Justiça do DF decide próximos passos do caso das mortes de pacientes no Hospital Anchieta
Encerrada a fase de instrução, juiz vai analisar provas e depoimentos para definir se três técnicos de enfermagem serão levados a júri popular

A Justiça do Distrito Federal deve decidir nos próximos dias se os três técnicos de enfermagem acusados pelas mortes de pacientes na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Anchieta, em Taguatinga, serão levados a julgamento pelo Tribunal do Júri.
A primeira fase da ação penal foi concluída na última quinta-feira (24), com o encerramento da instrução processual, etapa em que foram reunidas provas e ouvidas testemunhas e os próprios acusados. Agora, o juiz responsável pelo caso irá analisar as alegações finais apresentadas pelo Ministério Público e pelas defesas antes de definir o futuro do processo.
Nesta fase, o magistrado poderá adotar diferentes decisões. Caso entenda que existem provas da materialidade dos crimes e indícios suficientes de autoria, os três acusados serão pronunciados e responderão perante o Tribunal do Júri.
Se considerar que as provas são insuficientes, poderá determinar a impronúncia, encerrando o processo, que poderá ser reaberto caso surjam novas evidências.
Outra possibilidade é a desclassificação do crime, caso o juiz entenda que os fatos não configuram homicídio doloso. Nesse cenário, o processo deixaria de ser julgado pelo Tribunal do Júri e passaria para uma vara criminal comum. Também existe a hipótese de absolvição sumária, caso o magistrado conclua que não há elementos para responsabilizar os acusados.
Acusação
O Ministério Público do Distrito Federal e Territórios denunciou os técnicos de enfermagem Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, Amanda Rodrigues de Sousa e Marcela Camilly Alves da Silva por três homicídios dolosos e cinco tentativas de homicídio.
Segundo a denúncia, as mortes ocorreram entre novembro e dezembro de 2025 na UTI do Hospital Anchieta.
As investigações apontam que os pacientes receberam doses de medicamentos que provocaram paradas cardíacas. De acordo com a Polícia Civil, Marcos Vinícius seria o responsável por aplicar as substâncias, enquanto Amanda e Marcela teriam dado suporte à ação. Os três negam participação nos crimes.
Depoimentos marcaram a instrução
Durante as audiências realizadas entre maio e junho deste ano, mais de 30 testemunhas foram ouvidas. Os três réus prestaram depoimento ao final da instrução.
Marcos Vinícius afirmou que apenas acompanhou a piora clínica dos pacientes e negou envolvimento nas mortes. Marcela Camilly chorou durante o interrogatório e declarou que desconhecia qualquer irregularidade. Ela afirmou confiar no treinamento de Marcos Vinícius e admitiu a possibilidade de ele ter utilizado sua presença para agir sem levantar suspeitas. Já Amanda Rodrigues disse esperar que Marcos assumisse a responsabilidade pelos fatos. Ela também afirmou sofrer ameaças dentro do presídio desde que foi presa.
A denúncia do Ministério Público foi reforçada por imagens das câmeras de segurança do Hospital Anchieta. Segundo a investigação, os vídeos mostram Marcos Vinícius utilizando o login de uma médica que não estava de plantão para registrar a prescrição de medicamentos. As imagens também mostram o técnico retirando substâncias na farmácia da unidade e entrando nos quartos das vítimas para realizar aplicações intravenosas.
Marcela Camilly também aparece, segundo a investigação, manuseando uma das substâncias utilizadas.
Como o caso começou
O caso veio à tona após o próprio Hospital Anchieta identificar um padrão incomum nas mortes de pacientes internados na UTI e comunicar os fatos à Polícia Civil.
Em janeiro deste ano, a Polícia Civil deflagrou a Operação Anúbis e prendeu temporariamente os três técnicos de enfermagem.
Posteriormente, o Ministério Público formalizou a denúncia pelos homicídios.
As vítimas identificadas pela investigação são:
- João Clemente Pereira, de 63 anos, servidor da Caesb, que estava internado após uma cirurgia cerebral e morreu depois de sofrer quatro paradas cardíacas.
- Marcos Moreira, de 33 anos, servidor dos Correios e morador de Brazlândia, internado com dores abdominais e morto em dezembro de 2025. Ele deixou uma filha de cinco anos.
- Miranilde Pereira da Silva, professora aposentada de 75 anos. Segundo a investigação, ela teria recebido uma substância incompatível com o tratamento.
Réus permanecem presos
Os três técnicos de enfermagem estão presos desde 12 de janeiro de 2026. Ao longo do processo, a Justiça do Distrito Federal negou diversos pedidos de liberdade apresentados pelas defesas.
Agora, a expectativa é pela decisão do juiz, que definirá se o caso seguirá para julgamento pelo Tribunal do Júri ou terá outro desfecho previsto na legislação.
Aline Pessanha é jornalista, com Pós-graduação em Marketing e Comunicação Integrada pela FACHA - RJ. Possui passagem pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação, como repórter de TV e de rádio, além de ter sido repórter na Inter TV, afiliada da Rede Globo.


