Um ano sem Francisco: o legado do primeiro papa latino-americano
Argentino Jorge Mario Bergoglio assumiu o comando da Igreja Católica após a renúncia de Bento XVI, uma decisão rara na história do papado

Um ano se passou desde que os sinos de Roma dobraram em luto às 7h35 (2h35 de Brasília), em 21 de abril de 2025, para anunciar a morte do papa Francisco, aos 88 anos, o primeiro latino-americano a comandar a Igreja Católica. A despedida veio um dia após sua aparição inesperada diante da multidão reunida na Praça de São Pedro, durante a celebração da Páscoa. Mesmo debilitado por uma pneumonia, ele contrariou recomendações médicas e se aproximou dos fiéis. O gesto, breve, acabou sendo lido pela multidão como uma despedida. Ali se encerravam 12 anos de um pontificado marcado pela defesa da paz, do meio ambiente e das minorias, em meio à resistência de setores conservadores.
"Foi um Papa que desordenou, e digo isso no melhor sentido. Desorganizou certas seguranças eclesiais para recolocar no centro algo muito mais original: o Evangelho vivido, não apenas explicado. Seu pontificado não foi principalmente doutrinal, embora não tenha faltado profundidade, mas existencial. Ele nos obrigou a perguntar se a Igreja estava realmente sendo um hospital de campanha ou se havia se transformado em uma alfândega", afirma o padre argentino Pablo Savoia, de 45 anos, que conheceu o pontífice quando ele ainda era arcebispo em Buenos Aires.
As mudanças já estavam anunciadas no primeiro gesto, conforme especialistas. Ao deixar de ser Jorge Mario Bergoglio para se tornar Francisco, o primeiro papa a adotar esse nome, o novo líder da Igreja Católica inaugurava não apenas uma escolha inédita, mas uma direção. A evocação do santo da pobreza, da simplicidade e da ruptura com os excessos funcionou como chave de leitura do caminho que se abria: menos uma formalidade simbólica e mais um programa silencioso de transformação. “Em vez de introduzir algo novo, Francisco permitiu que a Igreja se redescobrisse a partir de uma perspectiva mais evangélica e comunitária”, apontou o teólogo argentino Agustín Podestá, de 38 anos.

Francisco assumiu o comando da Igreja Católica após a renúncia de Bento XVI — uma decisão rara na história do papado, registrada poucas vezes ao longo dos séculos, segundo a Universidade de Tulsa, nos Estados Unidos. O primeiro pontífice latino-americano chegou ao cargo em meio a um cenário de crise, marcado por escândalos de abuso sexual, denúncias de corrupção financeira e disputas internas no Vaticano. “É um pontificado que não promove mudanças doutrinárias profundas, mas atua sobretudo na reorganização das estruturas internas da Igreja, especialmente na Cúria Romana e em seus processos de decisão”, avaliou o teólogo brasileiro Raylson Araújo.
Por meio da constituição Praedicate Evangelium, Francisco conduziu a reforma da Cúria Romana, com o objetivo de descentralizar decisões e tornar a estrutura da Igreja mais funcional. A mudança ampliou o papel das conferências episcopais (encontros de bispos) e abriu espaço para leigos em cargos de governo — incluindo, de forma inédita, mulheres em posições de liderança, com participação em dicastérios, direito a voto em sínodos e nomeações para postos de chefia no Vaticano, além da autorização para atuarem como leitoras e acólitas.
- 2021: Irmã Rafaella Petrini foi nomeada secretária-geral do Governatorato do Estado da Cidade do Vaticano, tornando-se a mulher com o cargo mais alto no governo do Vaticano até então.
- 2022: Francisco escolheu as irmãs Raffaella Petrini, Yvonne Reungoat e a doutora Maria Lia Zervino para este cargo.
- 2025: Francisco nomeou a Irmã Simona Brambilla como prefeita do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, sendo a primeira vez que uma mulher dirige um dicastério na Cúria Romana.
Sem alterar dogmas centrais, como a proibição do sacerdócio feminino, o pontífice incentivou o debate sobre temas sensíveis, como o diaconato para mulheres, o celibato e a inclusão de divorciados e pessoas LGBTQIA+. "Muitos se lembram do trecho daquela entrevista do Papa Francisco em 2013, logo no começo do seu pontificado, por ocasião da viagem ao Brasil, quando perguntam para ele sobre casais homoafetivos e o Papa responde se uma pessoa é gay e busca a Deus, quem se eu para julgá-la. Então isso marca, é, ou indica também um pouco de como foi essa abertura dele", acrescentou Araújo.
As aberturas e mudanças impulsionadas por Francisco também provocaram críticas de setores mais conservadores da Igreja Católica. Em fevereiro de 2017, cartazes foram espalhados por Roma com questionamentos ao pontífice. As peças exibiam o papa com expressão fechada e a frase “Onde está sua misericórdia?”. As críticas também partiram de cardeais, como o alemão Gerhard Müller, considerado um dos expoentes da ala conservadora. “Esses grupos querem instrumentalizar a Igreja para seus próprios interesses, mas não estão comprometidos com a vida nova em Jesus Cristo”, afirmou.
A única mudança doutrinária direta ocorreu na revisão da posição sobre a pena de morte, que passou a ser considerada inadmissível no Catecismo. "Ele não foi um reformista em chave ideológica nem, muito menos, um moderado no sentido político. Seu ponto de partida foi teológico: uma fidelidade dinâmica ao Evangelho. A reforma que impulsionou não foi, em primeiro lugar, institucional, mas espiritual e pastoral. Ele buscou renovar o estilo missionário da Igreja, recolocá-la em saída, em diálogo com o mundo, mais atenta às periferias e menos centrada em si mesma. Nesse sentido, seu pontificado introduziu processos mais do que impôs soluções, o que ajuda a explicar por que alguns o consideravam insuficiente e outros profundamente disruptivo", avaliou o mestre em teologia argentino Agustín Podestá, de 38 anos.
Entre gestos e reformas
Desde a saudação com um “Boa noite” e o pedido de oração à multidão reunida na Praça de São Pedro, no Vaticano, no momento em que foi apresentado como novo líder da Igreja Católica, Francisco passou a marcar seu pontificado por gestos que romperam com os protocolos tradicionais do cargo. Ao longo dos anos, realizou visitas inesperadas a periferias de Roma e a presídios, onde se encontrou com detentos em uma tentativa constante de aproximar a Igreja de realidades marginalizadas. No rito do lava-pés, durante a Semana Santa, chegou a lavar os pés de presidiários e de pessoas trans, como uma mensagem de acolhimento.

