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Bastidores de Francisco: carisma, silêncio e o peso de ter sido o primeiro papa latino

Relatos de pessoas próximas, críticos e fiéis revelam o estilo de liderança durante os 12 anos como líder da Igreja Católica

Por e 
Papa Francisco foi o primeiro latino a ocupar o cargo
Papa Francisco foi o primeiro latino a ocupar o cargo • Vatican Media / Divulgação

Nos corredores discretos da Casa Santa Marta, no Vaticano, o jornalista italiano Salvatore Cernuzio, de 38 anos, acompanhou de perto uma rotina pouco visível do papa Francisco. Entre viagens e compromissos com chefes de Estado e cardeais, testemunhou um pontífice que abria espaço para ouvir histórias comuns. Ao longo de cinco anos na Mídia do Vaticano, identificou na atenção ao outro o traço mais constante — e revelador — da forma como Francisco conduzia a Igreja.

“O que mais me impressionou em sua personalidade foi a capacidade de ouvir, de encontrar tempo entre uma audiência e outra para conversas simples — histórias da vida comum que, segundo ele, lhe faziam bem como sacerdote”, contou o jornalista, que passou a conviver mais de perto com o pontífice a partir de 2021, após convite da Santa Sé.

Para Cernuzio, essa característica refletia o esforço do papa em se manter próximo das pessoas. “A maneira como o rosto dele mudava quando saíamos por Roma era impressionante. Ele chegava à garagem sempre muito cansado. Mas, assim que via algumas crianças ou o olhar de admiração das pessoas, se animava, como se recarregasse. Era como uma lâmpada que se apaga e, em seguida, se acende”, relatou.

O jornalista italiano Salvatore Cernuzio com o Papa Francisco • Vatican Media
O jornalista italiano Salvatore Cernuzio com o Papa Francisco • Vatican Media

Esse comportamento, no entanto, antecede sua chegada ao Vaticano, conforme o padre argentino Pablo Savoia, de 45 anos. A personalidade de Francisco já se desenhava muito antes do pontificado, quando ainda era conhecido como Jorge Mario Bergoglio, em Buenos Aires. Filho de imigrantes italianos e um dos cinco irmãos, cresceu no bairro de Flores, na capital argentina. Aos 21 anos, antes de entrar no seminário, perdeu parte de um pulmão — experiência que não interrompeu sua vocação. Foi ordenado padre e, anos depois, tornou-se arcebispo da cidade.

“Sempre muito simples, de semblante sério, mas afável. Um homem muito de Deus”, lembrou Savoia, que esteve próximo a Francisco quando ambos integravam uma equipe dedicada à formação de sacerdotes. “Depois, já como papa, tive a oportunidade de encontrá-lo várias vezes. O que mais me surpreendia era sua memória: ele sempre se lembrava e perguntava por pessoas da minha diocese. Eu o recordo sempre de bom humor, com uma atitude simples e sem pressa”, acrescentou.

De Buenos Aires ao mundo

O mesmo traço observado nos bastidores também se manifestava diante das multidões. O jeito descontraído, o olhar próximo e a quebra de protocolos ganharam escala global já no primeiro compromisso internacional do pontífice: a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), no Rio de Janeiro, em julho de 2013, três meses após ser eleito para suceder Bento XVI. O evento reuniu mais de 3,7 milhões de pessoas na praia de Copacabana.

“Ele teve um papel muito ativo e carismático, atraindo a atenção de todos com seu estilo acessível e acolhedor. Chamavam atenção a humildade, a proximidade com o povo e as mensagens de esperança dirigidas à juventude”, lembrou a personal trainer Samila Afonso, de 34 anos. Características que também marcaram padre Leandro Pereira, que ainda não tinha entrado no seminário, à época com 27 anos. “Ele ainda estava aprendendo a ser papa, mas já demonstrava grande proximidade com o Brasil e com os brasileiros. Foi ali que, pela primeira vez, pensei em ser padre”, contou Leandro.

