Flávio Bolsonaro e advogado Willer Tomaz compartilharam voos, empresas e mansão, diz PF
Senador e Willer Tomaz, alvo de apuração por lavagem de dinheiro, teriam vínculos com offshore em Portugal e monopólio de pagamentos de bets; PF apura lavagem de dinheiro e disputas imobiliárias desde 2020

Flávio Bolsonaro, candidato à presidência pelo Partido Liberal (PL), e o advogado Willer Tomaz compartilharam endereços comerciais, voos em jatos executivos e parceiros de negócios ao longo dos últimos anos. Os dois são investigados pela Polícia Federal por lavagem de dinheiro envolvendo empresas de apostas online, as bets.
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As investigações revelam vínculos entre o senador e o advogado, mesmo após ambos afirmarem publicamente que a relação entre suas famílias é apenas de amizade e negarem qualquer irregularidade.
Conexões pelo mundo e offshore em Portugal
Segundo investigações da Polícia Federal, os dois viajaram juntos, com familiares, em jatos executivos para os Estados Unidos, Europa e África. A sequência de voos identificada pela PF teve início em janeiro de 2025, quando Flávio, sua esposa, duas filhas e Willer partiram de Fort Lauderdale, nos Estados Unidos, com destino a Brasília. A aeronave utilizada foi o jato Legacy 650 de prefixo PP-NLR, pertencente à Fraction 024 Administração de Bem Próprio S.A., empresa controlada pela Prime You, fundada por Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Para pagar R$ 8,72 milhões à Fraction 024, Willer usou a Alcazar Holdings, offshore registrada na Ilha da Madeira, em Portugal, da qual é o único acionista. A ligação mais direta entre os dois, conforme a PF, é a presença de Flávio como usuário master da conta bancária de pessoa jurídica dessa mesma empresa.
A partir de abril de 2025, os voos passaram a ser financiados pela Cathedral, empresa controladora da casa de apostas Rede Loto. No dia 11 daquele mês, Willer e Flávio voaram de Lisboa para Nice, na França, em aeronave contratada junto à operadora NetJets. Em 23 de maio de 2025, os dois embarcaram de Cascais, a 30 quilômetros de Lisboa, novamente para Nice, acompanhados de familiares, e de lá seguiram para Paris. A Cathedral bancou ao menos três trechos aéreos na Europa para o candidato do PL e o advogado.
Bets, mansão e monopólio de pagamentos
A Alcazar Holdings pode ter financiado a Cathedral, única acionista do conglomerado Rede Loto. Esta foi a primeira casa de apostas online a obter licença de operação no país, concedida pelo governo fluminense. A Rede Loto foi aberta em 17 de fevereiro de 2023, cerca de dois meses antes de o governo do Rio de Janeiro iniciar o licenciamento de sites de apostas.
O responsável pelos trâmites era Hazenclever Cançado, presidente da Loterj (Loteria do Estado do Rio de Janeiro), nomeado pelo governador Cláudio Castro por sugestão de Flávio.
Cançado era ex-colega de advocacia de Willer. No dia 27 de abril de 2023, data em que a Loterj divulgou pela primeira vez o edital de licenciamento de bets, a Rede Loto entregou uma pasta com 132 páginas de documentos às 9h09 (de Brasília). Como a autarquia não exigia a identificação dos beneficiários finais nos moldes da legislação federal, os acionistas da Cathedral, incluindo Tomaz, não constavam na documentação.
Além da Rede Loto, Willer é o beneficiário final da RioPag, instituição que detém o monopólio do processamento de pagamentos do setor de apostas fluminense desde maio de 2023. A empresa faturou quase R$ 188 milhões entre junho de 2023 e agosto de 2026, de acordo com dados da Loterj divulgados pelo UOL. Desse total, 26,455% deveriam ser repassados aos cofres fluminenses. A autarquia cobra da RioPag uma dívida de R$ 9,4 milhões e uma multa de R$ 4,8 milhões pelo não pagamento integral desse percentual.
