância
A aparência da pele é influenciada por fatores como genética, idade, exposição solar, produção de oleosidade e condições dermatológicas. Ainda assim, filtros digitais e retoques podem criar a impressão de que uma pele saudável deve ser completamente uniforme, sem poros ou qualquer irregularidade.
Quando essas imagens passam a servir de referência cotidiana, a comparação pode gerar frustração e incentivar uma busca constante por procedimentos e produtos. A valorização da textura natural surge como uma forma de ampliar as referências de beleza e lembrar que fotografias editadas não representam necessariamente a aparência das pessoas no dia a dia.
Nesse contexto, o movimento conhecido como skin positivity propõe uma relação mais acolhedora com a própria pele. A ideia é reconhecer características como sardas, poros, linhas de expressão e marcas sem transformá-las automaticamente em defeitos.
Isso não significa que todas as pessoas precisem gostar de cada característica da própria aparência ou abrir mão de tratamentos que desejam realizar. A proposta é que essas escolhas sejam feitas com liberdade, sem a obrigação de perseguir um padrão impossível ou a promessa de eliminar todas as marcas naturais.
Redes sociais entre filtros e autenticidade
As redes sociais têm um papel contraditório nessa transformação. Ao mesmo tempo que popularizam filtros capazes de suavizar a pele e alterar traços faciais, também permitem que usuários compartilhem imagens sem retoques, mostrem rotinas reais e conversem sobre experiências com acne, rosácea, manchas e outras condições.
A circulação desses conteúdos amplia as possibilidades de identificação. Ao ver diferentes tipos de pele representados, o público pode compreender que a aparência varia de pessoa para pessoa e que nem toda irregularidade exige uma intervenção estética.
O movimento, entretanto, não elimina a pressão estética das plataformas. Conteúdos sobre aceitação também podem se transformar em tendências comerciais, com produtos e campanhas que vendem a ideia de naturalidade. Por isso, a autenticidade depende não apenas da imagem publicada, mas também da maneira como marcas e criadores comunicam resultados e expectativas.
Uma pesquisa visual da Getty Images publicada em 2026 identificou, em seu levantamento sobre consumidores europeus, uma valorização de imagens percebidas como honestas e representativas de diferentes personalidades e experiências. O estudo não representa necessariamente o comportamento de todos os públicos, mas ajuda a contextualizar a busca por uma comunicação de beleza menos uniforme.
Como marcas e maquiagem acompanham a mudança
A valorização da pele com textura também influencia a comunicação de marcas de cosméticos. Campanhas que mostram poros, sardas e linhas de expressão sem suavização excessiva ajudam a ampliar a representação de diferentes aparências e a questionar imagens que apresentam a pele como uma superfície sem irregularidades.
Na maquiagem, essa perspectiva pode aparecer em bases de cobertura leve, hidratantes com cor e produtos que uniformizam o tom sem necessariamente esconder toda a textura. O acabamento luminoso ou natural também permite que características individuais permaneçam visíveis.
Isso não significa que produtos de alta cobertura estejam ultrapassados. Maquiagem é uma escolha pessoal, e o uso de base, corretivo ou outros cosméticos não contradiz a aceitação da pele. A mudança está na possibilidade de escolher como se maquiar sem considerar a cobertura total uma obrigação.
O mesmo vale para o skincare. Cremes, séruns e tratamentos podem atender a objetivos específicos, como controlar a acne, reduzir manchas ou aliviar o ressecamento. O cuidado deixa de fazer sentido quando se transforma em uma rotina interminável, motivada pela ideia de que a pele nunca está boa o suficiente.
Aceitar a textura não significa ignorar a saúde
Poros visíveis, linhas finas e pequenas variações de relevo fazem parte da aparência natural da pele. Já acne persistente, irritação, coceira ou mudanças repentinas podem exigir avaliação profissional. A aceitação não precisa excluir o tratamento, assim como a busca por tratamento não deve ser confundida com rejeição da própria aparência.
Uma rotina básica pode incluir limpeza suave, hidratação e proteção solar. A Academia Americana de Dermatologia recomenda o uso diário de protetor solar de amplo espectro com FPS 30 ou superior e orienta que os produtos sejam escolhidos de acordo com as necessidades individuais. Esfregar a pele com força ou combinar muitos ativos sem orientação pode causar irritação e tornar algumas alterações mais perceptíveis.
Também é importante ter cuidado com promessas de produtos que garantem eliminar poros ou proporcionar uma pele completamente lisa. Alguns tratamentos podem reduzir a aparência de determinadas características, mas não apagam a estrutura natural da pele. Quando há uma preocupação específica, a avaliação de um dermatologista ajuda a identificar opções adequadas e a evitar intervenções desnecessárias.
Uma relação mais livre com a própria imagem
A valorização da pele com textura amplia a discussão sobre o que significa ter uma aparência saudável. Em vez de perseguir uma imagem única, o movimento abre espaço para diferentes idades, tons de pele, características e preferências estéticas.
A mudança também convida o consumidor a observar como se sente diante das imagens que consome e a questionar expectativas criadas por filtros, iluminação e edição. Reduzir comparações e selecionar referências mais diversas pode ajudar a construir uma relação menos rígida com a aparência, embora não elimine, por si só, problemas de autoestima ou sofrimento emocional.
No fim, a tendência não precisa substituir um padrão por outro. Ter uma pele com textura, usar maquiagem de alta cobertura, tratar a acne ou preferir uma rotina simples são escolhas que podem coexistir. A ideia central é reconhecer que a pele real não precisa corresponder a uma imagem digitalmente perfeita para receber cuidado, atenção e respeito.
Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.



