Convivência com humanos moldou o cérebro dos cães, aponta estudo
Pesquisas mostram que a domesticação transformou a capacidade de autocontrole desses animais, permitindo que eles compreendam sinais da nossa espécie e convivam melhor com as pessoas

Os cães conseguem esperar pacientemente pela comida, controlar a força da mordida durante as brincadeiras e até suportar situações desconfortáveis, como cortar as unhas ou receber uma vacina. Embora muitas pessoas interpretem esses comportamentos como simples obediência ou 'força de vontade', a ciência indica que essa habilidade é resultado de milhares de anos de convivência e adaptação ao lado dos seres humanos.
Segundo uma análise do psicólogo e neurocientista Víctor Oswaldo Gamboa Ruiz, da Universidade de La Sabana (Colômbia), e divulgada pelo portal científico The Conversation, o autocontrole dos cães é fruto de mecanismos biológicos e cognitivos sofisticados que foram sendo aperfeiçoados ao longo da domesticação. Esses processos permitem que os animais inibam reações imediatas e ajustem seu comportamento ao ambiente social em que vivem.
Diferentemente do que ocorre com os humanos, os cães não fazem escolhas baseadas em conceitos morais. Em vez disso, seu comportamento é regulado por áreas cerebrais e neurotransmissores, como dopamina e serotonina, que também estão presentes em outros mamíferos e desempenham papel importante no controle das emoções, dos impulsos e das respostas ao ambiente.
Evolução fortaleceu a convivência
Os pesquisadores explicam que, durante milhares de anos, os cães que demonstravam menor agressividade, maior cooperação e mais atenção aos sinais humanos tiveram mais chances de viver próximos das pessoas. Esse processo favoreceu o desenvolvimento de animais capazes de interpretar gestos, mudanças na voz, expressões e rotinas dos tutores.
Por isso, quando um cão espera autorização antes de comer ou evita um comportamento inadequado, ele não está seguindo regras morais. Na realidade, associa determinados sinais a consequências previsíveis, como receber uma recompensa, agradar ao tutor ou evitar conflitos. Quanto mais consistente é o treinamento, mais essas associações se fortalecem.
Controle de impulsos
O estudo destaca que o autocontrole também faz parte da natureza dos animais. Na vida selvagem, por exemplo, um predador precisa esperar o momento certo para atacar, enquanto espécies que vivem em grupo dependem da capacidade de controlar comportamentos agressivos para manter relações estáveis.
Nos cães domésticos, essa característica foi potencializada pela convivência com os humanos. Eles desenvolveram uma grande flexibilidade cognitiva, permitindo aprender rotinas, adaptar o comportamento às expectativas das pessoas e responder de forma cada vez mais eficiente aos estímulos do ambiente.
Jornalista graduado com ênfase em multimídia pelo Centro Universitário Una. Com mais de 10 anos de experiência em jornalismo digital, é repórter do Tribunal de Justiça de Minas Gerais. Antes, foi responsável pelo site da Revista Encontro, e redator nas agências de comunicação Duo, FBK, Gira e Viver.



