Renan Santos quer estabelecer Estado de Defesa: ‘Prender ou matar as lideranças do crime organizado’

Em entrevista exclusiva à Itatiaia, o pré-candidato à Presidência do Brasil do recém-criado Missão defende uma postura à direita com “cores brasileiras”

Renan Santos, pré-candidato a presidência pelo partido Missão

Pré-candidato à Presidência da República e membro autointitulado de uma “direita à brasileira”, Renan Santos (Missão) afirma que, caso eleito, sua primeira ação seria estabelecer o Estado de Defesa no Brasil com vistas a combater o crime organizado – pauta cara ao Movimento Brasil Livre (MBL), seu berço político e organização-irmã do partido recém-criado. “Eu vou colocar o Brasil em Estado de Defesa, eu vou fazer esse Estado de Defesa ser constituído a regiões ocupadas pelo crime organizado e nós vamos destituir o crime organizado do poder que eles têm lá. Nós vamos prender, vamos colocar na cadeia, prender ou matar todas as lideranças do crime organizado”, defende.

O pré-candidato diz querer “varrer” o Brasil “desses caras” e, para isso, promete “alterar as leis penais”. “De modo ao que um criminoso reincidente, a pessoa que te assalta uma, duas, três vezes, fique na cadeia por 30, 40, 50 anos. Crimes altamente violentos, que infelizmente estão atingindo especialmente mulheres no Brasil. A gente tá vendo aumento no número do caso de estupros e crimes dessa natureza com a maior pena possível. Com base nisso, a gente vai repactuar o Brasil”, acrescenta.

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A segurança pública, para Renan Santos, é um dos pontos principais de sua campanha, que se desenha como um antagonismo à direita bolsonarista e à esquerda lulista. “O Brasil não se sente pactuado ou parte da mesma comunidade, porque ele sente assim, me cobram um imposto alto, aí vem um sujeito, rouba o meu celular na rua, esse sujeito vai ser solto para um juiz que receba um supersalário. Pô, não vale a pena morar nessa bagaça. O primeiro presidente que fizer isso, ele vai repactuar o Brasil, ele vai ter a popularidade alta. E aí ele vai poder sentar na mesa com o centrão, que hoje está recebendo emenda e está roubando emenda. Vamos ser honesto, o centrão é um clube de roubadores, de ladrões de emenda”, continua.

O Estado de Defesa, regrado pelo artigo 136 da Constituição, é um instrumento que a presidência pode utilizar, com anuência do Conselho da República e o Conselho de Defesa Nacional, para “preservar ou prontamente restabelecer, em locais restritos e determinados, a ordem pública ou a paz social ameaçadas por grave e iminente instabilidade institucional”, de acordo com o Conselho Nacional do Ministério Público. A medida é implementada através de decreto, que precisa indicar sua duração, áreas a serem abrangidas e medidas coercitivas.

Renan defende que, no Brasil, o crime organizado e as facções estariam enquadrados como ameaças à ordem pública e paz social. “(O crime) tem a própria lei, ele tem os próprios tribunais, ele nega a existência do Estado brasileiro e ele mata brasileiros, ele comete crime de toda sorte. Em Betim, uma parte importante das favelas estão tomadas pelo crime organizado. Eu tive em Araguari, o PCC já tinha tomado Araguari, uma parte importante da cidade. Veja, não são 100.000, 200.000, são 23 milhões de brasileiros que estão sob o jugo do crime organizado”, diz.

O combate ao crime organizado também teria objetivo de “desfavelizar” os aglomerados no Brasil, inserindo a população que vive nas comunidades na economia formal, segundo o pré-candidato. “E aí a gente vai poder pensar como desfavelizar, como urbanizar aquele bairro, como integrar economicamente. A integração do bairro à cidade tem um adversário no meio, que é o é o faccionado, que é o cartel, que é o crime. E isso a gente sempre imagina muito o Rio de Janeiro. Ah, o Rio é o caso mais simbólico. Sim, mas não é só o Rio hoje. Hoje o Nordeste é o principal foco disso. Ceará está uma situação desesperadora, desesperadora e há pouca vontade política nisso”, pontua.

“Seria minha primeira ação, até porque as pessoas não aguentam, mas eu estou falando de uma ação libertadora. A gente naturalizou que o favelado no Brasil é um cidadão de segunda categoria”, completa.

Projeto de uma direita não-bolsonarista

“Disputando para ganhar”, Renan Santos defende um projeto político à direita, mas longe dos contornos bolsonaristas de Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL, partido de Jair Bolsonaro, à Presidência da República. Ele lembra que o Missão, criado oficialmente o fim do ano passado, é um “partido muito novo”, com “ideias e projetos fora da caixa”.

“O Brasil tem grande chance de ser um país sério para o futuro, ao mesmo tempo que no presente ele vive problemas muito arcaicos, alguns problemas ainda do século XIX e outros que a gente poderia resolver talvez se houvesse vontade política. A segurança é o mais óbvio. Então, montamos um partido para encarar esses problemas, mas não só para resolver problemas óbvios que a gente está vivendo, mas sim para apontar um futuro em que o Brasil possa ser o que deveria ser a meta para todos os outros pré-candidatos, ser um dos cinco maiores países do mundo, né? O porquê o Brasil não é um desses cinco países? Essa é a pergunta que todos os outros candidatos têm que responder junto comigo”, diz.

