Preguiça-gigante: pesquisa da PUC Minas revela evolução dentária inédita
Animal da megafauna brasileira descoberto por Peter Lund em 1839 contém a primeira evidência morfológica do tipo na espécie

Foi a partir de uma abertura incomum identificada no maxilar de um fóssil de preguiça-gigante, depositado na coleção paleontológica do Museu de Ciências Naturais PUC Minas (MCN), que pesquisadores do Museu e do Departamento de Odontologia, do Instituto de Ciências Biológicas e da Saúde (ICBS) da PUC Minas, combinaram expertises em uma investigação.
Publicado em 20 de maio no periódico científico Journal of Mammalian Evolution, o artigo The presence of an atavistic caniniform alveolus in Nothrotherium maquinense (Xenarthra, Folivora, Nothrotheriidae) descreve a presença de um alvéolo caniniforme atávico e pouco desenvolvido em um crânio fóssil de preguiça-gigante da espécie Nothrotherium maquinense descoberta pelo dinamarquês Peter Lund, na Bahia, em 1839.
Foram produzidas tomografias computadorizadas (Cone-beam CBCT) para mapear o fóssil em imagens 3D, com resolução microscópica, e, por meio de raio-x digital, os pesquisadores puderam analisar a densidade e a estrutura óssea do fragmento do crânio.
Com os resultados, o grupo pode descartar a possibilidade de a abertura incomum no fóssil ter sido causada por ações de predadores ou por alguma patologia. De acordo com o estudo, esse traço morfológico fornece evidências de que as características anatômicas podem, ocasionalmente, ressurgir durante a evolução de uma espécie.
No caso da reaparição de um traço ancestral perdido há gerações – fenômeno conhecido na Biologia como atavismo – o grupo de pesquisadores afirma ser possível inferir que as observações apresentadas na pesquisa podem ter implicações importantes para a validade taxonômica do gênero Nothropus.
Pela PUC Minas, integram o grupo de autores da pesquisa os professores doutores Izabella Lucas Lima e Flávio Ricardo Manzi, e a estudante da pós-graduação stricto sensu Camille Tostes, do Departamento de Odontologia, e, do MCN, a curadora da Coleção de Mastozoologia Claudia Costa, o curador da Coleção de Bioacústica Rodrigo Parisi e o paleontólogo Luciano Vilaboim.
O grupo das preguiças (Folivora) foi mais diverso no passado, com registro de fósseis de cerca de 100 gêneros já descritos pela ciência. Estes animais sofreram vários episódios de extinção ao longo da era geológica iniciada há 66 milhões de anos após a extinção dos dinossauros.
E apenas dois gêneros sobreviveram à extinção da megafauna ocorrida no Pleistoceno: o Bradypus, composto por quatro espécies de preguiças encontradas nas florestas tropicais e o Choloepus, cujas representantes atuais são duas espécies de preguiças-de-dois-dedos.
Jessica de Almeida é repórter multimídia e colabora com reportagens para a Itatiaia. Tem experiência em reportagem, checagem de fatos, produção audiovisual e trabalhos publicados em veículos como o jornal O Globo e as rádios alemãs Deutschlandfunk Kultur e SWR. Foi bolsista do International Center for Journalists.



