O mito do buraco negro que nunca deixou o CERN
Entenda por que o boato nunca desaparece

Sempre que o CERN anuncia uma nova fase de experimentos com o Grande Colisor de Hádrons (LHC), um velho fantasma reaparece na internet. Vídeos, publicações e mensagens compartilhadas nas redes sociais voltam a afirmar que o laboratório poderia criar um buraco negro capaz de engolir a Terra. A teoria circula há quase duas décadas, já foi desmentida inúmeras vezes, mas continua encontrando espaço sempre que o maior centro de pesquisas em física de partículas do planeta volta aos noticiários.
A origem desse boato remonta aos meses que antecederam a inauguração do LHC, em 2008. Naquele período, grupos conspiratórios passaram a defender que as colisões entre partículas poderiam desencadear fenômenos desconhecidos, incluindo a formação de buracos negros que cresceriam sem controle. O tema ganhou repercussão mundial, chegou aos tribunais em tentativas de interromper os experimentos e rapidamente ultrapassou o universo científico para ocupar fóruns, documentários e redes sociais.
O que realmente acontece dentro do CERN
O Grande Colisor de Hádrons foi construído para responder algumas das maiores perguntas da física moderna. Localizado em um túnel de 27 quilômetros na fronteira entre Suíça e França, o acelerador impulsiona prótons a velocidades próximas à da luz para reproduzir condições semelhantes às existentes frações de segundo após o Big Bang. O objetivo é compreender como surgiram as partículas fundamentais, testar teorias sobre a matéria e ampliar o conhecimento sobre a origem do Universo.
Foi justamente a complexidade dessas pesquisas que abriu espaço para interpretações equivocadas. Em alguns modelos teóricos da física existe a possibilidade matemática da formação de microburacos negros durante colisões extremamente energéticas. Mesmo nesses cenários, porém, eles seriam microscópicos e desapareceriam quase instantaneamente por causa da chamada radiação de Hawking, sem qualquer possibilidade de crescer ou representar ameaça ao planeta.
Além disso, físicos lembram que colisões com energias comparáveis ou até superiores às produzidas pelo LHC acontecem naturalmente há bilhões de anos. Raios cósmicos atingem continuamente a atmosfera da Terra, o Sol e diversos corpos celestes sem provocar efeitos catastróficos. Esse é um dos principais argumentos utilizados nas avaliações independentes de segurança publicadas antes da entrada em operação e das sucessivas atualizações do acelerador, todas concluindo que os experimentos não oferecem riscos conhecidos. A própria instituição mantém documentos públicos explicando essas análises.
Por que a teoria nunca desaparece
A persistência desse mito está menos relacionada à física e muito mais à forma como as informações circulam na internet. Equipamentos gigantescos, imagens impressionantes e conceitos difíceis de compreender criam um ambiente perfeito para narrativas conspiratórias. Quando essas histórias são associadas a temas como o fim do mundo, dimensões paralelas ou fenômenos sobrenaturais, elas despertam curiosidade imediata e se espalham rapidamente.
Pesquisas conduzidas pelo MIT e pelo Reuters Institute mostram que conteúdos sensacionalistas costumam viajar mais rápido nas redes do que explicações baseadas em evidências. O algoritmo das plataformas também contribui para esse efeito: uma busca sobre o CERN ou sobre o bóson de Higgs pode levar o usuário, em poucos cliques, a vídeos que misturam fatos científicos, ficção e interpretações sem fundamento.
Passados mais de quinze anos desde o início das operações do LHC, nenhuma das previsões catastróficas atribuídas ao CERN se confirmou. O laboratório permanece produzindo descobertas importantes para a física de partículas, enquanto o mito do buraco negro continua renascendo sempre que novos experimentos despertam a curiosidade do público. No fim, a história mostra que, para a desinformação, um bom enredo costuma durar muito mais do que qualquer evidência científica.
Profissional de Comunicação. Head de Marketing da Metalvest. Líder da Agência de Notícias da Abrasel. Ex-atleta profissional de skate. Escreve sobre estilo de vida todos os dias na Itatiaia e na CNN Brasil.



