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Irã proíbe passeio com cães e aprofunda repressão a costumes ‘urbanos’

Repressão aos cães tem amparo em interpretações religiosas do Islã xiita adotadas pelo regime iraniano

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Gol suspende transporte de animais no porão por 30 dias após morte cachorro | CNN Brasil
Com a proliferação aumentada, aumentam também os episódios de dermatite, coceira e inflamações cutâneas, principalmente em animais com alergias pré-existentes • Créditos: CNN Brasil

Em dezenas de cidades do Irã, o simples ato de caminhar com um cachorro pela rua passou a ser considerado um crime.

A medida, imposta por autoridades locais nas últimas semanas, intensifica uma política já presente em Teerã desde 2019 e agora se estende a centros como Isfahan, Kerman e Ilam.

O argumento oficial é que os cães em espaços públicos representam ameaça à saúde, à moral e à segurança social, mas especialistas alertam para o uso crescente dessas proibições como forma de repressão aos modos de vida urbanos e ocidentalizados.

A repressão tem amparo em interpretações religiosas do Islã xiita adotadas pelo regime iraniano, segundo as quais o cão é considerado um animal "impuro".

O líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei, já declarou que manter cães como animais de estimação não é adequado à cultura islâmica.

Em 2017, ele afirmou: “Criar cães por motivos que não sejam caça, guarda ou pastoreio é um costume ocidental reprovável”.

Nova onda de proibições avança sem base em lei nacional

Embora não exista uma legislação nacional que proíba passeios com cães, promotores e autoridades locais têm recorrido a regulamentos de ordem pública e moral para justificar detenções, multas e apreensão de animais.

Em junho de 2025, o promotor de Isfahan, Mohammad Mousavian, declarou publicamente que “passear com cães em parques, vias e veículos será punido com rigor, em defesa da saúde e da ordem social”, conforme relatado pela agência IranWire.

A ONG Human Rights Watch denuncia que esse tipo de medida tem sido usado para coibir comportamentos ligados à classe média urbana, vista com desconfiança pelo regime.

Segundo o relatório da organização, publicado em maio deste ano, há um “uso sistemático de leis vagas para controlar a vida cotidiana sob o pretexto de valores culturais”.

O portal The Guardian reforça que, para além do discurso religioso, a repressão se insere num contexto mais amplo de vigilância e moralização:

“A criminalização dos cães é parte de um esforço para suprimir símbolos da vida moderna que desafiam as normas tradicionais”, analisa o jornal.

População tenta resistir, mas clima de medo avança

Em Teerã e outras cidades maiores, muitos tutores têm tentado driblar a proibição ao sair com os cães no colo, dentro de bolsas ou apenas no carro.

No entanto, há registros de pessoas detidas, veículos apreendidos e cães confiscados. O clima é de medo e incerteza, agravado pela falta de comunicação clara entre as autoridades e a população.

Organizações de direitos humanos e grupos de defesa animal têm pressionado o governo iraniano por mais transparência e revisão da política.

Para a Iran Human Rights, sediada na Noruega, a medida é “injustificável, discriminatória e parte de uma escalada autoritária que restringe liberdades básicas”.

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Jessica de Almeida é repórter multimídia e colabora com reportagens para a Itatiaia. Tem experiência em reportagem, checagem de fatos, produção audiovisual e trabalhos publicados em veículos como o jornal O Globo e as rádios alemãs Deutschlandfunk Kultur e SWR. Foi bolsista do International Center for Journalists.

 

 

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