Itatiaia

Padre Samuel Fidelis | Igrejas, políticos, bancos

'Quem fez mais mal à humanidade: a Igreja, os políticos ou os bancos?'

Por
Padre Samuel Fidelis
Padre Samuel Fidelis • Arquivo pessoal

O saudoso Abujamra costumava fazer, em seus programas, uma pergunta provocadora: “Quem fez mais mal à humanidade: a Igreja, os políticos ou os bancos?”. Claro, uma indagação como essa, que contém ironia e aparenta dissimular desrespeito, é um convite à reflexão sobre o papel - ou, no mínimo, a ambiguidade - das instituições. 

Nosso momento atual no Brasil - ao qual só posso aludir por falta de dinheiro para pagar advogado - é de grande provocação. Ironicamente, estamos diante de escândalos que expõem lacunas de igrejas, de políticos e de magistrados. 

Seria muito fácil, até autocomplacente, apontar o dedo a essa ou àquela figura, fazendo dela o bode expiatório dos traços de compadrio e conchavo que caracterizam o Brasil. Isso vai do porteiro, passa pela sacristia e chega ao Judiciário! Nosso país, aludindo a Sérgio Buarque, é, desde sempre, lugar de relações obscuras entre o público e o privado. Queremos sempre levar vantagem em tudo. Gostamos de resultados com o mínimo esforço possível. 

Alguns pensam em crise institucional. E isso está posto e óbvio. A internet escancarou a nudez não só do “rei”, mas também dos clérigos, dos banqueiros, dos magistrados. Para alguns, a solução passa pela desconfiança profunda da lei e dos organismos jurídicos. O problema é que nunca se construiu nada sem acordos, pactos e civilidade! Para outros, há instituições supremas autorizadas a cercear de modo preventivo, imune e antecipado. O desafio é que há imperfeição até entre os anjos (cf. Jo 4,18). O que começa com "sic semper tyrannis" - (assim se eliminam os tiranos) - termina num salvo-conduto institucional para coagir, constranger, impedir. 

Sim, a internet deu voz a imbecis. Sim, há uma polarização afetiva; várias pontas soltas, conclusões incertas; muita lacração; um certo cansaço… Talvez, como lembrava Nietzsche, algo de bom possa surgir do caos. Ele costuma dar à luz estrelas dançantes! 

Se, por um lado, estamos perdidos e as instituições tradicionais estão desgastadas, por outro, estamos diante daquilo que nunca mente: a angústia, as sensações. Talvez seja o momento de políticos, clérigos e magistrados descerem ao encontro do Brasil profundo e de suas sensações - indignações! Todo bom tratamento começa com a análise atenta dos sintomas. Esse processo não é o tratamento em si, nem a certeza das “causas”, mas é um passo irrenunciável. 

Não podemos nos esquecer: tudo, ao fim e ao cabo, começou e perdura por causa da insegurança econômica, da incerteza sobre o futuro, da desconfiança nas instituições, da saturação da demagogia. 

Antes de, com a bússola ideológica, adjetivar de “mortadela” ou de “gado”, um passo importante é se perguntar: por que determinados grupos conseguem mobilizar tanto as bases? Qual a razão do sucesso de narrativas simples e binárias? Qual a fórmula do engajamento orgânico com a população? 

Talvez a questão não seja sobre rótulos que viram ruído, mas sobre identificação, autenticidade, escolhas utilitárias… a questão não é apontar "quem errou", mas se perguntar "por que esse discurso cola?". 

Por

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.

 

 

Belo Horizonte