Propina de R$ 10 milhões: Os detalhes da denúncia feita por Simões a aliado de Cleitinho no debate da Globo
Após denúncia feita no debate da TV Globo, governador explicou os contatos feitos com o deputado federal Euclydes Pettersen, presidente estadual do Republicanos

O embate entre o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) e o governador Mateus Simões (PSD) no debate entre candidatos ao Governo de Minas veiculado pela Globo na noite de terça-feira (29) foi marcado pela denúncia do atual chefe do Executivo de ter recebido uma oferta milionária de propina do deputado federal Euclydes Pettersen, aliado de Cleitinho e presidente estadual do Republicanos. Um dia após a exposição do caso em rede nacional, um relatório feito pelo pessedista detalha a cronologia dos fatos.
O documento ao qual a Itatiaia teve acesso registra uma série de abordagens realizadas por Euclydes Pettersen entre fevereiro de 2024 e julho de 2026. O documento detalha tentativas de interferência em nomeações do Poder Judiciário, ofertas de vantagem financeira para a contratação de empresa privada de serviços de consignados e o posterior condicionamento desses temas a alianças políticas para a eleição estadual de 2026.
Prints de mensagens entre o deputado e o governador também foram enviados à reportagem. Segundo os materiais, Simões teria também orientado o senador a se afastar de Pettersen pelas acusações de corrupção envolvendo o deputado.
Segundo o registro, os primeiros contatos ocorrem a partir de 23 de fevereiro de 2024 via mensagens. Em encontro realizado em Brasília no dia 27 do mesmo mês, Pettersen solicitou a interferência do governo mineiro para a escolha do advogado Fábio Silveira, integrante de lista tríplice para vaga de desembargador no Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG).
Em contrapartida, o deputado teria oferecido o uso de sua influência junto ao senador Cleitinho quanto às decisões do pleito de 2026. Antes da formalização das candidaturas, Simões pública e reiteradamente defendeu que o senador não se lançasse candidato ao governador.
Segundo o documento elaborado pelo governador, a indicação foi recusada por Mateus Simões e pelo ex-governador Romeu Zema (Novo) após membros do próprio tribunal apresentarem um dossiê com investigações e processos criminais contra o advogado, que envolviam acusações de compra de decisões judiciais e envolvimento com grupo criminoso no Leste do Estado.
Oferta de R$ 10 milhões
Em julho de 2024, Pettersen teria intermediado o contato de Saulo de Tasso Dino, representante associado à empresa Fictor, sob a justificativa de apresentar soluções de tecnologia para registro de consignados. A demanda foi repassada à Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão (Seplag), então comandada por Camila Neves, acompanhada de orientação técnica, ressaltando que o serviço já era prestado pela Companhia de Tecnologia da Informação do Estado de Minas Gerais (Prodemge) e que não havia interesse na realização de licitação.
Durante evento social no município de Trancoso (BA), em 23 de novembro de 2024, o deputado teria abordado novamente o vice-governador para cobrar a efetivação da contratação. Diante da reafirmação de que o estado não tinha interesse no serviço, Pettersen afirmou que repassaria R$ 10 milhões. Ele teria dito posteriormente que a quantia poderia ser paga anualmente caso a demanda fosse atendida. Segundo Simões, a proposta foi prontamente recusada.
Avaliação da Controladoria-Geral do Estado
Em 11 de dezembro de 2024, o episódio foi levado ao conhecimento do Controlador-Geral do Estado, Rodrigo Fontenelle, e do Secretário Geral, Marcel Beghini. Após análise técnica e jurídica, o órgão teria concluído pela inviabilidade de avanço em representação policial por ausência de testemunhas diretas da oferta e pelo fato de a administração ter bloqueado preventivamente qualquer risco de contratação da empresa.
O documento relata ainda que o tema dos consignados teria sido reiterado por Pettersen em reuniões subsequentes, sendo atrelado ao avanço de composições políticas para as eleições de 2026.
Em 17 de junho de 2025, durante agenda no Gabinete do Senado em Brasília, Mateus Simões teria exposto o histórico dos fatos diretamente ao senador Cleitinho e recomendado o seu afastamento do deputado e presidente do partido. Esta informação também foi dita pelo governador durante o debate entre candidatos da TV Globo.
O último encontro registrado, segundo o documento, aconteceu em 7 de julho de 2026, com intermediação de Marcelo Aro (PP), no qual Euclydes Pettersen apresentou três exigências formais para a retirada da pré-candidatura do senador Cleitinho ao governo do Estado: a indicação do candidato a vice-governador na chapa, a participação do partido Republicanos na composição governamental e a retirada da candidatura do senador Carlos Viana (PSD).
Euclydes Pettersen nega as acusações
Em entrevista à reportagem da Itatiaia nesta quarta-feira (30), Euclydes Pettersen negou as acusações de Simões e afirmou que, se um fato grave como esse tivesse acontecido, o governador deveria ter agido imediatamente ou então cometeu o crime de prevaricação.
“As gravíssimas acusações feitas pelo candidato Mateus são falsas e inverídicas. Essa conversa nunca aconteceu. Se isso tivesse ocorrido, ele, como servidor público, tinha o dever de agir imediatamente com os rigores da lei, sob pena de ter praticado o crime de prevaricação. Essa suposta denúncia dele à CGE, ao que tudo indica, só está sendo ventilada agora, quase dois anos depois do suposto fato, exatamente para dar credibilidade a essas falsas acusações”, afirmou Euclydes.
O parlamentar afirma ainda que vai exigir na Justiça que o governador apresente documentos comprovando que ele fez essa denúncia aos órgãos responsáveis.
“Inclusive vamos exigir na Justiça documentos idôneos de que houve protocolo dessa denúncia lá. Usar o debate eleitoral, às vésperas das eleições, para atingir o candidato que lidera as pesquisas, não vai isentá-lo de responder na Justiça pelos crimes de calúnia e difamação e pelos danos morais à minha honra e imagem”, disse o deputado.
Euclydes afirmou ainda que o último contato que teve com Mateus Simões foi quando recebeu a proposta de ser candidato a vice-governador em troca de retirar a candidatura de Cleitinho: “Não aceitei”.
Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.
Editor de Política. Formado em Comunicação Social pela PUC Minas e em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Já escreveu para os jornais Estado de Minas, O Tempo e Folha de S. Paulo.