Ele discorda da visão de “liberal” e “conservador” aplicada comumente para descrever a política brasileira, citando que os conceitos são “importados” dos Estados Unidos e, não necessariamente, espelham a realidade brasileira. “Esse negócio de liberal, de conservador, ficou sendo discutido nesses termos nos últimos 10 a 12 anos. O MBL, por exemplo, surgiu com isso. Eu não gostaria de me definir usando essas categorias, porque eles são categorias norte-americanas. Ou a gente quando fala em conservadorismo no Brasil, está falando em conservadorismo inglês, ou conservadorismo americano. E isso são categorias que não pertencem à nossa forma de pensar. Nós somos ibéricos, nós viemos de Portugal e da Espanha, a gente trabalha com outras categorias de pensamento”, defende.

Em termos práticos, o projeto do Missão é baseado em “lei e ordem”, segundo Renan Santos. “A lei e ordem precisa se impor no Brasil, o Brasil precisa entender que ele só vai se desenvolver com lei e ordem. E a lei e ordem se dá desde a alteração das leis penais, das leis de processo penal, para não permitir que vagabundo que cometa crime, que assalte, que estupre, volte para a rua rápido”, diz.

Outro ponto que é importante para o partido é o desenvolvimento nas diferentes regiões do Brasil. “O Nordeste do Brasil é visto pela região sul e sudeste, muitas vezes de maneira, vamos dizer, tem até um tem um elemento de preconceito, mas tem um elemento que é claro, o Nordeste é sustentado pelas outras regiões. Isso é matemático. Como resolver isso? Que projeto nós temos para o Nordeste? Como nós vamos desenvolver o Nordeste? Que políticas liberais ou não nós vamos utilizar no Nordeste para desenvolver ele? Isso está dentro do nosso pacote de pensamento. Como nós vamos lidar com as novas tecnologias? Como a inteligência artificial vai, por exemplo, mudar o SUS?”, questiona.

“Eu acho que é uma visão é que pode ser encaixada no campo da direita, mas é uma direita com cores brasileiras, com a leitura brasileira para problemas brasileiros. Porque só ficar copiando com aceito dos americanos, é meio bobo, porque não cabe. Não cabe, não serve. Aí você vai pegar os liberais brasileiros, são os liberais que gostam de apenas de ficar dando incentivos para os próprios amigos”, provoca.

Corrupção e segurança como temas centrais da campanha

O pré-candidato do Missão defende que segurança pública e combate à corrupção serão os principais temas das eleições de 2026 no Brasil. Ele admite que, com o arrefecimento da Operação Lava Jato, a temática da corrupção “tinha saído da agenda do dia”, e que as pessoas “pararam de ligar” para o problema. Contudo, ele avalia que tanto a abordagem do bolsonarismo quanto do petismo em casos como o do Banco Master deixam uma ferida aberta da esquerda à direita.

“Isso fez com que as pessoas ficassem muito cínicas, só que há para além dessas pessoas que são, vamos dizer, ‘fla-flu’, tão perdida na dicotomia idiota, as pessoas estão percebendo que não dá para ver um país tão corrupto. E a corrupção está em tudo. A corrupção está no escândalo do Banco Master, sim. Está no INSS, sim. Mas a corrupção está no supersalário do juiz e as pessoas estão falando: ‘Pô, eu estou trabalhando tanto, eu vou ter que sustentar esse cara’. Então, há uma inconformidade, isso misturado com a segurança pública, serão os temas da eleição”, argumenta.

Cenário eleitoral

Disputando o espólio da direita, Renan Santos acredita que Flávio Bolsonaro, com o tempo, perderá potencial de votos e que outras candidaturas do campo político vão se desfazer, como a tríade do PSD, que tem Ronaldo Caiado, Ratinho Jr. e Eduardo Leite disputando entre si para se viabilizarem como candidatos do partido de Gilberto Kassab. Ele avalia ainda que Zema tem dificuldade de avançar para o eleitor de Flávio Bolsonaro e para o eleitor não-bolsonarista, visto que, para o pré-candidato do Missão, o governador de Minas Gerais se colocou como “um bolsonarista de segunda ordem”.

“Eu não, eu nego o projeto bolsonarista, eu o ataco tal qual ataco o projeto do PT, acho que a gente precisa de um projeto alternativo e eu estou apresentando um projeto alternativo. Então houve um crescimento meu nas pesquisas. Então isso está acontecendo, é, isso está acontecendo entre as pessoas mais jovens. E as pessoas mais jovens costumam ser mais antenadas e são as pessoas que antecipam tendências. Então, acho que haverá surpresas no nosso campo”, conclui.

Jornalista pela UFMG, Lucas Negrisoli é editor de política. Tem experiência em coberturas de política, economia, tecnologia e trends. Tem passagens como repórter pelo jornal O Tempo e como editor pelo portal BHAZ. Foi agraciado com o prêmio CDL/BH em 2024.

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