Papa Francisco, a Argentina e o reencontro que não aconteceu
Em 12 anos de pontificado, Francisco nunca retornou ao seu país de origem

Desde que deixou Buenos Aires para se tornar o papa Francisco, em 2013, Jorge Mario Bergoglio nunca mais voltou à Argentina. Ao longo de um pontificado que o levou a cruzar continentes e a visitar mais de 60 países, uma ausência se consolidou como traço discreto de sua biografia: o silêncio do não retorno ao país de origem. Ainda assim, sua terra natal jamais deixou de acompanhá-lo — presente, por vezes, em gestos quase domésticos, como memórias da cultura, da gastronomia, do futebol e das inquietações políticas. Um sentimento de pertencimento que persistiu, mesmo diante de uma distância que, para muitos, permaneceu difícil de compreender.
“A Argentina, certamente, estava próxima do seu coração. Ele tinha orgulho de suas raízes em Buenos Aires, gostava de conversar com seus conterrâneos e de comer comida argentina. Eu mesmo levei empanadas para ele muitas vezes, mas a viagem ao país nunca aconteceu. Perguntei sobre isso apenas uma vez, e ele me disse que havia algo sobre o qual precisava refletir. Nunca voltei ao assunto”, relata o jornalista italiano Salvatore Cernuzio, de 38 anos, que conviveu de perto com Francisco desde 2021.
Em seu primeiro discurso como papa, Francisco fez questão de marcar suas origens — algo que o acompanharia ao longo do pontificado. “Parece que os cardeais foram me buscar no fim do mundo”, disse em 13 de março de 2013, na Praça São Pedro, ao se apresentar como novo líder da Igreja Católica e sucessor de Bento XVI, que havia renunciado. Mais de uma década depois, em 2024, já sob limitações de saúde, voltou a mencionar a possibilidade de retornar à Argentina, “por ser seu povo”.
“É uma ausência que gerou muito ruído, sobretudo na Argentina. Mas reduzir isso a uma explicação única é insuficiente”, afirmou o padre e professor argentino Pablo Savoia, de 45 anos, que conheceu o pontífice ainda quando ele atuava como arcebispo em Buenos Aires.
Esse ruído também se conecta a um campo mais amplo de disputas históricas e políticas no país, conforme Savoia. O religioso aponta um cenário marcado por disputas de memória em torno de Bergoglio. Sua atuação durante a ditadura militar argentina (1976–1983), quando era superior da ordem jesuíta, permanece em debate: para alguns, teria protegido perseguidos; para outros, sua conduta foi marcada por omissões.

O livro "A lista de Bergoglio", do jornalista italiano Nello Scavo, relata episódios em que o então padre teria atuado em uma rede de proteção a perseguidos, com a organização de esconderijos, rotas de fuga e o transporte de pessoas ameaçadas em seu próprio carro. “Arriscando uma estimativa mais conservadora, poderia-se dizer que o padre Jorge tenha colocado em locais seguros mais de 100 pessoas”, diz um trecho da obra.
Por sua vez, o jornal Página 12 apresenta outra leitura do período: segundo a publicação, Bergoglio teria retirado a proteção de dois padres que atuavam em áreas pobres. Ambos foram sequestrados pela ditadura e permaneceram cinco meses em cativeiro.
Francisco também manteve relações instáveis com líderes argentinos. Criticou o governo de Néstor Kirchner, alternou momentos de tensão e reaproximação com Cristina Kirchner e manteve distância de Mauricio Macri. Com Javier Milei, a relação atingiu seu ponto mais crítico: antes de assumir a presidência, ele chegou a definir o papa como “a representação do mal na Terra”.
A distância do país também se refletiu na queda de sua popularidade, que passou de 91% em 2013 para 64% em 2024, segundo pesquisa do Pew Research Center. “Francisco entendia que sua figura, em um país tão polarizado, seria inevitavelmente instrumentalizada. Não voltar também foi uma forma de não se colocar dentro dessa disputa”, acrescenta Savoia.
Para o mestre em Teologia e diretor do Departamento de Teologia da Universidade do Salvador, Agustín Podestá, de 38 anos, residente em Buenos Aires, a ausência do papa após sua eleição pode ser comparada à trajetória do general José de San Martín, uma das figuras mais importantes da história do país. O militar teve papel central nas independências da Argentina, do Peru e do Chile e, em 1824, deixou o continente para viver exilado na Europa.
“Ele também não retornou ao país após a guerra de independência, em um contexto marcado por fortes tensões e disputas políticas que poderiam instrumentalizar sua imagem. Sem estabelecer paralelos diretos, isso ajuda a pensar como certas ausências também podem ser lidas por essa perspectiva: a escolha de não entrar no jogo político-midiático”, acrescenta.
Ainda assim, segundo Podestá, a ausência de Francisco pode ser interpretada como uma forma de “resguardar a unidade” em um país marcado por polarizações. “Não interpreto como um distanciamento afetivo, mas como uma forma exigente de viver sua missão como bispo de Roma”. Compreensão semelhante à do padre Pablo Savoia, que atuou junto ao então arcebispo Bergoglio na capital argentina: “Às vezes, para proteger a mensagem, é preciso se afastar de certos cenários. Não é confortável, mas pode ser necessário”, conclui.
Estudante de jornalismo pela PUC Minas, Júlia Melgaço trabalhou como repórter do caderno de Gerais no jornal Estado de Minas. Também já passou por veículos de rádio e televisão. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e Mundo.
Jornalista formado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH) e pós-graduado em Jornalismo nos Ambientes Digitais pela mesma instituição. Possui experiência como repórter, produtor e coordenador de telejornal.




