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Partido árabe pode ser decisivo para derrubar Netanyahu em Israel

Legenda busca uma aliança com a oposição de Benjamin Netanyahu para conseguir assentos no Parlamento e lutar por direitos da população árabe, que representa 21% dos cidadãos israelenses; especialistas apontam que a coalizão enfrenta resistências, mas é vista como crucial para viabilizar um novo governo

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Eleições em Israel
Eleições em Israel • CNN

Um partido árabe em Israel pode ser decisivo para a oposição ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu chegar ao poder nas próximas eleições, que acontecem em 27 de outubro. O Ra'am, também conhecido como Lista Árabe Unida, é um partido árabe muçulmano atualmente liderado por Mansour Abbas. A sigla atua, principalmente, para garantir direitos à população árabe que vive em Israel.

Os árabes representam 21% da população israelense, cerca de dois milhões de pessoas, de acordo com dados do Conselho de Relações Exteriores, um think tank dos Estados Unidos. A maioria é considerada cidadã de Israel, mas a população que vive em Jerusalém Oriental possui o status de "residente permanente". Essa designação impede que parte dos habitantes tenha acesso a direitos plenos.

Em 2022, o Ra'am conquistou cinco assentos no Knesset, o Parlamento israelense. A sigla fez história ao se tornar o primeiro partido árabe a participar diretamente de um governo em Israel, apoiando a coalizão dos políticos Naftali Bennett e Yair Lapid entre junho de 2021 e dezembro de 2022. Nas eleições atuais, o Yashar, partido de Gadi Eisenkot – principal opositor de Netanyahu – tem a projeção de conquistar até 54 cadeiras no Knesset, conforme pesquisa do Channel 13 News.

Esse número é maior do que o previsto para o Likud, legenda do atual primeiro-ministro israelense, que deve cair de 64 para 50 assentos, segundo o levantamento. Apesar disso, a previsão da oposição não é suficiente para conquistar 61 cadeiras, número necessário para a maioria no Parlamento.

A mesma projeção aponta que o Ra'am conquiste cinco assentos e abra a possibilidade de o partido ser incluído em uma negociação para fazer parte de um eventual governo de Eisenkot, caso o resultado das urnas se confirme. Para Danny Zahreddine, professor de Relações Internacionais da PUC Minas, essa aliança pode ser fundamental para a oposição chegar ao poder, mas os árabes enfrentam dificuldades.

"Como o Ra'am tem projeção de conseguir até cinco cadeiras, torna-se peça essencial para viabilizar qualquer futuro governo. Mas o dilema enfrentado pelos partidos israelenses judaicos [como o partido de Eisenkot] é que, após os ataques do Hamas em outubro de 2023, existe um grande receio na opinião pública de formar coalizões com partidos árabes, sendo visto por setores conservadores e de extrema-direita como um ato de traição", diz o professor.

O Ra'am busca se afastar da vertente religiosa para se integrar à política israelense e conquistar direitos para a população árabe. "Embora mantenha raízes islâmicas conservadoras, o partido prioriza a participação política para obter recursos públicos, melhorar os serviços à população e combater a crescente criminalidade na comunidade árabe", afirma Revita Poleg, ex-diplomata israelense e colaboradora do IBI (Instituto Brasil-Israel).

Uma das medidas para conseguir maior aceitação foi a indicação do policial israelense aposentado Yoav Segalovitz como número dois do partido nestas eleições. Segalovitz, judeu sionista, foi deputado do Knesset e é ex-alto oficial da segurança israelense. Ele tem defendido uma parceria entre comunidades judaicas e árabes para a construção de uma nova política no país.

Poleg explica que a integração do israelense ao partido é uma aliança estritamente político-técnica. "Segalovitz não integra o Movimento Islâmico; o acordo foi concebido para preservar a autonomia das duas partes". Ainda que a sigla adote essas manobras, ela enfrenta resistência dos partidos israelenses.

