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Padre Samuel Fidelis | Bandido bom. Bandido morto?

É fato que não é o 'cano da arma' que fará justiça; os maiores criminosos estão bem distantes dessa carnificina

Por
Padre Samuel Fidelis
Quando a violência e a criminalidade explodem, elas não são o mal número um • Arquivo pessoal

A alma do Brasil, e a garganta, foi atravessada de dor nesta semana. As cenas dos tiros, das lágrimas, dos corpos no morro gritam que falhamos! O país se divide em opiniões e ideologias. Há razões legítimas para se indignar de ambos os lados. É fato que ninguém aguenta mais tanta insegurança e a impunidade dos crimes. É fato que não é o “cano da arma” que fará justiça. Os maiores criminosos estão bem distantes dessa carnificina. 

Nosso senso de justiça, a dignidade humana, os valores cristãos - dos quais, por vezes, até com certa hipocrisia, nos orgulhamos - não nos permitem pensar em soluções rápidas nem em vingança, mas nos convocam ao protesto, às lágrimas, à compaixão. O grande dano colateral de operações como essa é que todos perdemos: os heróis da polícia, os que - embora bandidos - tiveram sua vida barbaramente ceifada, as mães, cujo coração sangra pela perda dos filhos, os moradores da favela, que vivem sem paz... 

Não podemos transformar a luta pela justiça num cálice de ódio! A violência, desde Caim e Abel, fez irmãos se tornarem homicidas! Nossa falta de senso de orientação histórica nos leva a esquecer que os morros do Rio são frutos da eugenia, do racismo, da miséria que expulsou as pessoas negras - sobretudo! - para longe de Copacabana e do asfalto. A gente se esquece de que PCC e Comando Vermelho são filhos bastardos da violência do Estado do Carandiru! Quando a violência e a criminalidade explodem, elas não são o mal número um... 

Operações como essa mostram que o crime é organizado. Nosso Estado, ainda não. Eis o drama: o crime se organiza; o Estado ainda não se humanizou. Se é óbvio que o Comando Vermelho precisava de uma imediata contenção, também é óbvio que essa quantidade de pessoas mortas desrespeita tratados e preceitos constitucionais! 

Nossa coluna da semana é fruto também de indignação cristã. Porque é questão de fé lutar pela justiça! A fé não é questão apenas de rito ou de culto. Se ela é alegria, é também compromisso. Parafraseando Levinás, em sua Ética da Alteridade, em que o rosto do outro, para além de qualquer pretexto e contexto, grita “não matarás!”, convoca nossa consciência. Em termos levinasianos, se a tragédia do Rio não é culpa nem sua nem minha, ela é responsabilidade nossa! 

“Bandido bom é bandido morto”, diz o insensato! Em perspectiva humana e cristã, o céu foi aberto para acolher a conversão do bandido (Lc 23, 42-43)... 

Apelo à Senhora do Morro, de Heriveldo Martins, que interceda pelos filhos de Deus... Lá no morro o barracão é de zinco - que não seja furado de tiros. Se não há pintura, que não falte a textura da compaixão. Se não existe felicidade de arranha-céu, que se escute o clamor da violência e da miséria, do sangue que clama da terra e sobe para junto de Deus (Ex 22, 21-23)... 

Por

Pró-reitor de comunicação do Santuário Basílica Nossa Senhora da Piedade. Ordenado sacerdote em 14 de agosto de 2021, exerceu ministério no Santuário Arquidiocesano São Judas Tadeu, em Belo Horizonte.

 

 

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