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Padre Samuel Fidelis | Família conserva

A questão não seria o rótulo da 'família margarina', mas o fato de a 'lata' estar intacta, vendendo 'conserva', enquanto o interior estaria cheio de 'bolor', numa alusão à hipocrisia

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Padre Samuel Fidelis
Padre Samuel Fidelis em celebração • Arquivo pessoal

Vai-se o Carnaval. Fica a vida como ela é, e suas intrigas. Em meio a festejos e alegorias, não passou despercebida a polarização política (na verdade, afetiva!). A utilização das “latas em conserva” para representar, ou cutucar, uma visão conservadora de família deu o que falar. 

Há indignação legítima de ambos os lados. Por um lado, uma irritação óbvia num setor da sociedade para quem a família nuclear constituída de “mãe, pai, filhos” é o modelo ideal, divino, normativo. Por outro, o reforço de que a crítica foi mal interpretada. Ou melhor, de que a “alegoria” foi mal compreendida. A questão não seria o rótulo da “família margarina”, mas o fato de a “lata” estar intacta, vendendo “conserva”, enquanto o interior estaria cheio de “bolor”, numa alusão à hipocrisia. Algo parecido com o que Jesus diz aos fariseus: “sepulcros caiados” (Mt 23,27). Por fora, cheios de piedade; interiormente, cheios de corrupção, hipocrisia e pecado. 

Menos razão. Mais emoção. Vamos aos fatos. Há imensa maioria no Brasil que se considera conservadora. E associar a defesa de valores tradicionais, na forma hegemônica e padrão, a autoritarismo e preconceito é, no mínimo, desonestidade intelectual. Não há possibilidade de civilização sem moral, isto é, sem noções do que se considera certo ou errado. Até mesmo a “esquerda”, ao defender valores como dignidade, não violência e justiça, o faz como devedora profunda da ética greco-romana e dos valores cristãos. Sem o cristianismo, o Ocidente não teria criado hospitais e orfanatos. O comunismo não é exatamente um modelo universal de tolerância. 

Dom Hélder insistia que há gente que passa a vida defendendo os pobres enquanto o coração se enche de ódio. O ódio, ao fim, não constrói nada. Não é insultando valores tradicionais que se caminha em direção à lucidez e à tolerância. Isso só cria ressentimento, descolamento das camadas populares. É isso precisamente o que joga a massa da população, que não se sente representada, no colo de líderes “populistas” e oportunistas. 

Se a referida escola de samba associa determinada figura pública a um “palhaço”, é preciso ter clareza de que palhaços sobem em circos. O Brasil está, há muito, indignado com o circo da corrupção, da impunidade, da insegurança criada pelo fato de que “ o preço do crime compra o juiz” (Hamlet). Essa coisa de gente que mora no Leblon, ou tem nome de papa e sobrenome que é conta bancária herdada de família rica franco-belga, fazendo “crítica social”, não cola mais. Até irrita. 

E à “direita” talvez valha a pena considerar o princípio da autocrítica. Tem muita gente que, na incapacidade de corresponder, na vida íntima, aos padrões morais que apregoa, pune-se nos outros. Há de fato muita hipocrisia em discursos religiosos e morais que são mera cortesia e repetição vazia. 

Como postulava Mahler, “a tradição é a garantia do fogo, não a custódia das cinzas”. A melhor forma de convencer o mundo de que a família é um pilar indispensável para a sociedade, uma célula geradora de vida sem a qual tudo desmorona, é levar, no âmbito da família, uma vida autenticamente nobre, santa e reta. 

Para aludir de novo a Dom Hélder, não se pode abandonar bandeiras certas por estarem em mãos erradas. Vale a pena, e fará bem, rever o que há de mofo em discursos enrijecidos e numa moral que não se atualiza. Tem muita família, muito “cidadão de bem”, que de dia é sabor de perfeição. À noite... 

O país sofre com essas intermináveis acusações mútuas de quem, defendendo as árvores da Amazônia no conforto do próprio gabinete ou falando de “família” de olho na mulher do vizinho, julga-se detentor do monopólio das virtudes sem ter o mínimo esforço de ser, realmente, ético e moral. 

Por

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.

 

 

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