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Padre Samuel Fidelis | Casos de família 

Via de regra, tanto na família quanto na empresa, as relações de conveniência mostram-se bastante eficazes

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Padre Samuel Fidelis
Nesta semana, o padre Samuel Fidelis aborda o tema 'família' • Arquivo pessoal

Sem dúvida, uma das formas mais curiosas - e talvez mais engraçadas - de nomear ambientes “coletivos” é chamá-los de família. Há algo de profundamente curioso, ou diríamos até, em certo sentido, de uma apropriação quase selvagem, em atribuir esse nome a espaços nos quais as relações são regidas por conveniências, cujo foco é o lucro (ou, no mínimo, uma finalidade filantrópica). 

Pois bem. Se, por um lado, empresas, repartições públicas e grupos de trabalho, em sentido estrito, não podem ser considerados famílias, por outro, é inegável que existem entre eles algumas semelhanças reveladoras. 

À semelhança do que ocorre em uma família, a linha entre o amor e o ódio no ambiente de trabalho costuma ser extremamente tênue. Há muita identificação, projeção e transferência na relação com aqueles membros da “família” - ou da empresa - com quem mais nos custa conviver. Algo parecido com o que acontece no ensino fundamental: uma das formas mais eficazes de perceber se uma garota está apaixonada é observar justamente o garoto em quem ela mais “bate”, entre tapinhas, implicâncias e provocações. 

Via de regra, tanto na família quanto na empresa, as relações de conveniência mostram-se bastante eficazes. Assim como ocorre no núcleo familiar, ao fim e ao cabo, qualquer CNPJ é movido por múltiplos interesses particulares. A exigência por metas costuma ser inversamente proporcional à importância do sobrenome e diretamente relacionada aos conchavos e aos afetos. 

Do mesmo modo que em uma família, a cultura e os valores de uma empresa expõem um conjunto claro de sintomas. Com a proximidade das festas de fim de ano, uma das cenas mais aguardadas é a recepção dos “novos agregados”. É clássica a imagem das pequenas “facções” reunidas nos cantos da sala, observando com lupa os defeitos de quem acaba de chegar ao “clã”. Poucas coisas são tão satisfatórias para o grupo quanto a catarse dos próprios defeitos projetados nos recém-chegados. Assim, a chamada “cultura organizacional” costuma devorar, no café da manhã, qualquer entusiasmo ou sangue novo. 

Nossos padrões, quase sempre, são muito altos - tanto nas empresas quanto nas famílias. Isso nos faz lembrar João Grilo, em O Auto da Compadecida: é tanta qualidade exigida para dar um emprego que não se conhece um patrão em condições de ser empregado. 

Cabem, portanto, reflexões na família, na empresa e na repartição pública. Tudo o que se repete é sintoma. O que dizem sobre nós as mesmas dívidas, as mesmas confusões de fim de ano, os mesmos problemas de RH que insistem em retornar? 

Já prevendo os encontros incoventinentes (consanguíneos e agregado), já "desfrutando" das festas "regadas" a três beijinhos e a xingamentos velados, serve-nos o conselho das Escrituras: 

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Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.

 

 

Belo Horizonte