Belo Horizonte
Itatiaia

Após governo avaliar suspender fiscalização de barragens, vítimas de Brumadinho pedem continuidade nas ações

Documento que circulou na ANM mostra que órgão discute paralisação das ações em campo devido a cortes no orçamento

Por
Associação de vítimas do rompimento da barragem de Brumadinho criticou possibilidade de suspensão das fiscalizações de barragens • Reprodução/Redes Sociais

A Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem da Mina Córrego Feijão em Brumadinho (Avabrum) divulgou nesta terça-feira (13) uma nota pública sobre a possibilidade de suspensão de fiscalizações presenciais em barragens e empreendimentos minários em todo o país por conta de falta de recursos do orçamento da Agência Nacional de Mineração (ANM), órgão responsável pelas vistorias em estruturas de mineração.

Conforme mostrou a Itatiaia nesta segunda-feira (12), a agência divulgou um comunicado na última semana informando da paralisação das ações em campo. Em um informativo, a ANM diz que os agentes só vão comparecer em fiscalizações em casos de urgência e emergência, e que as medidas fiscalizatórias acontecerão apenas de forma remota. Porém, após ser questionada pela reportagem, a ANM rebateu o próprio documento, dizendo que a decisão ainda não teria sido votada pelos diretores da entidade.

Veja mais:

O Ministério de Minas e Energia também se manifestou, dizendo que não há decisão formal sobre o assunto e que o cronograma das fiscalizações permanece inalterado.

Para a Avabrum, no entanto, há preocupação sobre o assunto. A Associação chamou o documento da ANM de "estarrecedor".

"Nós, familiares e atingidos, consideramos lamentável que — em vez de aprender com as lições dos graves acontecimentos ocorridos, em Brumadinho — o Poder Público continue omisso. Desde a tragédia-crime de janeiro de 2019 nossa trajetória tem sido por buscar justiça, encontro das 3 vítimas e preservar a memória e a não repetição. E é em memória às 272 vidas humanas que também lutamos para que a fiscalização e vistorias nas barragens das empresas mineradoras sejam rigorosas e eficazes", afirma a nota.

A manifestação dos atingidos pelo rompimento em Brumadinho diz, ainda, que o Estado brasileiro precisa ter responsabilidade com a vida.

"A lição deixada pelos acontecimentos trágicos de Mariana, Brumadinho e a devastação de bairros de Maceió é que o Poder Público precisa fiscalizar de verdade e as empresas precisam mudar suas práticas de produção", completa a nota.

Fiscalizações podem ser interrompidas

Como foi revelado pela Itatiaia, o documento público da ANM deixa claro que as fiscalizações presenciais poderiam ser interrompidas em função de falta dinheiro para arcar com os custos de diárias, passagens, combustível, manutenção de viaturas e outros itens de logística. Isto após a divulgação de corte de R$18 milhões no orçamento, segundo o documento, atribuída ao governo federal.

Levando isto em consideração, a Avabrum argumentou que autoridades estão sendo omissas com a situação dos municípios mineradores.

"As autoridades federais estarão sendo coniventes e omissas ao desconsiderar que milhares de pessoas vivem e trabalham em municípios localizados próximas às atividades mineradoras. Estas comunidades precisam de segurança e prioridade ao respeito pela vida. Não custa lembrar que atualmente, segundo dados oficiais da própria Agência Nacional de Mineração (ANM) existem 158 estruturas em alto e médio risco no Brasil, sendo 46 localizadas em Minas Gerais. Os dados foram publicados no próprio relatório mensal da ANM, publicado recentemente (julho/2024)", diz outro trecho do comunicado.

Por fim, a nota da Associação pede urgência nas vistorias que estavam previstas para serem feitas em barragens, e alerta que há grave risco caso as operações de fiscalização sejam suspensas.

"As barragens das mineradoras necessitam de vistorias urgentes e soluções para eliminar o nível de insegurança. Como foi com a mina Córrego do Feijão, estas estruturas são verdadeiras bombas-relógio que ameaçam a vida da população e do meio ambiente pelo Brasil afora. Assim, alertamos para o grave risco social caso a Agência Nacional de Mineração, por falta de recursos do Governo Federal, possa interromper a fiscalização ou ser impedida de exercer o papel preventivo e regulador. É preciso, com urgência, evitar que empresas mineradoras continuem gerando ameaças e riscos com impactos irreparáveis para a sociedade brasileira.

Resposta

Em nota, o Ministério de Minas e Energia, pasta à qual a ANM é vinculada, diz que o cronograma de fiscalizações está mantido, mesmo com os cortes de recursos. Confira a resposta, na íntegra:

“O Ministério de Minas e Energia (MME) esclarece que a atividade de fiscalização de barragens é prioridade de governo e que o cronograma planejado pela Agência Nacional de Mineração (ANM) está mantido, mesmo diante do quadro de contingenciamento de recursos.

Por

Jornalista graduado pela PUC Minas; atua como apresentador, repórter e produtor na Rádio Itatiaia em Belo Horizonte desde 2019; repórter setorista da Câmara Municipal de Belo Horizonte.