Belo Horizonte
Itatiaia

O dia que ninguém esqueceu: Itatiaia revisita 35 anos do confisco do Plano Collor

O Plano Brasil Novo, que ficou mais conhecido como Plano Collor, foi apresentado ao país em 16 de março de 1990

Por
Agência Estado

“Não temos alternativas. O Brasil não aceita mais derrotas. Agora é vencer ou vencer. Que deus nos ajude”. Com essas frases que misturam o enigmático com o épico, o presidente do Brasil tentava convencer seus compatriotas de que o confisco da poupança, da conta corrente e de investimentos era o melhor caminho para conter a inflação galopante que dissolvia os salários da população.

A declaração é de Fernando Collor de Melo, feita em cadeia de rádio e televisão no dia 16 de março.

“Eu peguei uma fila de 4 horas pra chegar no caixa bancário. O que que todo mundo pensa? Melhor ter algum dinheiro no bolso, porque não sei o que vem pela frente”.

O Plano Brasil Novo, que ficou mais conhecido como Plano Collor, foi apresentado ao país em 16 de março- um dia depois da cerimônia de posse. Foi o quarto plano econômico em cinco anos. Portanto era até normal para o país enfrentar fórmulas diferentes, mudanças de moeda e promessas de que o aumento dos preços seria contido.

Zélia Cardoso de Melo, ministra da Fazenda então com 36 anos; o ministro do Planejamento, Antônio Khandir; e o presidente do Banco Central, Ibrahim Eris, fizeram o anúncio. Eram várias as medidas, com destaque para permissão de acesso a apenas 50 mil cruzados novos. Valores acima disso na poupança, na conta corrente ou em investimentos, ficaram retidos, e só seriam liberados 18 meses depois.

O objetivo era dar um choque na economia, reduzindo moeda circulante, a fim de combater a inflação.

“Na expectativa de que eliminando, na pancada, a quantidade de dinheiro em circulação, você seria capaz de controlar a inflação”, explica o professor de finanças e pró-reitor acadêmico do IBMEC, Eduardo Coutinho. “Olhando pra trás, não consigo enxergar de outra forma senão com um absurdo”, sentencia o professor.

“Foi um plano mal pensado, com uma apresentação atabalhoada, mal feita. Esse choque de congelamento de moeda era tentado pela primeira vez, e poderia de fato funcionar. Mas a inflação não tem um só causa, precisa ser combatida de forma conjunta”, avalia o economista Paulo Cézar Feitoza – que atuou no Banco Central do Brasil na década de 1990.

Um dia que marcou gerações

“Lembro como se fosse hoje”, relata à Itatiaia o contador José Mayrink – hoje com 72 anos. “Estava atendendo um cliente, na avenida Cristiano Machado, quando soubemos da notícia. Os clientes ficaram apavorados”.

O médico Rodrigo Huguet, de 50 anos, lembra os dissabores na família causados pelo conficos. “Na época meu pai tava juntando dinheiro para comprar uma casa, e o dinheiro foi todo confiscado”.

A esposa de Mayrink, dona Berenice Costa, de 75 anos, diz que “chegou a duvidar” que a medida fosse verdade. Não apenas pelo carater surpreendente da ação, mas por temer os impactos no pai.

Leontino Costa tinha 67 anos e apoiou a eleição de Collor. Vestiu a camisa e pediu votos para o jovem ‘caçador de marajás’ de Alagoas, que queria modernizar o Brasil, varrer a corrupção e acabar com a inflação.

A quebra de expectativa foi tanta, o impacto foi tão forte que abalou severamente a saúde do caminhoneiro aposentado, afetando toda família.

Por

Mineiro de Urucânia, na Zona da Mata. Mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Ouro Preto (2024), mesma instituição onde diplomou-se jornalista (2013). Na Itatiaia desde 2016, faz reportagens diversas, com destaque para Política e Cidades.