Vontade de votar sem obrigação é a maior desde 1989, mostra Datafolha
Pesquisa aponta que 56% dos brasileiros iriam às urnas mesmo se o voto fosse facultativo

A disposição dos brasileiros de participar das eleições mesmo sem obrigação legal chegou ao maior nível da série histórica do Datafolha, iniciada em 1989. Segundo levantamento divulgado neste domingo (23), 56% dos entrevistados afirmam que votariam nas eleições de 2026 mesmo se o voto não fosse obrigatório. Outros 43% dizem que não compareceriam às urnas, enquanto 1% não soube responder.
Em relação a um pouco mais de uma década, junho de 2015, cenário em que ocorria o impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT), apenas 41% afirmavam que votariam voluntariamente, o menor índice da série, ao lado do registrado em 2014. Desde então, a disposição para comparecer às urnas sem a exigência legal avançou 15 pontos percentuais.
O cientista político Adriano Cerqueira diz que o resultado deve ser lido menos como uma mudança estrutural na relação do brasileiro com a democracia e mais como reflexo do momento político. Segundo ele, índices de comparecimento entre 55% e 60% são comuns em democracias onde o voto é facultativo. A diferença, neste caso, está no contexto de uma eleição presidencial já marcada por forte mobilização.
“Como a gente está no início da mobilização para uma eleição presidencial polarizada, isso motiva mais a disponibilidade de voto”, afirma. Cerqueira avalia que a presença de candidaturas com forte capacidade de mobilização ajuda a explicar o resultado.
Tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), quanto o campo bolsonarista, em sua avaliação, carregam eleitorados altamente engajados, o que tende a elevar a disposição para comparecer às urnas. “Não creio que seja uma questão de democracia em si. Envolve mais mobilização de fato, ou seja, polarização”, pontua o cientista político.
Para o especialista, Lula mantém uma capacidade própria de mobilização de seus apoiadores, enquanto o ex-presidente Jair Bolsonaro transferiu parte desse capital político para o filho, Flávio Bolsonaro (PL), que disputa a Presidência neste ano.
Recorde contrasta com abstenção histórica
O resultado do Datafolha também chama atenção porque ocorre em um país onde a abstenção nas eleições presidenciais costuma ficar próxima de 20%. Cerqueira, porém, diz que não há contradição entre os dois fenômenos. Segundo ele, o Brasil historicamente consegue levar às urnas uma proporção maior de eleitores justamente porque o voto é obrigatório.
Ele compara esse cenário com países onde o voto é facultativo, nos quais o comparecimento costuma ficar entre 55% e 60%. “Um país em que o voto é obrigatório consegue uma maior presença nas urnas do eleitor do que em países em que o voto não é obrigatório”, diz.
No primeiro turno de 2022, 20,95% dos eleitores aptos não compareceram às urnas, o equivalente a quase 33 milhões de pessoas. Em 2018, a abstenção havia sido de 20,3%.
A diferença entre a intenção declarada em uma pesquisa e o comparecimento efetivo também pode envolver fatores que vão além da disposição política, como dificuldades de deslocamento, problemas pessoais ou desmobilização no dia da votação.
Quem está mais disposto a votar
Há diferenças entre os perfis dos eleitores mais propensos a comparecer às urnas mesmo sem obrigatoriedade, segundo o Datafolha. A disposição é maior entre homens, com 59%, do que entre mulheres, com 53%. O índice também chega a 61% entre eleitores com 60 anos ou mais, contra 48% entre os mais jovens, e a 75% entre os de maior renda, ante 49% na faixa de até dois salários mínimos.
Na avaliação de Cerqueira, a obrigatoriedade acaba reduzindo parte dessa diferença ao levar às urnas também cidadãos que, espontaneamente, talvez não participassem da eleição.
Isso, porém, não significa necessariamente voto em algum candidato. O cientista político lembra que o eleitor também pode votar em branco ou anular o voto. Segundo ele, quando se somam abstenções, votos brancos e nulos, o chamado “não voto” historicamente representa uma parcela relevante do eleitorado brasileiro.
Cerqueira pondera ainda que a obrigatoriedade não deve ser confundida automaticamente com maior engajamento político. Para ele, a regra aumenta o comparecimento, mas não necessariamente o interesse ou a identificação com candidaturas.
Polarização pode explicar avanço
Em comparação com outros momentos da série histórica, o resultado de 2026 também precisa ser analisado com cuidado, de acordo com Cerqueira, que destaca que algumas das medições anteriores foram feitas em contextos diferentes. Em 2015, por exemplo, não havia uma eleição em andamento. Já em anos de eleições municipais, o nível de mobilização varia conforme as disputas locais.
“Agora, este ano é uma eleição nacional, eleição presidencial que já está desde o início polarizada”, afirma. Para o cientista político, esse ambiente ajuda a explicar por que a disposição para votar atingiu o maior nível da série histórica.
O resultado representa uma mudança significativa em relação a períodos de menor mobilização. Em junho de 2015, por exemplo, apenas 41% afirmavam que votariam voluntariamente, um dos menores índices registrados pelo instituto.
Voto já é facultativo para parte dos brasileiros
No Brasil, o voto é obrigatório para pessoas alfabetizadas entre 18 e 70 anos. A própria Constituição, porém, já estabelece voto facultativo para três grupos, sendo eles jovens de 16 e 17 anos, maiores de 70 anos e pessoas analfabetas.
A obrigatoriedade do voto existe no país desde 1932 e foi mantida na legislação eleitoral ao longo das décadas. O modelo brasileiro contrasta com o de países como Estados Unidos e grande parte da União Europeia, onde o comparecimento às urnas é facultativo.
Defensores do voto obrigatório argumentam que a regra amplia a participação e a legitimidade dos eleitos. Já os críticos sustentam que votar deveria ser apenas um direito, e não também um dever imposto ao cidadão.
Interesse por política também aparece em alta
Quando se trata de interesse pelo assunto, 61% dizem ter interesse médio ou grande pelo tema, sendo 38% como médio e 23% como grande. Outros 12% afirmam ter pouco interesse.
A disposição para participar das eleições não é igual entre todos os grupos. Os índices de interesse político e de intenção de votar voluntariamente são maiores entre pessoas com maior escolaridade e renda, segundo o levantamento.
O Datafolha ouviu 2.058 pessoas com 16 anos ou mais, em 128 municípios brasileiros, entre os dias 18 e 19 de agosto. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%.
O levantamento foi encomendado pela Folha de S.Paulo e pela TV Globo e está registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-04496/2026.
Jornalista pela PUC Minas e pós-graduanda em Política e Relações Internacionais. Atuou na Rede Minas, no Estado de Minas e em assessoria de imprensa, com experiência em reportagem, produção de conteúdo e cobertura de temas de interesse público