Um dos episódios mais simbólicos do seu pontificado ocorreu em abril de 2019. Francisco se ajoelhou e beijou os pés de líderes do Sudão do Sul, país marcado por uma longa guerra civil, pedindo que não voltassem a recorrer às armas. O gesto foi interpretado como um apelo direto e dramático pela paz e pela reconciliação. "A guerra era uma de suas principais preocupações, e também o fato de que os esforços diplomáticos haviam chegado a um impasse. Ele se entristecia com “os jovens que não voltavam para suas mães”, jovens forçados a lutar", revelou o jornalista italiano Salvatore Cernuzio, de 38 anos, que conviveu durante quatro anos com o pontífice.
Já em 2020, em meio à pandemia de Covid-19, atravessou sozinho a Praça de São Pedro, vazia e sob chuva, para uma oração extraordinária com a bênção Urbi et Orbi (da cidade para o mundo), considerada a mais importante concedida pelo papa. “Ele nos lembrou que a fé não é um sistema fechado, mas um acontecimento que desestabiliza. A Igreja que ele deixa é mais desconfortável, mas também mais honesta, mais consciente de suas feridas e menos obcecada por sua própria imagem”, destacou o padre Pablo Savoia.
O desafio da sucessão
Após a morte do pontífice que, segundo especialistas, se tornou um dos mais populares da história recente, ao lado de João Paulo II, o cardeal norte-americano Robert Prevost foi eleito como novo papa e adotou o nome de Leão XIV. Primeiro estadunidense e também o primeiro membro da Ordem de Santo Agostinho a assumir o comando da Igreja Católica, ele foi escolhido em um conclave precedido por debates que opunham, de um lado, a retomada de posições mais tradicionais defendidas por alas conservadoras e, de outro, a continuidade do legado de Francisco.
"Há uma linha clara de continuidade na atenção às questões sociais, ao mundo do trabalho, à justiça e às transformações da vida contemporânea. Ganha força a preocupação com a paz, tema profundamente presente no pontificado de Francisco, e que Leão XIV retoma como prioridade no contexto atual. Mais do que uma ruptura, portanto, há um aprofundamento", avaliou o teólogo Agustín Podestá.

Nas últimas semanas, o pontífice realizou reiterados apelos pela paz e endurecido o tom contra a escalada de conflitos no Oriente Médio. Leão XIV chegou a afirmar que a violência e o sofrimento causados pela guerra são um “escândalo para toda a família humana”, ao defender o fim das hostilidades e a retomada do diálogo entre as partes. As declarações provocaram reação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ampliando um embate público entre os dois líderes. Em 12 de abril, o republicano afirmou, na rede Truth Social, que Leão XIV é “fraco” e criticou suas posições sobre política internacional.
Antes de embarcar para uma viagem histórica à África, Leão XIV afirmou a jornalistas que não pretende entrar em confronto direto com Trump, reforçando o caráter espiritual de sua atuação. "Não sou um político, não tenho a intenção de entrar em um debate com ele, a mensagem continua sendo a mesma: promover a paz", disse. Na mesma ocasião, ressaltou que não teme o governo norte-americano e que sua missão é anunciar o Evangelho, mesmo diante de críticas.
De acordo com o teólogo Raylson Araújo, as posições e declarações de Leão XIV reforçam a continuidade do legado de Francisco, especialmente no compromisso com a paz. “As pessoas não são iguais, então é claro que são distintas, e não é desejo de ninguém que uma seja cópia da outra. O papa Leão XIV não precisa ser a cópia do papa Francisco, mas fica evidente, inclusive nas entrelinhas de seus discursos, que há uma continuidade, ainda que em um estilo mais discreto”, afirmou.
Estudante de jornalismo pela PUC Minas, Júlia Melgaço trabalhou como repórter do caderno de Gerais no jornal Estado de Minas. Também já passou por veículos de rádio e televisão. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e Mundo.
Jornalista formado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH) e pós-graduado em Jornalismo nos Ambientes Digitais pela mesma instituição. Possui experiência como repórter, produtor e coordenador de telejornal.