Por isso, a legenda tem mostrado contenção em declarações e posicionamentos a respeito da criação de um Estado palestino. Especialistas avaliam que a discussão é considerada um tabu na sociedade israelense. Apesar disso, o Ra'am defende a criação do Estado palestino e a desocupação da Faixa de Gaza e da Cisjordânia, reconhecendo a Autoridade Palestina como órgão oficial para a negociação com Israel.

Karina Calandrin, professora de Relações Internacionais do Instituto Brasileiro de Mercados de Capitais (Ibmec-SP), explica que, diferentemente de outros partidos árabes, o Ra'am defende que a participação nas coalizões governamentais pode ser um instrumento efetivo para conquistar direitos e recursos para a população árabe.

O partido busca a obtenção de mais recursos públicos, a melhoria dos serviços à população e o combate à crescente criminalidade nas comunidades árabes. "Essa estratégia já foi colocada em prática em 2021, quando o partido integrou a coalizão de Bennett e Lapid", relembra a professora. Para garantir e manter a integração à política israelense, a sigla tem se mostrado favorável às exigências dos blocos de Israel, incluindo o reconhecimento do Estado judaico.

Durante a conferência Empresarial Globes, em dezembro de 2021, o líder do partido, Mansour Abbas, declarou: "O Estado de Israel nasceu como um Estado judeu. Essa foi a decisão do povo, e a questão não é qual a identidade do Estado. Ele nasceu assim e assim permanecerá". Esse reconhecimento faz parte de quatro condições impostas por Eisenkot para uma possível coalizão. São elas:

Apesar do posicionamento da sigla árabe, Eisenkot declarou que o partido ainda não atende a todos os critérios. "Gadi Eisenkot já declarou publicamente que não pretende incluir o Ra'am em seu governo nas condições atuais", ressalta Karina Calandrin.

Ainda assim, uma aliança que resulte na formação de uma coalizão no Parlamento não estaria totalmente descartada. Uma das possibilidades seria o Ra'am anunciar apoio ao governo de Eisenkot, mas sem formalmente entrar na administração, segundo avaliação do ex-embaixador israelense Ilan Sztulman Starosta.

"Os integrantes do Ra'am podem fazer esse acordo levando em conta que é uma saída para conseguir melhorias no combate à criminalidade em um eventual governo de Eisenkot, já que estão sofrendo muito com esse problema. Não precisa exatamente entrar no governo para negociar, mas pode conseguir concessões mesmo estando fora", analisa ele.

Além do Ra'am, outras siglas árabes também concorrem nas eleições de Israel. Atualmente os três principais partidos formam a Lista Conjunta: O Ra'am integrou a Lista Conjunta desde a criação em 2015, mas deixou a aliança em 2021. O objetivo foi se desvincular de posicionamentos religiosos e adotar uma postura pragmática para conseguir maior aceitação na política israelense.

Mesmo com a saída de um dos membros, a coalizão manteve a visibilidade. Nas eleições de março de 2021, a Lista Conjunta conquistou seis cadeiras que foram distribuídas entre os partidos: Hadash (3); Ta'al (2); e Balad (1).

A aliança se desfez em 2022, quando os partidos Hadash e Ta'al decidiram concorrer juntos, sem a participação do Balad. Os partidos não integraram o governo de Netanyahu que se formou naquele ano. Agora, a coalizão foi novamente reunida pelos três partidos para concorrer nas eleições de 2026.

Lourival Sant'anna, analista internacional da CNN Brasil, avalia que tanto o Ra'am quanto a Lista Conjunta não devem ter participação ativa em um novo governo. "O cenário mais provável é o Ra'am e a Lista Conjunta apoiarem a formação da coalizão de governo, mas não participarem diretamente dela. Isso no caso da formação de um governo vindo da oposição, liderado por Eisenkot", explica Sant'anna. Para o analista, em uma outra hipótese, em que o governo de Netanyahu continue no poder, os partidos árabes devem continuar sem participação.

 

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