Papa Francisco durante a JMJ 2013, no Rio de Janeiro • Vatican News
Papa Francisco durante a JMJ 2013, no Rio de Janeiro • Vatican News

Essa espontaneidade, que para muitos soava como um sopro de renovação, também não passava despercebida pelos defensores das longas tradições do Vaticano. Enquanto a quebra de protocolos mobilizava as multidões, ela desafiava o rigor secular do formalismo, marcando um pontificado que não teria medo do contraste.

“O papa se tornou a única figura midiática da Igreja. Os outros bispos permanecem nas sombras. E precisamos refletir sobre isso. O papa não é o 'pároco do mundo', como alguns dizem. Isso não é verdade”, disse o cardeal conservador alemão Gerhard Ludwig Müller sobre a popularidade de Francisco, às vésperas do conclave de 2025, que elegeu Leão XIV. Na ocasião, ele também criticou a "ambiguidade" doutrinária, a gestão centralizadora e a postura progressista do papa em temas como família e união homoafetiva.

Para o mestre em teologia argentino Agustín Podestá, de 38, essa resistência muitas vezes se deu porque o perfil de proximidade de Francisco reconfigurou a identidade da Igreja ao promover processos de escuta e decisões mais horizontais. Segundo o teólogo, essa lógica de corresponsabilidade remodulou a hierarquia sem anulá-la. “Essa coerência entre o que dizia e como vivia é, talvez, uma das impressões mais marcantes que ele me deixou”, apontou Podestá, que acompanhou de perto a trajetória do pontífice.

Do semblante sério ao riso em público

O semblante sério de Francisco antes de presidir uma missa na Basílica de São Pedro, em 2015, contrastava com os sorrisos que marcaram o primeiro encontro de Leandro Pereira com o pontífice, na JMJ de 2013. “Foi uma surpresa, porque a gente o via sempre sorrindo — e isso só fui entender depois. Nas celebrações oficiais, ele era muito compenetrado, concentrado, com uma seriedade própria do rito. Já nas falas espontâneas, era diferente, mais leve”, contou.

O reencontro ocorreu às vésperas da entrada de Leandro no seminário. Naquele momento, ele ainda não imaginava que a vida religiosa o aproximaria do líder da Igreja Católica. O último encontro foi na Páscoa de 2023, quando já surgiam sinais de fragilidade na saúde de Francisco, que se aproximou em uma cadeira de rodas.

Padre Leandro Pereira com o Papa Francisco • Arquivo Pessoal
Padre Leandro Pereira com o Papa Francisco • Arquivo Pessoal

“Quando o vi, pensei que todos já teriam falado com ele sobre coisas de Deus. Então, quando se aproximou, decidi falar de futebol. Disse que, se ele reconhecesse Pelé como melhor que Maradona, eu poderia admitir Messi acima de Neymar”, relembrou. Segundo Leandro, “os olhos do pontífice brilharam” ao ouvir o tema. “Ele sorriu, bateu no meu braço e disse que conheceu o Pelé pessoalmente. Depois, virou-se para mim e pediu cuidado com a cachaça. Isso me marcou”, acrescentou.

Para o teólogo brasileiro Raylson Oliveira, de 34 anos, a personalidade de Francisco se dá por meio de seu trabalho pastoral, “característico dos bispos” da América Latina. “É muito comum serem essas figuras populares e caírem nas graças do povo. Inclusive, muitos não católicos tinham um respeito muito grande com ele, pela sua capacidade de comunicar, não só com palavras, mas em gestos. Isso fez com que a imagem da Igreja se tornasse mais aceitável até mesmo pelos setores mais críticos”, concluiu.

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Estudante de jornalismo pela PUC Minas, Júlia Melgaço trabalhou como repórter do caderno de Gerais no jornal Estado de Minas. Também já passou por veículos de rádio e televisão. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e Mundo.

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Jornalista formado pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH) e pós-graduado em Jornalismo nos Ambientes Digitais pela mesma instituição. Possui experiência como repórter, produtor e coordenador de telejornal.