Tão alto quanto britadeira: duas aves brasileiras surpreendem cientistas com cantos acima de 120 decibéis
Estudo internacional analisou 123 espécies de aves e identificou a araponga-de-garganta-nua e a seriema entre as que produzem os sons mais intensos já registrados pela ciência, com níveis superiores aos de motosserras e britadeiras

Duas aves encontradas no Brasil estão entre as mais barulhentas já estudadas pela ciência. A araponga-de-garganta-nua (Procnias nudicollis) e a seriema (Cariama cristata) conseguem produzir cantos que ultrapassam 120 decibéis, um nível de intensidade sonora comparável ao de equipamentos extremamente ruidosos, como motosserras e britadeiras.
A descoberta faz parte de um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Massachusetts Amherst, nos Estados Unidos, e publicado na revista científica Evolution. A pesquisa analisou a intensidade dos cantos de 123 espécies de aves, incluindo animais encontrados em diferentes regiões do Brasil. Entre as espécies avaliadas, 113 nunca haviam tido o volume de suas vocalizações catalogado dessa maneira.
O trabalho contou com a participação do brasileiro João C. T. Menezes, que realizou a pesquisa durante seu doutorado. Segundo ele, os resultados colocam as arapongas da Amazônia e da Mata Atlântica e a seriema entre as aves com os cantos mais intensos já medidos.
"Podemos dizer com segurança que as arapongas da Amazônia e da Mata Atlântica e a seriema emitem os cantos mais altos já medidos", afirmou Menezes ao g1.
Som que ultrapassa 120 decibéis
A araponga-de-garganta-nua chegou a 122,4 decibéis em uma das medições, considerando o som padronizado para uma distância de 1 metro. Em um registro individual, o exemplar da espécie chegou perto de 131 decibéis, dependendo do método utilizado para calcular a intensidade.
A seriema também apresentou picos superiores a 120 decibéis. A intensidade é ainda mais impressionante quando comparada com a espécie mais silenciosa registrada na pesquisa. Um beija-flor apresentou cerca de 64 decibéis, volume próximo ao de uma conversa normal.
Os pesquisadores ressaltam, porém, que dizer qual é exatamente a ave mais barulhenta depende da maneira como o volume é calculado. Em 2019, outro estudo conduzido pela mesma universidade havia identificado a araponga-branca, encontrada na Amazônia, como responsável pelo canto de ave mais alto já documentado, com registros de até 125,4 decibéis. O resultado posteriormente foi reconhecido pelo Guinness World Records.
Por isso, o novo estudo não teve como principal objetivo estabelecer uma campeã. A intenção foi compreender quais características físicas ajudam determinadas aves a produzir sons tão intensos e investigar se existe relação entre a intensidade vocal, o ambiente e o comportamento social.
Tamanho e bico ajudam a explicar o volume
Os pesquisadores encontraram duas características físicas associadas aos cantos mais fortes: o tamanho do corpo e a largura da abertura do bico.
De maneira geral, aves maiores tendem a produzir sons mais intensos. Uma possível explicação é que elas possuem músculos mais volumosos, capazes de gerar maior pressão interna e, consequentemente, sons mais fortes. A abertura maior do bico também pode ajudar a liberar e amplificar a energia sonora.
A comparação utilizada pelos pesquisadores é semelhante ao funcionamento de instrumentos musicais. Estruturas mais largas podem favorecer a propagação do som para o ambiente.
Mesmo assim, essas características não explicam completamente a capacidade de algumas aves de produzir vocalizações tão extremas. Algumas espécies conseguem emitir sons mais fortes do que animais muito maiores, o que indica que outros mecanismos ainda precisam ser descobertos.
Por que algumas aves precisam cantar tão alto?
Essa é uma das principais perguntas que permanecem sem resposta. Antes da coleta de dados, os pesquisadores levantaram algumas hipóteses. Eles imaginaram, por exemplo, que aves mais barulhentas poderiam ser voadoras menos eficientes, utilizando a intensidade do som para compensar uma menor capacidade de deslocamento.
Outra possibilidade era que espécies que vivem em florestas densas precisassem emitir sons mais fortes para conseguir se comunicar quando os indivíduos não estivessem no campo de visão uns dos outros.
Os cientistas também investigaram uma possível relação entre cantos muito intensos e sistemas de acasalamento. A hipótese era que sons capazes de alcançar distâncias maiores poderiam facilitar a localização de parceiros.
Os resultados, porém, não mostraram uma relação geral capaz de explicar a intensidade dos cantos por esses fatores. "Entre os fatores ecológicos que estudamos, nenhum explicou com clareza por que algumas espécies evoluíram cantos mais altos do que outras", explicou Menezes.
Segundo o pesquisador, isso não significa que habitat, capacidade de voo ou sistema de acasalamento não tenham importância para nenhuma espécie. O resultado indica apenas que esses fatores não parecem funcionar como regras gerais para explicar a intensidade vocal das aves.
Medir o canto das aves é um desafio
Descobrir quanto uma ave consegue gritar na natureza não é uma tarefa simples. A intensidade registrada por um equipamento depende diretamente da distância entre o animal e o aparelho.
Para solucionar esse problema, os pesquisadores utilizaram medidores de som de alta resolução combinados com telêmetros a laser, equipamentos capazes de calcular a distância até o animal. Assim, foi possível relacionar a intensidade do canto com a distância e comparar os resultados entre diferentes espécies.
A estratégia permitiu ampliar significativamente a quantidade de informações disponíveis sobre a intensidade dos cantos das aves. Para os pesquisadores, essa base de dados pode ajudar a responder perguntas que ainda permanecem em aberto.
O mistério por trás dos cantos extremos continua
A pesquisa mostrou que tamanho corporal e abertura do bico ajudam a explicar por que algumas aves conseguem produzir sons tão fortes. Ainda assim, os cientistas acreditam que existe algo a mais por trás da capacidade das espécies que atingem os níveis extremos.
"Agora queremos entender melhor o que há de especial nessas espécies que as permite produzir e irradiar sons tão intensos", afirmou Menezes.
Outra questão é descobrir quais são as vantagens e os custos de produzir um canto tão alto. O som pode favorecer a comunicação ou ajudar na disputa por parceiros, mas também pode tornar a ave mais facilmente localizada por predadores.
Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.