Willer assumiu 100% das ações da RioPag por meio da companhia Embrasis, segundo documentos da Jucepar (Junta Comercial do Paraná). A Embrasis foi sua principal fonte de renda em 2024 e lhe rendeu R$ 67,79 milhões, conforme retificação de imposto de renda apresentada em 2025, revelada pelo ICL e confirmada pela Folha. Uma ata de assembleia da Embrasis de dezembro de 2025 aprova a distribuição dos lucros acumulados no ano para Willer e sua irmã, Christine Tomaz de Souza; os pagamentos poderiam ser realizados até 2028. Willer afirma não responder pela administração da RioPag, e a empresa contesta a cobrança na Justiça.
Hoje são investigados pela PF por irregularidades no processo de licenciamento Tomaz, Flávio e Castro. Cançado também está no alvo das investigações e não responde à reportagem desde 14 de outubro.
Mansão disputada com Richarlison
Em 27 de julho de 2020, Flávio visitou pela primeira vez uma propriedade que, desde 2022, tem seus direitos de posse cedidos à WT Administração, empresa de gestão de ativos imobiliários de Willer. O imóvel, avaliado em R$ 10 milhões, está no centro de uma disputa judicial entre o advogado e o jogador Richarlison, em que Flávio figura como testemunha.
O atleta afirma ter comprado o imóvel em 2020, antes de o endereço entrar no alvo de ações jurídicas de Tomaz. Em 2022, o então secretário do Patrimônio da União, coronel Paulo da Silva Medeiros, cedeu a posse da mansão para Willer no mesmo dia em que ele protocolou uma certidão de autorização para transferência. Em 13 de maio de 2022, uma liminar consolidou o entendimento de que o direito de uso era de Willer. Vizinhos e o próprio Richarlison, porém, afirmam que é Flávio quem mais frequenta o local.
No dia 17 de outubro de 2026, Richarlison e um grupo de advogados pediram à PF que investigasse o envolvimento do senador na disputa. Segundo o atleta, o imóvel foi tomado "na mão grande" por meio de manobras judiciais. Flávio negou qualquer atuação irregular e reiterou manter apenas relação de amizade com Willer. Já o advogado afirmou ter adquirido legalmente os direitos sobre o terreno e desembolsado R$ 5 milhões para regularizar pendências fiscais, classificando os antigos ocupantes como invasores.
Endereços compartilhados e outras conexões
Empresas abertas em nome de Flávio e de Antônio Carlos Camilo, conhecido como Careca do INSS, estão registradas no mesmo endereço, em Águas Claras, cidade-satélite do Distrito Federal. A coincidência foi revelada pelo site ICL. A empresa Bravo Grafena, da qual Flávio e o pai, Jair Bolsonaro, são sócios, divide a mesma sala comercial com a construtora RPLD, de Camilo. O principal sócio do Careca do INSS é Alexandre Caetano dos Reis, cuja irmã, Letícia Caetano dos Reis, é diretora estatutária do escritório de advocacia de Flávio.
O escritório de Flávio funciona em uma casa avaliada em R$ 6 milhões, quitada com pagamento à vista de R$ 3,4 milhões ao BRB (Banco de Brasília). Entre janeiro de 2023 e julho de 2026, o escritório emitiu ao menos R$ 13,7 milhões em notas fiscais, sendo metade desse valor para pagamento a outros advogados, segundo revelação do UOL. Em notas anteriores, Flávio afirmou que as notícias sobre o escritório são tentativas de criminalizar a advocacia.
Willer construiu esse conjunto de negócios em cerca de 20 anos. Em 1999, era dono de uma loja de computadores em Taguatinga, também no Distrito Federal. Desde então, expandiu suas atividades para radiodifusão, precatórios, mineração, turismo e apostas online, com sociedades que incluem os senadores Dr. Hiran (PP-RR) e Lobão Filho (MDB-MA). A operação Sem Desconto, que investiga fraudes no INSS, também apura repasses do advogado para o senador Weverton Rocha (PDT-MA); ambos negam as denúncias.
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