CCJ do Senado aprova PEC que reformula a política nacional de segurança pública
Texto constitucionaliza o Susp, amplia a atuação das forças federais e prevê mecanismos mais rígidos para combater organizações criminosas

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou, nesta quarta-feira (2), a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública, considerada uma das principais prioridades do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para a área. O texto agora será analisado pelo plenário da Casa, onde a expectativa é de votação ainda nesta quarta-feira.
A proposta altera a Constituição para reorganizar o sistema de segurança pública brasileiro. Na avaliação do governo, a medida fortalece a integração entre União, estados e municípios, amplia os instrumentos de combate ao crime organizado e dá mais segurança jurídica para a atuação das forças federais.
Durante a análise na CCJ, o relator, senador Rogério Carvalho (PT-SE), apresentou uma emenda de redação para retirar do texto a previsão que alterava a distribuição dos recursos das apostas esportivas destinados ao esporte. Com isso, ficam preservados os repasses ao Ministério do Esporte, ao Comitê Olímpico do Brasil (COB) e ao Comitê Brasileiro de Clubes (CBC). Como a alteração foi considerada apenas de redação, a expectativa é que a proposta não precise retornar à Câmara dos Deputados.
A PEC chegou ao Congresso em abril de 2025 e enfrentou resistência de governadores e da oposição, que alegavam risco de centralização da segurança pública nas mãos da União. O texto acabou sendo negociado ao longo da tramitação e sofreu mudanças na Câmara para reduzir essas resistências.
O que muda na prática
Polícia Federal passa a ter atuação ampliada
Uma das principais alterações é o fortalecimento da Polícia Federal. Na prática, a Constituição passará a prever de forma expressa que a PF poderá atuar em investigações envolvendo organizações criminosas e milícias que operam em mais de um estado ou possuam conexões internacionais. A medida busca reduzir conflitos de competência e facilitar operações nacionais contra facções como PCC e Comando Vermelho.
Isso significa que:
- amplia a atuação da PF contra facções nacionais;
- fortalece investigações sobre tráfico de drogas, armas, lavagem de dinheiro e crimes transnacionais;
- reduz a dependência exclusiva das polícias estaduais em casos de alcance nacional.
Sistema Único de Segurança Pública ganha status constitucional
Hoje, o Sistema Único de Segurança Pública (Susp) existe por meio de lei ordinária. Com a PEC, ele passa a integrar a Constituição Federal. O objetivo é tornar permanente a integração entre:
- Polícia Federal;
- Polícia Rodoviária Federal;
- Polícias Civis;
- Polícias Militares;
- Corpos de Bombeiros;
- Polícias Penais;
- Guardas e futuras polícias municipais.
Isso significa que:
- maior compartilhamento de inteligência;
- integração de bancos de dados;
- operações conjuntas entre União, estados e municípios;
- definição nacional de protocolos e planejamento.
Regime mais rigoroso para facções criminosas
A PEC cria uma base constitucional para que leis futuras imponham tratamento diferenciado às organizações criminosas. O texto autoriza a criação de um regime jurídico especial para integrantes de facções, milícias e grupos paramilitares. Entre as possibilidades estão:
- restrições à progressão de regime;
- limitação de benefícios penais;
- ampliação do confisco de bens obtidos com atividades criminosas;
- medidas para impedir que líderes continuem comandando crimes de dentro dos presídios.
Ou seja: A Constituição passa a permitir regras penais mais duras especificamente voltadas ao combate ao crime organizado.
Municípios poderão criar polícias comunitárias
A PEC autoriza a criação de polícias municipais de natureza civil. Essas corporações terão foco no policiamento ostensivo de proximidade e prevenção da violência. Elas deverão seguir:
- formação padronizada nacionalmente;
- normas nacionais de atuação;
- fiscalização externa pelo Ministério Público.
Ou seja: Os municípios ganham respaldo constitucional para ampliar sua participação na segurança pública, sem substituir as polícias estaduais.
Sistema penitenciário terá novas diretrizes
O texto também fortalece o papel das polícias penais e estabelece princípios constitucionais para a execução penal. O objetivo é impedir que presídios continuem funcionando como centros de comando de organizações criminosas.
Entre as medidas previstas estão:
- maior controle interno das unidades prisionais;
- fortalecimento das polícias penais;
- endurecimento das regras de gestão dos presídios.
Segurança pública ganha fontes permanentes de recursos
A PEC constitucionaliza o Fundo Nacional de Segurança Pública e o Fundo Penitenciário Nacional, garantindo maior estabilidade no financiamento da área. O texto também determina que:
- 10% do superávit financeiro anual do Fundo Social sejam destinados aos fundos de segurança;
- parte da arrecadação das apostas esportivas seja destinada ao setor. No Senado, porém, o relator retirou do texto o dispositivo que alterava os repasses ao esporte, preservando os recursos destinados ao Ministério do Esporte e às entidades esportivas.
Estados e União passam a contar com fontes mais estáveis para investimentos em:
- compra de equipamentos;
- tecnologia;
- inteligência;
- viaturas;
- modernização das forças policiais;
- sistema prisional.
Após a aprovação na CCJ, a PEC segue para votação em dois turnos no plenário do Senado. Se os senadores mantiverem o texto aprovado pela Câmara, incluindo a emenda de redação apresentada pelo relator, a proposta será promulgada pelo Congresso Nacional, sem necessidade de nova análise dos deputados.
Aline Pessanha é jornalista, com Pós-graduação em Marketing e Comunicação Integrada pela FACHA - RJ. Possui passagem pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação, como repórter de TV e de rádio, além de ter sido repórter na Inter TV, afiliada da Rede Globo.


