Meu filho me pediu um cachorro. E agora? Saiba o que avaliar antes de decidir
Ter um cachorro pode trazer benefícios para as crianças, mas a família precisa avaliar rotina, idade, segurança, custos e responsabilidade antes de levar um animal para casa

"Eu quero um cachorro!" Para muitas famílias, o pedido aparece depois de uma visita à casa de amigos, de um encontro com um animal na rua ou simplesmente porque a criança se encantou com algum cachorro.
A ideia pode ser tentadora. A convivência com um cão pode proporcionar companhia, brincadeiras e oportunidades para a criança aprender sobre cuidado e responsabilidade. Pesquisas científicas encontraram associações entre a convivência com cães e alguns aspectos positivos do desenvolvimento infantil. Mas isso não significa que simplesmente ter um cachorro em casa garanta esses benefícios.
Antes de tomar a decisão, os pais precisam considerar principalmente se a família está preparada para assumir a responsabilidade pelo animal durante toda a vida dele.
O cachorro não deve ser responsabilidade da criança
Mesmo que a criança prometa alimentar o cachorro, trocar a água, limpar o espaço e participar dos passeios, essas tarefas não devem depender exclusivamente dela. Conforme a idade, a criança pode ajudar nos cuidados, mas os adultos continuam sendo os responsáveis pelo bem-estar do animal.
Um estudo publicado na revista Pediatric Research, que avaliou 1.646 pais de crianças em idade pré-escolar, encontrou associação entre viver com um cachorro e menor ocorrência de alguns problemas de comportamento e relacionamento, além de maior frequência de comportamentos pró-sociais. Entre as famílias que tinham cães, crianças que participavam de passeios e brincadeiras ativas com o animal também apresentaram maior probabilidade de comportamentos pró-sociais.
Isso, porém, não significa que o cachorro seja a causa direta dessas características. Estudos observacionais identificam associações, mas outros fatores da vida familiar também podem influenciar os resultados.
A idade da criança faz diferença
Crianças pequenas ainda estão aprendendo a compreender os sinais apresentados pelos animais. Elas podem não perceber que um cachorro está assustado, irritado ou simplesmente querendo ficar sozinho.
Uma revisão científica publicada na revista 'Animals' analisou os efeitos positivos e negativos da interação entre crianças e cães. Os pesquisadores encontraram associações com maior atividade física, redução do estresse e desenvolvimento da empatia, mas também identificaram riscos, incluindo mordidas, doenças transmitidas pelos animais e situações de estresse para os próprios cães.
Por isso, crianças pequenas não devem ser deixadas sozinhas com um cachorro, mesmo que o animal seja conhecido e faça parte da família há anos.
Segurança precisa estar acima da vontade de brincar
Puxar a cauda, abraçar o animal com força, mexer nele enquanto come ou dorme e aproximar o rosto do focinho são atitudes que podem provocar uma reação defensiva.
Uma pesquisa publicada no 'Journal of Pediatric Psychology' analisou estratégias para prevenir mordidas de cães em crianças e concluiu que intervenções educativas podem melhorar o conhecimento e o comportamento infantil diante dos animais. Os autores também ressaltaram a necessidade de acompanhamento e de estratégias de prevenção mais rigorosas.
Outro estudo, publicado na revista 'Accident Analysis & Prevention', mostrou que crianças pequenas apresentam risco particular de sofrer mordidas e destacou a importância da supervisão dos adultos.
Em outras palavras, não basta ensinar a criança a "ser boazinha" com o cachorro. Os adultos também precisam acompanhar as interações e intervir quando necessário.
Escolher um cachorro não é apenas escolher uma raça
O temperamento individual, a idade, o nível de energia, o histórico e as necessidades do cachorro precisam ser compatíveis com a rotina da família.
Um cachorro muito ativo pode precisar de bastante exercício e estímulo todos os dias. Um animal idoso pode exigir cuidados diferentes. Já um cão que teve experiências negativas com crianças pode precisar de adaptação e acompanhamento antes de conviver com elas.
O tamanho do imóvel também não deve ser analisado isoladamente. Mais importante do que simplesmente ter uma casa grande é saber se a família conseguirá oferecer ao animal exercícios, interação, descanso, alimentação adequada, cuidados veterinários e estímulos suficientes.
Ter um cachorro pode ajudar a criança?
Um estudo longitudinal publicado no 'Journal of Pediatrics' acompanhou milhares de crianças australianas e encontrou associações entre ter animais de estimação e menor ocorrência de alguns problemas emocionais e de relacionamento, além de comportamentos mais pró-sociais. Entre as crianças sem irmãos, algumas associações com comportamento pró-social foram ainda mais fortes.
Outro estudo, publicado em 2024 a partir de dados de uma grande coorte britânica, encontrou associações entre ter um cachorro aos 3 anos e maior comportamento pró-social. Ao mesmo tempo, os pesquisadores encontraram resultados que não sustentam a ideia de que animais de estimação produzam benefícios gerais sobre a saúde emocional ou o desempenho cognitivo. A conclusão foi que os possíveis efeitos positivos parecem estar mais relacionados a aspectos de interação social e linguagem.
E uma pesquisa publicada em 2026 reforçou a necessidade de cautela. Ao acompanhar crianças pequenas e mudanças na condição de ter um cachorro, os pesquisadores encontraram poucos efeitos gerais sobre o desenvolvimento socioemocional. Isso mostra que a relação entre crianças e cães é mais complexa do que simplesmente "ter um cachorro faz bem".
O que os pais devem avaliar antes de dizer sim
Antes de atender ao pedido da criança, vale fazer algumas perguntas:
Quem será responsável pelo cachorro? A resposta precisa ser um adulto, mesmo que a criança participe dos cuidados.
A família tem tempo? O animal precisa de alimentação, atenção, brincadeiras, exercícios, higiene e acompanhamento veterinário.
Há dinheiro para os cuidados? Além da alimentação, existem vacinas, consultas, medicamentos, antiparasitários, banho e possíveis emergências.
A criança sabe respeitar os limites do animal? Ela precisa aprender que cachorro não é brinquedo e que nem sempre vai querer brincar ou receber carinho.
A família está preparada para supervisionar a convivência? Principalmente quando a criança é pequena.
O cachorro combina com a rotina da casa? Energia, idade, comportamento e necessidades do animal devem ser considerados.
E se a criança perder o interesse? Essa talvez seja uma das perguntas mais importantes. O cachorro continuará sendo responsabilidade da família por muitos anos.
Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.



